Archive

Archive for the ‘Filosofia’ Category

a-liberdade

Em um post anterior, iniciou-se uma discussão sobre liberdade.

Eu honestamente acredito que liberdade não existe. Liberdade é uma palavra utilizada para descrever relações impossíveis. Sendo simplista, com um exemplo radical, não podemos escolher não dormir. Dormiremos, hora ou outra.

O conceito de liberdade não cabe em um mundo científico. Seria incompatível dizermos que podemos prever fenômenos físicos, mas não psicológicos; que fenômenos físicos são determinados, mas não os psicológicos. Seria incompatível especialmente no mundo de hoje, em que se demonstra com crescente grau de certeza o quanto nosso comportamento depende da estrutura cerebral (pura biologia ou, em outras palavras, pura química ou, em outras palavras, pura física).

Conhecendo as variáveis, conhecemos o que vai ocorrer. Um lançamento de dados pode ser previsto. O comportamento humano também. É obviamente mais fácil prever o lançamento dos dados do que o comportamento humano. Isso ocorre porque as variáveis que afetam os dados são consideravelmente mais simples do que afetam o comportamento.

Liberdade, em um sentido possível, é a ignorância que temos em relação ao que determinou o comportamento atual e em relação ao que vai acontecer com o comportamento. Podemos formular hipóteses, mas ainda é impossível (e não acredito que um dia será possível) identificar todos os fenômenos relacionados a um comportamento, por mais simples que este seja.

Para existir uma ciência psicológica, tem-se que aceitar que os comportamentos são determinados. Caso contrário, não se tem ciência: apenas opiniões. Por mais interessantes que opiniões possam ser, não penso que são adequadas em um contexto profissional.

Claro que a idéia de liberdade como ignorância (ou como percepção) não deve agradar muito. Claro que a idéia de que não existe liberdade produz alguns problemas. No papel, todos os criminosos seriam inocentes, os sistemas de regulação do comportamento seriam inválidos, etc. Por outro lado, criminosos jamais serão libertados e leis não deixarão de existir. O caso é simples: o ser humano se defende. Criar leis, afastar criminosos está determinado. É possível questionar; no entanto, no máximo, uma lei será trocada por outra.

Não podemos ignorar os fatos científicos. Temos que trabalhar a partir deles.

Advertisements
Categories: Ciência, Filosofia, Psicologia

dois livros que ajudam a pensar

November 20, 2007 6 comments

Depois de uma Idade Média sem leituras, voltei ao mundo dos livros que não são de Psicologia. Ainda não voltei à literatura, porém.

Estou lendo dois livros que ajudam a pensar. Vou falar mais sobre cada um deles:

Cultura Geral
Quando eu vi esse livro na prateleira, fiquei coçando de vontade de comprar. Dei uma folheada e percebi que o livro abrange muita, muita coisa. Essa aparente qualidade normalmente se desdobra em um problema: uma abordagem resumida demais dos fatos.

livro-prop.jpg
Clique no livro para pesquisar seu preço

Agora o estou lendo e vejo que estou certo, os fatos são apresentados de maneira resumida. Eu estava errado, porém, quando pensei que isso era um problema. O autor, Dietrich Schwanitz, mostra os acontecimentos de forma fluente e às vezes bem humorada. Conta uma história do mundo, descrevendo desde os gregos os caminhos que nos tornaram quem somos. Fala do caminho da política e da economia, da arte plástica, dos filósofos, da literatura e das línguas.

O fato de o livro ser resumido e deixar, necessariamente, muita coisa de fora, produz a vontade de conhecer mais. O livro me fez ter vontade de pesquisar vários tópicos, o que me fez ter uma visão mais aprofundada do tema. É um livro que leva a outros, e leva à curiosidade. Ele está na minha cabeceira, esperando-me paciente para me contar um pouco sobre o mundo todo. É meu avô de cabeceira.

.
O mundo assombrado pelos demônios
Este livro do Carl Sagan todo mundo conhece, já ouviu falar. Um dia é preciso pegá-lo na mão e lê-lo. Estou fazendo isso agora, com uma voracidade crescente. Sagan fala sobre a ciência e sobre a pseudociência, dando exemplos de ambas. Defende a superioridade do método científico em conhecer a natureza e utiliza, dentre outros, um argumento muito bacana: a ciência nos torna novamente crianças curiosas, prontas a saber de tudo e a duvidar de qualquer coisa que nos pareça errada.

o-mundo-assombrado.jpg
Clique no livro para pesquisar seu preço

O modo como Sagan escreve me lembra das aulas do meu professor de Psicologia Experimental, com o qual posteriormente trabalhei enquanto estava na graduação. Ambos vão desfiando diversos temas seguidamente, dando a impressão de que eles não se relacionam e, então, falam alguma frase ou palavra mágica, e todos aqueles temas se juntam em uma compreensão geral da natureza da ciência ou da bobagem pseudocientífica.

Estou tremendamente curioso para saber a opinião de Sagan a respeito da Psicologia. Ele deixou antever que a considera uma ciência, mas não sei o quanto tratará dela e com que habilidade, já que é um astrônomo. A opinião me interessa muito porque Sagan considera a Psicanálise e a Parapsicologia como pseudociências, como eu. O que é ciência psicológica?

O livro é um monumento à arte de pensar.

deve a psicologia ser guiada por um “ideal” pragmatista?

September 23, 2007 11 comments

De forma resumida, o pragmatista considera que não é possível descobrir A VERDADE. Por isso, contenta-se em descobrir uma verdade provisória sobre os fatos da realidade e compromete-se a abandonar suas afirmações provisórias tão logo outra verdade, mais eficaz, seja apresentada.

Ou seja, a qualidade de uma verdade é medida pelas conseqüências práticas que proporciona. A melhor verdade, então, é aquela que produz melhores resultados.

Como eu apontei antes, e como muitos autores apontam (vejam Davidoff, Schultz & Schultz, Bock, Figueiredo, entre outras centenas), a Psicologia possui diversas maneiras de lidar com os fenômenos psicológicos. E vai mais fundo: a própria definição do que é fenômeno psicológico e do que é o ser humano muda muito de abordagem para abordagem psicológica.

Toda essa amplitude, é claro, engloba perspectivas científicas, quasi-científicas, nada científicas, e bobagens de todo tipo. Não quero defender qual é a melhor maneira de lidar com o humano, nem quais perspectivas considero deficitárias. A discussão é outra:

Deve a Psicologia ser guiada por um ideal pragmatista?

Dizendo de outro modo, é válido para os clientes (individuais e coletivos), estudantes e profissionais que um pente fino seja passado na área da Psicologia, deixando ativas apenas as abordagens que explicam o humano de forma simples e eficiente?

A resposta parece óbvia. No entanto, a realização de tal obra não é simples.
Alguém quer discutir? Uma primeira e complexa pergunta: como definir o que são melhores resultados?

deve a psicologia ser guiada por um ideal pragmatista? Homem e Mundo. Análise do Comportamento. Terapia Comportamental. Terapia. Psicologia.

Categories: Ciência, Filosofia, Psicologia

a tecnologia versus os novos velhos

Alguém aí está enjoado das mudanças rápidas do mundo?

Hoje estou um pouco triste, com saudades. Estou me sentindo um velho cansado e de saco cheio. Tenho vontade de mandar os barulhentos calarem a boca para eu poder dormir em paz. Acontece que não sei o quanto sei lidar com as mudanças rápidas do mundo. Assim como muitos idosos atuais não se interessam por computador, eu tenho pouco interesse em conhecer todas as novidades desse mutante mundo.

CONSEQÜÊNCIAS SOBRE O COMPORTAMENTO
Um mundo de mudanças muito rápidas produzem pessoas diferentes das produzidas por um mundo com transformações lentas. Óbvio! Não é possível formar uma opinão duradoura em um ambiente mutante. Não é possível contar com o próprio emprego em um mercado instável. Não é possível aprender nada profundamente com informações sendo substituídas por outras informações que são substituídas por outras informações na velocidade da luz. Não é possível manter o interesse em nada por muito tempo, pois novos produtos surgem a todo o momento…

Que tipo de pessoas surgirão desse mundo?

  • Pessoas certamente dinâmicas, mas será que com conhecimentos específicos suficientes para um trabalho aprofundado?
  • Pessoas voltadas para o próprio umbigo. Pessoas solitárias. A conexão entre todos é tão efêmera, que as pessoas só podem tentar conhecer verdadeiramente a si mesmas, se muito.
  • Pessoas inseguras. O novo mundo não está pronto para absorver tantas pessoas; em verdade, as novas tecnologias pretendem reduzir o número de empregos e não de produzi-los.
  • Pessoas minúsculas diante do tamanho das organizações.

DECIDA EM QUAIS FORMIGAS CLICAR COM SEU DEDO MINÚSCULO
É comum que se defenda o enorme acesso à informação que a internet proporciona. É realmente delicioso. Mas dá uma sensação de vazio: são tantas e tantas coisas para ver, de tantos lugares, por tantos ângulos. Chega a ser ridículo poder absorver tão pouco de um mundo tão grande.

O acesso a dados e a facilidade imensa de publicar nesse novo mundo parecem produzir, na maioria das pessoas, a sensação de grandiosidade. “Eu falo e qualquer pessoa do planeta pode me escutar”. Essa é uma verdade incompleta. O dado que uma pessoa produz está realmente acessível, mas isso não significa que ele será encontrado e acessado, ou que é interessante. Em verdade, são tantas as opções oferecidas pela rede de dados que, ao invés do gigantismo, a internet teve o efeito de mostrar o quanto as pessoas são pequenas.

VOCÊ AÍ, ESTÁ REALMENTE PREPARADO PARA JOGAR?
Ter acesso à tecnologia por meio de cheques em lojas ou de assinaturas gratuitas a publicadores de blogs e páginas pessoais não significa estar dentro do grande jogo.

Somente uma elite pode jogar: a dos sortudos apaixonados por programação e por novidades eletrônicas. Pessoas muito habilidosas na arte e na ciência, e pessoas altamente criativas, podem fazer sucesso no mundo virtual, mas ora ou outra terão de lidar com a nova tecnologia. Ou torcer para que ela seja cada vez mais fácil de ser utilizada. De certo modo, o novo mundo está na mão dos programadores profissionais e conhecedores avançados de tecnologia. Eles decidem os rumos do mercado e as possibilidades de criação.

Uma pessoa preparada hoje, do meu ponto de vista, não é aquela que sabe utilizar um programa, ou um aparelho eletrônico, mas sim aquele que sabe manipular profundamente a tecnologia. Não adianta conhecer o programa de HOJE, pois ONTEM criaram um mais avançado. Se você não encontrar tempo para se atualizar continuamente, está fora do jogo. Caro, você pode pagar alguém pelo serviço técnico.

O NOVO MERCADO E O VELHO MERCADO
O novo mercado está em consonância com o que foi dito no tópico acima. Para prosperar é preciso se adaptar à nova tecnologia. As empresas que mais crescem na atualidade são prestadoras de serviços na internet. Se tudo continuar crescendo como está, várias facetas do mercado atual podem ser extintas, ou alguém duvida, por exemplo, da possibilidade de que supermercados deixem de existir fisicamente?

Não importa sua profissão. Para ganhar a vida, é preciso criar um mercado chamativo do ponto de vista virtual. Está esperando o quê?

OS MÚSCULOS DEVEM SER MOVIDOS
Fui criança de correr na rua, bringar de esconder, jogar futebol com gols de pedra, andar de bicileta em bando. O crescimento desenfreado das cidades, a quantidade enorme de carros e a violência exponencial estão limitando a brincadeira física para dentro dos condomínos. E nem entre portas as brincadeiras físicas fazem tanto sucesso quanto os novos jogos e a internet. Aumentando o acesso à internet, haverá também um aumento da obesidade. Eu não acredito em nenhum incentivo ao esporte funcionando, ao menos não nos moldes atuais.

Toda nossa cultura está se voltando ao conforto doméstico. Músculos são cada vez menos necessários. O problema é que um corpo frágil não produz pessoas felizes. O movimento é imprescindível para a saúde. Apesar de a sociedade ser rápida, nossa estrutura biológica é a mesma há 100000 anos. Ainda temos a necessidade de fortalecemos o corpo. Movimentar-se produz substâncias fundamentais para o bom andamento de funções orgânicas, incluindo aquelas ditas “intelectuais”.

OS NOVOS VELHOS
Tudo isso para quando?
Já está acontecendo. A pergunta é quanto tempo vai demorar para que uma nova tecnologia produza uma mudança radicalmente rápida. O mundo não está preparado para isso. Ou está e não consigo enxergar?

Tenho um pouco de medo. Dedico algum tempo do meu dia a pensar em como posso me adaptar, levar minha profissão para o novo mundo e, até, que linguagem de programação aprender para me dar bem. Este blog existe como tentativa de não ser passado para trás.

Faço isso com saudade de andar de bicicleta, de ir até a praça para o lazer.

E você, é novo velho ou um novo novo?

Categories: Coisologia, Filosofia

as palavras

Você já reparou que tudo são palavras?

Se você pegar uma palavra, como “perfeito”, e se perguntar por que ela é usada e de onde ela veio; em seguida, repeti-la dezenas de vezes, você vai perceber o quanto ela não tem sentido “por ela mesma”. A palavra “perfeito” não é aquilo a que ela denomina.

Eu duvido que você seja capaz de beber a palavra “água”. Ou que consiga comer a palavra “arroz”.

Você não é capaz de comer “arroz”, nem beber “água”, mas é capaz de comer e beber aquilo a que elas nomeiam. Aquela coisa sem cheiro, sem cor, e a outra, que é um monte de coisinhas.

O mais louco é que você também não é capaz de se referir ao “arroz” ou à “água” sem usar uma palavra qualquer. O arroz não é só “arroz”, ele também é “branco” e “pequeno”, podendo ou não estar “salgado”. Você pode pintar o tal “arroz”, mas não é uma solução nada prática.

A verdade é que aquilo que você bebe não precisa chamar “água”. O nome não é a coisa!

Ou é?

Se alguém disser que você é um “idiota”, você vai se sentir ofendido?

Pense bem, já é difícil acreditar que “água” é água, imagine então algo como uma opinião. Uma porta é “bonita” na boca de um e “feia” na boca de outro. E o seu sobrinho está “grande” ou não “cresceu nada”?

Os adjetivos, além de carregarem o problema de não serem o que nomeiam, são ainda mais pesados por serem opiniões. É assim que a mesma pessoa é “idiota” ou “inteligente”.

Acho que tudo isso mostra que a palavra não é a coisa.

Ou é?

Lembra que te chamaram de “idiota”? E aí, você se sente ofendido ou não?

Imagine que a pessoa que te ofendeu de “idiota” é a pessoa a quem você ama. Aposto que essa ofensa doeria mais do que um pisão no pé, talvez até mais do que um tapa na cara.

É difícil de entender que isso seja possível… As palavras não são as coisas, afinal!


Acontece que as palavras não são as coisas,
mas se parecem muito com elas!

São semelhantes o suficiente para machucar ou alegrar, mas não tão parecidas a ponto de podermos comer “arroz”.

Por que isso acontece?

Porque nosso corpo é meio burro. Bom, mais ou menos isso. Quando você aprendeu a palavra “água”, devia estar vendo água, ou então com sede, e aí dizia “água” e ganhava a dita cuja.

Quando alguém dizia que você era “bacana”, “gente boa”, ou “o cara”, aposto que quem dizia isso olhava nos seus olhos, tocava seu ombro, sorria, fazia uma cara legal, etc.

De forma semelhante, toda vez que te chamavam de “idiota”, usavam um tom de voz ríspido, com uma cara nada amigável, e provavelmente te davam as costas.

Essa é a história.

As palavras ficam impregnadas com a situação em que elas apareceram. Nosso corpo, para o bem ou para o mal, faz um pareamento entre a situação e a palavra.

Daí acontece que o corpo reage à palavra do mesmo modo como reage à situação. Doido, né?

Aposto que quando você está com fome, é gostoso falar de comida. E que apenas o nome da pessoa a quem você ama é capaz de te deixar meio bobo.

Se você tivesse aprendido a palavra “martelo” em um clima agradável, com pessoas rindo à sua volta, e te dando doces e coisas que você gostava, você adoraria ouvir “martelo”, ainda mais mais se saísse de uma boca amada.

E isso explica tudo: pareamento situação-palavra, emoção-palavra, necessidade-palavra. Ê mundão humano!

Eu sempre tento me lembrar de que as palavras apenas parecem as coisas, mas não são. Sempre mesmo. Ajuda a não ser enganado.

Por exemplo, quando eu ouço “pessoas com cara comprida são burras”, eu não caio nessa. Primeiro, porque “caras compridas” é um adjetivo que reflete uma opinião. Segundo, porque ocorre o mesmo com “são burras”. Na verdade, se ouço isso, começo a desconfiar que “burro” é quem falou a frase.

Acabou.

PS: Reza a lenda que há muito tempo atrás um garoto estava sendo perseguido por um “lobo”. Virou o animal do avesso e comeu um delicioso “bolo”.

Categories: Coisologia, Filosofia

e quem não tem deus ou algo assim?

Bom, a essa altura do campeonato, vocês devem saber que Deus, ou algo assim, não existe para todo mundo.

Para mim, não existe, por exemplo.

O que fazer quando chega um momento de aperto, como quando seu carro está indo em uma velocidade incrivelmente perigosa na direção de um muro (ou precipício)? Aqueles que têm Deus, ou algo assim, podem rezar, ou coisa do tipo. Na minha opinião cética, isso serve apenas para aliviar a cuca, porque reza alguma vai mudar o fato de que o muro parece estar andando bem rápido.

E quem não tem Deus, ou algo assim, o que faz? É legal colocar a esperança em algum lugar. Por isso ela é a última que morre, ela sempre está em algum lugar distante do enredo fatal.

Os céticos só podem contar com uma coisa: a probabilidade de bom funcionamento do mundo. Se o carro tiver um bom freio, se o motorista tiver reflexos como os de um predador, se a pista não for escorregadia, etc, o acidente pode ser evitado. Quer dizer, tem maior chance de ser evitado.

Aqueles que não têm Deus, ou algo assim, têm que contar com as coisas bem cuidadas. É preciso se esmerar e exigir esmero. Se você é um cético, é bom começar a fazer tudo corretamente. Nunca se sabe quando você vai querer jogar a esperança em alguma coisa. Deus é que não vai ouvir.

E, se não tiver jeito, é por que não tinha que ter. Não se trata de destino, trata-se de uma determinação tão poderosa e imutável, que nada adianta, no fundo do poço da verdade chata.

Acabou.

Categories: Coisologia, Filosofia

soma

– Eu quero três comprimidos de soma, por favor.
– Vai levar ou vai usar agora?
– Hummm… levo dois… o outro não precisa embrulhar.
– É pra já, senhor. Saí 3 “soma” aí, Maneco.

Eu sempre fui fã da sociedade criada por Huxley no “Admirável Mundo Novo”. Aquele Selvagem sem graça teve o fim que merecia, hehehehe. Maldade minha, mas explico.

O povo tem uma mania de se apegar aos ideais de liberdade humana que irrita; irrita porque eles nem sabem o que é isso e se acham nobres e defensores de grandes causas por serem contra sociedades como a do livro AMN. Acontece que os humanos sabem apenas aquilo que lhes é dado saber. Com exceção dos comportamentos ditos “da espécie”, tudo é social. Tudo é tão malditamente social que até mesmo os comportamentos “da espécie” não são tão genéricos como se supõem que sejam.

Então, tanto os ideais de liberdade quanto o contrário disso são criações dos nossos próprios sistemas e valorizar um mais que outro é quase aleatório. Eu voto sempre pela praticidade. Uma coisa não pode ser negada: só se sai da caverna se alguém diz que lá é uma caverna. E os filósofos que me perdoem, mas se a caverna for confortável, por que sair dela? Esse apego à verdade é outro engodo.

A impressão que tenho, do topo da minha paranóia, é que tanto os ideais de liberdade quanto os de verdade são formas de controle. Enquanto maluquinho pensa que está defendendo a liberdade e a verdade, com o peito estufado de orgulho, está chafurdando na cilada deles. Falar em “eles” é sempre legal e prático quando se é paranóico… fica aquele misteriozinho do “quem são eles?”

Sou a favor do soma. Sou a favor daquela sociedade bem estruturada e nada injusta. Claro que não era injusta, se pareceu assim para os leitores de Huxley é porque o autor era contra o tipo. Se você nasceu e cresceu extraindo prazer e conforto de servir aos das castas superiores, por que ser de uma casta superior? Todo mundo trabalha igual, no fim das contas. E aí de quem dizer que não estamos nós mesmos em uma sociedade de castas.

A realidade é o que nos mostram aos olhos. Somente isso. Se ninguém falar para o cara que limpa o chão que ele pode mandar limpar o chão, ele vai obter a mesma quantidade de prazer que o cara que manda. E por que? Porque o descarregamento de substâncias que causam a sensação de prazer só é atenta a essas diferenças se o cérebro (sujeito) for. Ou você acha que o cara que nunca viu a Angelina Jolie e convive apenas com desdentadas tem um orgasmo menos intenso do que o cara que pega a Jolie? Nada, rapaz, é o mesmo cérebro, a mesma descarga, o mesmo prazer. Não é proporcional, é igual.

Mas isso é muito hedonista, seu porco. Ah é? Nem vou falar o que acho da moral, se não nunca acabo esse texto. Tá, vou falar uma coisa: acho moral o maior barato, mas não concordo com o que falam sobre ela, tenho minhas idéias sobre o assunto.

– Maneco, já pegou o soma do rapaz?
– Tá em falta, senhor… e agora?
– E agora, rapaz, tá em falta?
– Vou ver ali naquela padaria, valeu.

PS: Texto originalmente publicado em 29/02/04.

Categories: Crítica, Filosofia