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Archive for October, 2004

Esta vida que vivemos

October 28, 2004 1 comment

Hei, eu estou aqui… Você pode me ver aqui, nesta paisagem tão bela? O sol doura minha pele já dourada de sol. Uma chuva fina molha meu corpo. Sol e chuva convivem em harmonia e o céu azul e cinza parece um yin-yang governando tudo. Alguns segundos e tudo fica molhado; segundos depois tudo fica seco. E claro; e nublado.

Hei, sou nesta vida, nesta vida que vivemos. E é tudo maravilhosamente confuso, cheio de belos mistérios e terríveis incertezas. Tudo diferente em cor, tamanho, brilho e humor. Horizontais, verticais e profundidades… O mundo entra pela minha boca e sai pelos meus poros e entra pelos meus olhos e sai pelos meus poros e entra pelos meus ouvidos e sai pelos meus poros… e transformo tudo, tudo, com músculos e pensamentos.

Hei, olhe para essa pessoa ao seu lado. Ela encerra tudo. Ela é sua irmã em um sentido lindo e sua inimiga em um significado horrível. Ela é digna de amor, de pena e de admiração. Essa pessoa ao seu lado resume você e você a resume do mesmo modo. Olhe como ela é você e como ela não tem nada a ver com sua pessoa. Ame-a e a odeie por tudo que ela representa. Ame-a por ela lhe dar a certeza de que você é humano. Odeia-a por ela lhe dar a certeza de que você não é único. Você não é único.

Hei, consegue entender esta vida? Veja quantas idéias em tantas cabeças, e qual delas está certa? Nenhuma delas está certa, nem as suas idéias. Nenhuma delas é absurda, pense bem. Eu guerreio pelo momento oportuno de declarar minha paixão e medo. A vida me inspira gritos e pulos de contentamento e fugas de medo e socos de raiva e rugas de amor.

Hei, esta vida que vivemos… Os pulsos e impulsos, as precipitações de nossas grandes cabeças, nossos cansaços desesperançosos, nossa esperança vencedora… Chore e ria, não fique assim.

Hei, chorar é tão belo quanto rir. Todas as manifestações do mundo no meu corpo são gozadas por serem belas, serem vivas! Nós manifestamos o mundo. Tão pequenos e refletimos o universo inteiro. Tão nadas, e somos tudo! Somos tantos, tão diferentes e iguais, somos tantos e tão individualmente especiais e tão coletivamente invisíveis e tão e tão… Que coisa incrível.

Hei, a vida dói unicamente por ser finita, e é bela justamente por ser finita, e é louca exatamente por ser assim. Eu vago, tu vagas, eles vagam… E todos vagamos juntos para o mesmo lugar, qualquer que seja, se for.

Hei, eu me sinto. Você consegue se sentir?

Hei, esta vida que vivemos é composta de efemeridades. Nada do que você se agarra é permanente. Nenhum dos seus sentimentos é eterno se você olhar para o resto do mundo que o cerca. As coisas vão acabar sem você se você não dançar com elas. Você tem que ouvir música.

Hei, lembre-se sempre de olhar o resto do mundo que o cerca. A vida é grande demais para que não haja algo sagrado para você. Creia que não há sagrados, que seja; este será o seu sagrado. Creia que não há no que acreditar; este será seu sagrado. Mude seu sagrado; sagre o mutável, sagre a mudança. Viva certo da incerteza, mas viva certo.

Hei, você. É, você. Eu odeio você e amo você. Eu amo você.

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Categories: Crônica, Prosa

Lugarzinho

Repouso no canto conhecido
Das lembranças distantes
E presente parado.
Onde não há reinício,
Apenas repetidos instantes
De um momento calado.
Aqui a vida é mais fácil,
Pois hoje é como antes
E estou preparado.

Mas…

Resta ainda um suspiro,
Que retorna amiúde
E aponta o errado.
Essa porta é a saída.
Minha dor é a de sempre,
Mas deixo o canto ao passado.

Categories: Poesia

Um dia de multidão

Saio de casa pela fila de segunda
para estudar em uma classe de sonâmbulos
e almoçar em um restaurante de segundos.
Volto pra casa em uma fila de sexta
para curtir em uma festa de zumbis
e enfim dormir sonhando sonhos de terceiros.
Fim de semana eu me junto em uma roda
para discutir essa questão de ser igual
e procurar as diferenças desses quartos.
Domingo à noite eu me tranco sozinho
para pensar a semana e então percebo
que as diferenças já se foram para os quintos!

Um dia de multidão
Um dia na multidão
E somos todos multidão
E somos todos multidão

As diferenças que rogamos como nossas…
as alegrias de pensarmos como somos…
pensar que pensamos além, do outro lado…
o pensamento de que aquilo é o povo…
chamar o povo de rebanho conformado…
e rir cantando o riso dos pseudo-sábios…
E os pastores?
Não há pastores
E somos todos multidão.

Categories: Poesia