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Archive for March, 2004

Horóscopo é lixo

Horóscopo é lixo. Desculpem-me os que acreditam, mas é. É bonitinho, fala coisas bonitinhas, mas serve apenas para um papo besta no ponto de ônibus ou para comparar as compatibilidades entre você e aquela garota interessante (há um porém: quanto mais uma garota segue o horóscopo, menos interessante ela é). Resumo minha opinião sobre horóscopo assim: é um negócio divertido, mas não é sério.

Agora me passou uma coisa pela cabeça: por que gastar meu tempo e meus pensamentos desfiando um argumento contra essa baboseira? Não tenho uma resposta, mas já que a crítica veio sem querer, sem eu planejar ou pensar no assunto, não custa colocá-la aqui.

Por que o dia mais importante para o horóscopo é o do nascimento? Pensem bem. Sabe-se hoje que os bebês começam a aprender ainda no útero. Segundo o horóscopo, então, quando o bebê nasce, há uma espécie de “banho de energia”, ou sabe-se lá se dão um nome para isso, que aprisiona eternamente a personalidade da pequena criatura e a atira em um tira de jornal: seu signo é tal, seu tímido, vaidoso, perceptivo, etc, etc, etc. Se nascêssemos como uma tabula rasa e toda a influência do mundo realmente se iniciasse no momento do nascimento, então teorizar a influência dos planetas seria menos imbecil. Mas não nascemos vazios, não é possível que alguém acredite que uma espécie de raio de personalidade nos atinja no exato momento que nossa cabeça sai ao mundo!

Não seria muito mais lógico que, se houvesse alguma influência dos planetas, ela se iniciasse no dia da concepção do novo ser? É, seria, né? Mas como iam saber o dia em que isso ocorreu? Poderiam, no máximo, fazer cálculos que nunca seriam precisos. É bem mais fácil dizer que uma espécie de capa mágica de personalidade é enrolada no bebê assim que ele nasce. E que não importa o que ele ouviu, “comeu” e sentiu no útero: o que importa mesmo é o alinhamento dos planetas.

Ai do bebê se o médico anotar errado o horário do nascimento e a azarada da criança decidir acreditar em horóscopo: vai acreditar em um ascendente errado e vai ser para sempre o que na realidade não é. Pobrezinho. Pior ainda se ele nascer naquele momento entre trocas de signos. Já pensaram? Viver a vida inteira pensando que é do signo errado e ler horóscopo para decidir seus dias? Esse coitado terá muitos problemas… vai terminar em um hospício.

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Categories: Coisologia

O dia em que nasci

Eu devia ter nascido em agosto, o que seria legal, pois meu nome masculino preferido é Augusto. Se eu tiver um filho homem, será Augusto, se for mulher, Amanda, mas isso não importa agora.

Quis a vida que o plano original da maternidade fizesse uma curva e me cuspisse em julho. Nasci então, no mês do frio, no dia 20. O motivo da curva não interessa, pessoal curioso. O que importa é que nasci prematuro, clavícula quebrada, tendo que tomar banhos de luz, mais feio que os bebês “maturos”, com dificuldades respiratórias e tudo o mais que vem no pacote; meus pais foram perdulários e me puseram no mundo com todos os opcionais da “prematuridade”… mas sobrevivi para contar esta história. Legal, né? Acho que a coisa mais legal que fiz até hoje foi ter passado por tudo aquilo vivo e bem. Orgulho-me de algo que nem lembro. Legal, né?

Dizem por aí que os bebês prematuros se tornam adultos mais inteligentes. Faz sentido, já que os prematuros têm contato com o mundo mais rápido e com o cérebro mais plástico do que nunca. Mas como eu nasci “atropelado”, não aproveitei minha vantagem temporal e me tornei um adulto tão burro quanto os que nascem no prazo. Nem para ficar inteligente nascer prematuro serviu. Mas posso contar essa história legal. Né?

Nasci no dia 20, voltando. É um belo dia para nascer, sou obrigado a dizer. Naquele 20 de julho de 1980 comemorava-se 11 anos do famoso passo na lua. De todas, esta é a característica que mais gosto do dia em que nasci. Adoro a lua, como aspirante a aprendiz de poeta que treino para ser um dia. Ela é linda, desfilando no céu, exibindo suas faces e inspirando arte. E já pisaram nela! Aposto que tudo se inverteu: o tal do braçoforte deve ter escrito poesias sobre a beleza do planeta terra, sua paisagem. Não acham essa inversão magnífica? Algo para se escrever um livro sobre!

Dizem os horoscopogolpistas que quem nasce no dia 20 de julho é do signo de câncer. Dizem também que o planeta regente do signo de câncer é a lua. Bom, lua, para começar, não é planeta. Quando quero ser horoscopogolpista logo cito o fato de ser regido por um “planeta” em que já chegamos, e que o aniversário disso é no dia em que nasci. Não tem graça nenhuma, né? Mas as meninas que são menos interessantes quanto mais gostam de horóscopo acham o maior barato. Sempre que digo isso sorriem e fazem um comentário bonitinho.

Além desse fato impressionante, 20 de julho também é o “Dia Internacional da Amizade”. Tem gente que sabe disso e fala para mim: “Puxa, você nasceu no dia internacional da amizade, agora entendo porque é tão amigo! Querido!” Uma graça, não acham? Eu acho bacana ouvir isso. E engraçado. Há também o julgamento a priori: “Ah, você nasceu no dia da amizade? Que legal! Quero ser seu amigo(a)”. Ai ai… não são surpreendentes essas criaturas humanas?

Mas não acabou. A mundialmente famosa Gisele Bündchen nasceu adivinhem em que dia? Acertaram: 20 de julho de 1980, no mesmo dia, ano e mês que eu. Fizemos um pacto: ela ficaria com a fama, com o dinheiro, com a beleza, com a perspicácia, com a inteligência e com as viagens mundo afora, e eu ficaria com o resto. Sinto-me lesado no acordo, mas me perdôo: nasci “atropelado” e não sabia o que estava assinando.

Então, não é um bom dia para nascer? É como outro qualquer, concordo, mas se você fica acumulando essas coincidências e curiosidades, ele fica com um diferencial competitivo. Que graça tem em nascer no dia 21 de julho, por exemplo? Alguém sabe?

Puseram-me o nome Robson. Um amigo de colégio do meu pai tinha esse nome, disseram-me um dia. Assim acaba a última curiosidade, certamente acidental: uma homenagem a um amigo no dia da amizade. Posso respeitar isso. Mas prefiro o nome Augusto.

Categories: Crônica, Diarices

A lânguida passagem do tempo

A passagem do tempo é realmente o fato (mesmo se for ilusório) mais impressionante com que temos de lidar. Já pensei sobre esse escorregar dos fenômenos com mais de mil olhos diferentes, alguns extremamente negativistas, outros espetacularmente otimistas e até de modo totalmente blasé e despreocupado. Assim como tudo que envelhece e vai ficando mais rijo, também meu entendimento sobre a passagem do tempo está se cristalizando, tornando-se mais difícil, nunca impossível, de ser mudado.

Hoje a passagem do tempo para mim tem uma languidez sensual. Admiro-me com cada momento, com cada fenômeno que segue cada fenômeno. Observo meus sentimentos e sensações de maneira especial e entendo sua causa e sua maravilha (que é simplesmente existir). Observo a reação das pessoas ao que acontece ao redor delas e me delicio ao observar a infinidade de ações possíveis e de pensamentos possíveis de surgir nos meus congêneres. Pareço até o cineasta amador do filme “Beleza Americana”: um saco plástico dançando ao vento tem lá algo de belo e interessante.

Ando de bicicleta e me surpreendo com a velocidade com que o asfalto passa sob mim, com que as pessoas são ultrapassadas, com que os carros me deixam para trás, todos deslizando no tempo na direção dos seus objetivos. Gosto de imaginar os objetivos da pessoa que sai do posto de gasolina, da que vira a esquina, da que entra na universidade. São seis bilhões de mundos dentro de uma esfera que baila com outras em um universo infinito e indecifrado.

Entro no laboratório em que trabalho e fico extasiado ao pensar no conhecimento que está sendo produzido em outros laboratórios mundo afora; penso nas palavras que os poetas e as crianças estão colocando no papel, louvando uma ou outra das maravilhas da existência. Divirto-me apenas em pensar nas possibilidades, nas seis bilhões de luas, nos seis bilhões de sóis, nos seis bilhões de pares de olhos significando tudo.

São tantos mundos produzidos pelo humano, tantas maneiras de viver, tanta diversidade impressionante! Sou um fã dos humanos, um fã maravilhado! Amo-os plenamente em um momento para odiá-los no momento seguinte, pois seus absurdos são complexos, imprevisíveis e tão grandiosos quanto suas belezas. Amando-os ou os odiando, sempre os admiro; sempre!

“A vida é de todas as maneiras”, respondi a um amigo que afirmou não ser realista a vida de quem nasce e cresce em berço de ouro. A vida é de todas as maneiras. Como dizer o que é a vida? Todas as que existem são vida, e mesmo que as multiplicássemos por 10, não encerraríamos as possibilidades.

Penso imediatamente no dia em que experimentei tudo como sendo a mesma coisa, tudo igualado em sua essência mais primal: a existência. Nada recebia mais valor, nada era melhor, nada era pior. A equalização dos valores é a experiência mais prazerosa que um humano pode ter, pois transforma tudo em maravilha e deleite. E o deslizar do tempo, lânguido, perde qualquer característica assustadora. Continua desfilando, contendo o universo inteiro, todos os fenômenos que causam outros fenômenos, toda sua profusão e diversidade.

Eu observo, às vezes calado, às vezes agoniado em descobrir uma linguagem capaz de causar sentimentos parecidos com o que sinto quando tenho essas percepções. Eu observo, tento medir, tento entender, mas, no fim, deixo-me levar pela languidez do tempo e termino em um milhão de situações: conseqüências do momento anterior.

Amo tudo isso. Viver é um prazer não apenas por causa das horas prazerosas. O prato principal do universo é a languidez da passagem do tempo; é a surpresa que me extasia. A mesma surpresa que traz a insatisfatoriedade, traz a mais plena satisfação. Existe algo mais maravilhoso?

Categories: Coisologia

A ascensão da decadência

A ASCENSÃO DA DECADÊNCIA – PARTE 1

Em uma sexta-feira muito bacana fui comer pizza com um pessoal muito bacana e tive uma visão triste. A metáfora da Angelina Jolie caiu novamente sobre mim com força e não pude deixar de fazer algumas reflexões. Repito a metáfora para quem não a conhece: o homem que cresce entre desdentadas não experimenta um orgasmo diferente no sexo do que o homem que convive com várias lindas como a Angelina Jolie. Isso porque o cérebro só detecta a diferença se puder comparar os estímulos; além do mais, essa comparação é de uma relatividade irritante (daquelas que terminam conversa). A palavra chave aqui é “comparação”.

Todo mundo quer mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais. Essa é uma característica positiva dos humanos que foi transformada em doença pelos objetivos impostos. Ainda há buscas nobres e atos ilustres que melhoram a humanidade, mas a grande maioria dos humanos está presa em uma teia de aço de futilidade e ignorância.

É a ascensão da decadência! Hoje em dia não se comemora mais com prazer total o jantar em família em uma pizzaria simples, pois existem as chiques. E existe pressão, de um lugar, de outro, de uma conta, de um chefe, de um filho problemático, de um pai irresponsável, de um cachorro que come o sofá, de um bebê doente, de um carro quebrado. São muitas as barreiras aos momentos de prazer, muitos pensamentos atrapalhando!

O mundo vai colaborando para a desgraça, mostrando pizzarias chiques e prometendo maravilhas inalcançáveis. A maior mentira que existe é a idéia de que todos têm igual chance de ter a mesma qualidade de vida. Essa idéia é uma enganação que causa, entre outras coisas, a busca pelas Angelinas e a relegação das desdentadas! Acham mesmo que há espaço nas universidades para todos? Acham que há mercado de trabalho para todos? Todos têm iguais chances? “Merecimento”, citam, então, os adeptos da idéia de igualdade de oportunidade: “só quem merece, quem trabalha muito”. Acham que isso responde alguma coisa? Claro que o trabalho é fundamental, mas, ainda assim, não há vagas para todos os trabalhadores. Outra, a mesma vontade e intensidade de trabalho em duas pessoas nunca são efetivamente iguais por causa das diferenças dos trabalhadores; somente um deles vai ser escolhido para “o próximo nível”. Fato!

A decadência ascende a degraus cada vez mais altos e toma tudo para si, aprisiona as idéias, os ideais e os instintos na mesma panela. É o querer mais em um ambiente que não permite que o “mais” seja alcançado! Quanta tristeza espalhada pelo desejo! Aí está um círculo de insatisfação bem desenhado pelo budismo. Leiam ali no canto esquerdo, a última coluna.

A ASCENSÃO DA DECADÊNCIA – PARTE 2 e final

Quero desenvolver a idéia de que as pessoas não têm igual oportunidade de terem a mesma qualidade de vida. Vou usar apenas dois argumentos, os que primeiro me vieram à cabeça. Primeiro, não é vantagem para os que têm qualidade de vida superior que todos os igualem; ser superior é grande parte do prazer, a igualdade é entediante. A maioria dos grandes ricos é obsessiva, e todo bom estudante de Psicologia sabe que os obsessivos são competidores; por que apoiariam a igualdade? É o mundo deles (perdoem o fatalismo; pelo menos estou falando de maiorias e não de totalidades).

Segundo, ainda que todos os ricões fossem gente boa e decidissem abdicar da fortuna para que todos se igualassem, o feito seria inexeqüível. Nem vou me referir às dificuldades administrativas e econômicas de tal realização (quem quiser dissertar sobre isso nos comentários, fique à vontade, não tenho conhecimento), mas às dificuldades humanas: há pessoas que são melhores que outras, se não por diferenças de aprendizado, por diferenças genéticas. Como seria feita justiça? Uma pessoa melhor que outra teria os mesmos direitos? Isso é justo? Complicado, não é? Nem me arrisco a responder. Só digo que para mim é clara a impossibilidade de igualdade.

A idéia de igualdade é etérea demais, não pode mesmo dar certo na prática. Aparentemente, o sistema de castas é natural. Sempre vai haver um superior. Por mais “democrático” que seja um grupo, por mais que todos sejam igualmente ouvidos e respeitados, por mais que tenham os mesmos direitos e vantagens, por mais que todos os constituintes do grupo creiam verdadeiramente na idéia da igualdade e lutem verdadeiramente para executá-la, ainda assim haverá desigualdade. Haverá. Um terá mais poder que outro, invariavelmente, por sei lá quais motivos: por ser mais bonito, ter a voz mais grossa, ter um olhar mais profundo, mais conhecimento, etc.

Já deve estar claro que falo de igualdade no sentido de poder e controle, porque igualdade absoluta seria lavagem genética e cultural no estilo “Admirável Mundo Novo”. Todos os tipos de igualdade são impossíveis. Qual é a solução, então? Duvido que minha idéia seja apreciada, mas aí vai: aceitar a desigualdade. É isso mesmo. Fique com sua desdentada e deixe quem pode ficar com sua Angelina. Mas faça isso verdadeiramente, de corpo e alma, e não só da boca para fora, porque se não, não vai adiantar, seu cérebro vai continuar comparando os estímulos e você vai continuar seu caminho infeliz na direção da futilidade (lembra que no começo do primeiro texto disse que a palavra chave é “comparação”… em breve escreverei algo sobre valores).

É a essa busca por superioridade que estou chamando de “Ascensão da Decadência”. Sabe o que é pior? Quem está na busca por “qualidade de vida superior”, não está fazendo para ser igual a todos, mas para ser igual aos superiores. É absurdo! Todos seriam mais felizes se fechassem os olhos à sedução da busca por superioridade. As pessoas podiam ser ao menos mais sinceras e confessar suas reais intenções; ao invés de ficar gritando que lutam por uma sociedade mais justa, gritar que lutam por uma sociedade mais justa para si mesmos. E é uma superioridade tão horrenda a financeira!

Categories: Crítica, Filosofia