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Archive for November, 2004

Por cima da última onda

Eu gosto de fins de anos. A magreza do mundo desaparece, ele fica rechonchudo e simpático. Dá vontade de afagar os cabelos gelados e abraçar esta criança desembestada.

Estou na última onda do ano. Não quero que mais nada aconteça. Já deu. Este ano foi intenso, quero descansar. Torço pela cama, filme e pipoca até que 2005 siga os fogos até minha mente. Quando ele pousar na minha testa eu vou pular ensandecido mundo afora. Ah, vou!

2005 é o ano em que grandes coisas se definem! Preciso recebê-lo bem, dizer que espero dele apenas um dia depois do outro, que o resto ele pode deixar comigo, pois vou fazer tudo sozinho. Só preciso mesmo de um dia depois do outro. Ano que vem é o segundo ano da matéria (quem é leitor antigo sabe que 2004 foi o primeiro).

Agora vou acender o isqueiro e queimar os fios soltos. “Lá vai ele, por cima da última onda”.

Ainda preciso falar deste ano, não é? Não é justo não dar um adeus adequado. Sinto-me obrigado a escrever uma retrospectiva 2004. Está combinado. Assim que estiver escrito eu publico. Vou deixar mais para o final do ano, vai que acontece algo maluco…

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Categories: Geral

Pancinha vai ao casamento

Casaram-se, enfim. Foi uma cerimônia simples em uma igreja azul, com um padre amarelo e padrinhos vermelhos de bêbados. Um cheiro de churrasco dominou toda a cerimônia; eram os coroinhas que tinham esquecido o dia do casório e fizeram um churrasco utilizando como churrasqueira os tijolos da ampliação da igreja. Um dos convidados da noiva, o Pancinha, levantou no “sim” do noivo para morder uma lingüiça. Estava boa, falaria depois se justificando para a inconsolável mãe.

A noiva estava deslumbrante de branco e branca de medo. Ela entrou na igreja sob uma chuva de confetes do último carnaval. Seu pai a acompanhou corado e sua mãe não pôde conter o choro ao imaginar o futuro da filha com aquele homem a quem entregaria sua menina. Aquele homem era rico, um negociante de cabras finlandesas que se tornou ator de filmes pornôs. Poucos sabiam da sua profissão; na verdade, dos presentes no casamento, só quem sabia da profissão era a ninfomaníaca mãe da noiva, fã do genro. Ele prometeu a ela que depois do casório não entraria mais em negócios desconhecidos. De fato, abandonou a carreira durante a fase de crescimento.

O filho adotado do padre ficou lendo revistas do homem-aranha durante toda a cerimônia e em um descuido gritou “não” bem na hora que o noivo disse “sim” e que o Pancinha levantou. Alguns pensaram que havia sido o noivo, outros que o Pancinha estava apaixonado pela prima e havia entrado em desespero. Esse incidente quase acabou com o casamento, demorou meia hora e muita reza para que tudo se ajeitasse. Todos perdoaram o menino mais tarde, quando ele explicou que a Gwen, a jovem e doce Gwen, havia falecido.

A madrinha da noiva estava apaixonada pelo padrinho do noivo e durante todo o casamento ficou se insinuando eroticamente. Fazer caras e bocas naquela situação a deixou tão excitada que chegou a ponto de tirar sua calcinha e atirar ao padrinho no mesmo momento em que o noivo beijava a noiva. A calcinha voadora chamou atenção apenas da madrinha do noivo, que a pegou no ar e olhou enlouquecida de desejo para a madrinha da noiva. Os três se casaram dois meses depois em uma cerimônia bem mais informal.

O casal foi feliz até o fim da vida. O trio também.

Categories: Crônica

Os poucos dias que governam todos

Eu me considero uma pessoa de sorte quando lembro de tudo que já experimentei na vida. Vocês não fazem idéia de como é bom ser o Robson Brino Faggiani. Se eu pudesse, eu deixaria vocês serem eu por algum tempo para ver a maravilha que é meu mundo anímico e o quanto admiro as pessoas. A vida é muito confusa para mim, eu sou um cético que acredita em apenas uma ou duas afirmações, o que faz das coisas todas um caos absoluto. E mesmo assim é uma vida que vejo tão bela, tão cheia de mistérios empolgantes e deliciosas conquistas inúteis. Inexplicável… vocês teriam que ser eu para entender.

Engana-se quem pensa que todos os momentos são maravilhosos ou que a vida toda tive o que quis. Não, eu penei, como todos vocês. E sofri, e sofro, como todos vocês. Quando estou lá embaixo, na mais sinistra solidão, na escuridão pegajosa, eu não penso “anime-se, pois há quem sofre mais do que você”… Da mesma forma, quando estou feliz a ponto de explodir em mil sóis, eu tenho a certeza de que sou a pessoa mais feliz do mundo! O sofrimento e a felicidade só falam a quem os sente, e comparar os seus com os sentimentos de outras pessoas é chamar a si mesmo de menos que humano. Não, eu sou humano e o meu sofrimento e minha felicidade é o mesmo que os de todas as pessoas.

Se vocês fossem eu, saberiam como é maravilhoso ter milhões de amigos com os quais se divide a vida. Sempre achei fácil fazer amigos e nunca entendi a afirmação de que verdadeiros amigos são raros. Os meus são vários, não são raros, e ainda assim considero cada um deles como a pessoa mais maravilhosa do mundo. Vocês sabem quem são, meus queridos e queridas. Vocês sabem quanto construíram da minha vida e quanto serão importantes para mim até o último suspiro. Amigo eu não empresto nem troco, mas divido, sim.

Há dias em que me sinto um animal, todo sensação e emoção, pronto para expulsar o rei e elevar a pedra. Nesses dias questiono todos esses conteúdos tolos que somos obrigados a saber, todas as verdades e afirmações que me contaram. A vida como ela é hoje, com as leis de hoje e as manias de hoje, e os certos e errados de hoje, são apenas uma versão do todo. Não é minha versão preferida, devo dizer. Eu reverteria tudo, se pudesse. Faria as coisas da forma como sinto quando sou simplesmente animal. Destruiria os pressupostos mais básicos que formam as culturas e nações. Seríamos finalmente iguais.

Em outros dias, sinto-me uma máquina, todo raciocínio e lógica. Então aceito os conteúdos como um mal necessário para a existência em grupo. Percebo o quão necessárias são as leis e os caminhos valorizados de vida. Apesar de não recriminar meu animal, conto a ele que ele deve permanecer na universidade, tornar-se mestre, doutor e dar aulas e posteriormente escrever livros. Ele reclama, claro, mas entende que a vida é mais complexa do que desejos.

Na maioria dos dias eu sou um misto perfeito dessas duas forças, a máquina e o animal. Confesso que o animal pulsa mais forte, e que o controle da máquina sobre ele é um engodo para tranqüilizar o mundo. No fim, ambos buscam o êxtase, ambos se confundem com as possibilidades infinitas de ser humano, e se confundem e mesclam nessas possibilidades. É por isso que sou infinito em potencial.

O êxtase se resume a algumas poucas experiências de prazer e dor tão intensas que tentamos repeti-las e evitá-las a todo custo. A delícia é que essas experiências estrondosas não estão limitadas pelo tempo e acontecem de repente e em qualquer momento da vida. A vida verdadeira é o tempo que passamos tentando alcançar o êxtase novamente. É nesse tempo que aprendemos, que crescemos e entendemos o quão raros e importantes são os dias de êxtase. São os poucos dias que governam todos!

Ah, as mulheres que já amei… São poucas, pois meu amor é exigente e não se dá a todas, mas quanto brilho irradiavam, quanta beleza transmitiam, quanto bem me faziam as mulheres que amei! Elas me ensinaram muita coisa e eu retribuí com todo o amor que pude, e as ensinei tanto quanto pude, e fomos felizes enquanto nos foi permitido estar juntos! Maravilhoso e maravilhosas! Ainda as amo, todas elas, nunca tive motivo para não amá-las.

Tudo isso, toda essa vida… Se vocês fossem eu entenderiam. Eu gostaria de entendê-los. Se eu pudesse, também seria cada um de vocês por algum tempo. Tenho certeza de que confirmaria o que acredito: somos iguais.

Categories: Prosa

Matias

Matias é um velho amigo meu. Vejam a foto dele no meu fotolog, cujo link está ao lado.

Matias foi um cara que conheci há muito tempo atrás no Guarujá. Eu era mais amigo da irmã dele, a Pipsi, uma guria muito supimpa e altamente hiperativa demais a conta sem parar de jeito nenhum para respirar colocar vírgulas ou qualquer outra coisa que não envolvesse usar os músculos. Ambos tinham apartamento no mesmo condomínio que minha família. Eu e o Matias tivemos apenas uma conversa séria, mas da qual nunca mais esqueci. É um lance bacana, pois esse cara quase nem lembra de mim e eu vou me lembrar dele para sempre por causa de duas coisas que ele me falou. Enquanto para mim foram duas coisas fundamentais, para ele foram algumas palavras jogadas fora em uma tarde quente no litoral.

Eu era um gurizão de 17 anos e com muita coisa VAZIA na cabeça. Havia decidido há pouco tempo que queria fazer Psicologia e pensava que passar no vestibular para a USP era a coisa mais fácil do mundo. Eu tinha aquela confiança cega e banal dos adolescentes de que tudo está ao alcance das mãos apenas por se desejar a coisa. Eu admirava o Matias, pois ele era surfista, pegava a mulherada, era mais velho, tinha uma namorada gatíssima, aquela coisa toda. Por isso tentei impressioná-lo durante a conversa; isso só tornou o papo mais embaraçoso para mim, mas também com mais aprendizados ao final de tudo.

Na tarde em que o Matias e eu conversamos, disse a ele que queria fazer Psicologia e fiquei surpreso quando ele afirmou que também tentaria Psicologia no vestibular. Disse-me que havia ajudado recentemente um amigo a deixar as drogas e que aquilo o fez perceber que ajudar as pessoas era sua vocação, e que lutaria por isso. Eu contei que desejava cursar Psicologia para entender grandes mentes como a de Hitler, pois achava incrível sua desumanidade e a do povo alemão. Falei, claro, para impressionar. Os pais deles eram alemães: burrada minha não ter me lembrado disso. Ainda assim, ele bem calmamente me explicou que realmente os alemães haviam cometido muitos erros, mas que qualquer povo, ou qualquer pessoa na posição deles teria feito a mesma coisa. Fiquei muito impressionado com o que ele disse, e com mais alguns argumentos que ele mostrou sensatamente. Estou certo de que a explicação que ele me deu e o entendimento que tive sobre contextos e relatividades foram pilares para meu modo de pensar. Essa foi a primeira coisa que me impressionou.

A conversa continuou e ele contou que estava estudando dia e noite para a prova da USP. Afirmou que por mais que não gostasse da idéia do vestibular, nem de estudar, era preciso para que pudesse completar seu objetivo. Isso me surpreendeu bastante, pois era a idéia de um gurizão e não de pais e adultos sabichões. Ainda assim, mantive minha postura demasiadamente confiante e disse que não estava estudando, pois tinha certeza de que a prova seria fácil. O Matias ficou bem sério nessa hora e me aconselhou a abandonar essa postura, pois ela não me levaria a lugar nenhum, e que se a mantivesse, no outro ano ele estaria na USP e eu não. As palavras me marcaram muito, mas não segui seu conselho. Como profetizado, ele passou no vestibular para a USP e eu não passei em lugar nenhum. E foi aí que a lição fez todo o efeito.

Foi apenas isso, dizendo. Mas só eu sei o quanto essa conversa teve sentido para mim, pelo momento que eu vivia e pelas coisas que ela me acrescentou. Revi-o em Ribeirão Preto, ele do lado do painel dele, eu do lado do meu. Ambos cursando a universidade que escolhemos, ambos na Psicologia, ambos decididos e tranqüilos. Vê-lo de igual para igual despertou um sentimento muito positivo em mim, ainda mais por que vê-lo em desnível foi obra da minha cabeça.
É isso aí. Grande Matias! Ele nunca lerá isso, mas eu o agradecerei sempre.

Categories: Crônica, Diarices, Prosa

A arte de se alimentar de

Geraldinho aprendeu a se alimentar de desde pequeno, dessa forma nunca passou aperto, mesmo tendo vivido naquela casinha suja do fim da rua e tendo tido pais tão negligentes com suas necessidades. Vivia preso em seu quartinho, junto ao seu pássaro azul que não cantava. Fugiu de casa e aos 14 anos ganhou a vida ministrando palestras em hotéis caros para gente atenta sobre como sobreviver de. Em uma dessas palestras conheceu Natália, uma moça da fazenda que contava 40 anos na época em que se entregou para Geraldinho, dando a ele o apelido carinhoso de Dinhoinho.

Natália nunca em sua vida toda colocou qualquer coisa na cabeça de Geraldinho e ele era grato por isso, mas seu ciúme o mandou contratar três seguranças fortemente amargurados para seguir sua mulher amadíssima. Foi por essa época que a grande vantagem de Geraldinho, a de se alimentar de, esvaeceu, tornando o famoso palestrante de hotéis caros em mais um desses picaretas que cavam fundo o bolso da platéia com palavras insinceras.

Geraldinho, corroído pelo medo de perder a mulher e já sem nenhuma habilidade de se alimentar de, foi realmente abandonado por Natália e se isolou em uma montanha muito distante de qualquer hotel caro conhecido. Meditou por alguns anos até re-aprender com superior maestria a arte que havia lhe dado sucesso e amor. Voltou à civilização, mas não quis contatos com Natália ou hotéis caros. Terminou a vida aos 58 anos, engasgando-se de depois de tanto rir de felicidade ao ouvir o canto de um pássaro azul.

Categories: Prosa