Home > Ciência, Filosofia, Psicologia > deve a psicologia ser guiada por um “ideal” pragmatista?

deve a psicologia ser guiada por um “ideal” pragmatista?

De forma resumida, o pragmatista considera que não é possível descobrir A VERDADE. Por isso, contenta-se em descobrir uma verdade provisória sobre os fatos da realidade e compromete-se a abandonar suas afirmações provisórias tão logo outra verdade, mais eficaz, seja apresentada.

Ou seja, a qualidade de uma verdade é medida pelas conseqüências práticas que proporciona. A melhor verdade, então, é aquela que produz melhores resultados.

Como eu apontei antes, e como muitos autores apontam (vejam Davidoff, Schultz & Schultz, Bock, Figueiredo, entre outras centenas), a Psicologia possui diversas maneiras de lidar com os fenômenos psicológicos. E vai mais fundo: a própria definição do que é fenômeno psicológico e do que é o ser humano muda muito de abordagem para abordagem psicológica.

Toda essa amplitude, é claro, engloba perspectivas científicas, quasi-científicas, nada científicas, e bobagens de todo tipo. Não quero defender qual é a melhor maneira de lidar com o humano, nem quais perspectivas considero deficitárias. A discussão é outra:

Deve a Psicologia ser guiada por um ideal pragmatista?

Dizendo de outro modo, é válido para os clientes (individuais e coletivos), estudantes e profissionais que um pente fino seja passado na área da Psicologia, deixando ativas apenas as abordagens que explicam o humano de forma simples e eficiente?

A resposta parece óbvia. No entanto, a realização de tal obra não é simples.
Alguém quer discutir? Uma primeira e complexa pergunta: como definir o que são melhores resultados?

deve a psicologia ser guiada por um ideal pragmatista? Homem e Mundo. Análise do Comportamento. Terapia Comportamental. Terapia. Psicologia.

Categories: Ciência, Filosofia, Psicologia
  1. September 23, 2007 at 1:26 pm

    Em primeiro lugar, fiquei tocado pelo comentário no oci. Você exagera. Obrigado, de qualquer forma, e é sempre bom dividir estes “escritos” contigo, você sabe disto.
    😀

    Em segundo, eu creio que o melhor critério para a psicologia é pragmático, sim. Nem que se constituísse um corpo teórico sólido e unificado – o que nem mesmo nos melhores sonhos dos mais puros patriarcas psicólogos alemães pode acontecer – deveria a psicologia se orientar por outro critério que não este.

    Agora, como você colocou, quem vai definir os critérios? Bem, boa pergunta, e esta pergunta não pode, jamais, ter uma resposta única: creio que sempre tenderá a ser uma resposta circunstancial, contextual. Por este motivo é que a psicologia e sua prática deve andar lado a lado com a filosofia: a filosofia dá um certo “espaço de manobra” para questionamentos que a prática psicológica incessante pode acabar perdendo, ou dissimulando.

    Até mesmo um pouco “fora” da psicologia faz bem ver as coisas de um ponto de vista pragmático. Na psicanálise, por exemplo. É muito melhor ater-se somente ao método psicanalítico (por menos “científico” que ele seja), do que pegar a teoria e, aí então, fazer uma “psicanálise”. O método é muito mais fecundo, e é ele quem dá o resto. Neste sentido, a visão de homem e de mundo não torna-se tão crucial, mas sim uma espécie de janela, de quadro de referência.

    Claro que falando assim, num domingo de tarde, as coisas parecem simples.

    Abraço, Robizito.

  2. September 24, 2007 at 9:06 am

    Bom início para a discussão, Lucas.

    A filosofia que basearia a “nova” psicologia seria a pragmática mesmo. Critérios ontológicos e epistemológicos também deveriam ser baseados nos resultados que podem produzir. Tudo bastante mutável, mas nunca pós-moderno, por amor a Deus.

    Abraço.

  3. September 24, 2007 at 9:29 am

    Robson, a resposta curta e grossa seria dizer: a melhor psicologia, nesses termos que você expôs, é aquela que não tem teoria. Porquê? Porque a própria psicologia adquire sua eficácia dessa forma: afastando as “metafísicas”, “abstrações”, “elucubrações” e afins, para se apoiar pura e simplesmente em uma positividade imediata do dado. Em outras palavras, vemos isso na prática da psicologia. Se sou psicólogo clínico, escolar ou qualquer outra coisa, posso escolher qualquer linha. Mesmo que os conceitos sejam os mais diversos possíveis, isso não importa, o que importa é que a própria prática rege qualquer teoria.

    Isso tem resultados nefastos: se qualquer teoria pode ser adotada em uma mesma prática, não há vínculo necessário entre teoria e prática, e não é a teoria que FUNDAMENTA a prática. Acaba sendo OUTRA COISA, e aí é que a situação fica preta.

    Em outras palavras, se posso escolher para a prática “científica” da psicologia tanto uma abordagem científica, quanto uma não científica, essa escolha mesma mostra que a prática da psciologia não parte de um horizonte científico, mas de outro lugar. Tem um texto fabuloso nesse sentido do Foucault, intitulado A Pesquisa Científica e a Psicologia, que é o melhor que já vi a respeito das relações entre ciência x psicologia x prática

    Agora, quanto ao pragmatismo, não estou certo sobre como a corrente formulada por William James e Peirce responderia essa questão.

  4. September 24, 2007 at 9:48 am

    Catatau, suas considerações foram muito boas!

    O Skinner defendia que na Psicologia não deveriam existir teorias. Ele era a favor de uma descrição parcimoniosa das relações do humano com seu ambiente, na busca dos padrões dessas relações. Conhecendo os padrões, e fazendo algumas experimentações para testá-los, seria possível ter um corpo de conhecimento descritivo completo o suficiente para que o comportamento fosse predito e alterado. Tudo isso sem teoria. O cenário não é o que você descreveu muito bem, de práticas determinando teorias.

    O próprio Skinner não seguiu suas idéias tão a fundo. Afinal, publicou o livro “O Comportamento Verbal”, em que faz induções da pesquisa básica com animais para o comportamento verbal humano. O livro é, em outras palavras, teoria: se funciona aqui, deve funcionar ali.

    Seguidor ou não das próprias idéias, Skinner deu o tom. Um corpo de conhecimento descritivo obtido por métodos científicos é bastante útil. Talvez seja a verdade provisória que precisamos para a Psicologia. Se os critérios de observação forem sempre os mesmos, ou pequenas variações, podemos dizer que tais critérios constituem quase que uma teoria.

    No mais, creio que para que o ideal pragmatista seja alcançado, é preciso que todos falemos a mesma língua. Se cada psicólogo falasse um idioma diferente, quando buscam por práticas mais efetivas, não estaríamos diferente do que estamos hoje, como você bem colocou.

    O que quero dizer é que uma boa comunicação entre profissionais faz parte dos “melhores resultados” a serem obtidos pela Psicologia. E boa comunicação é sinônimo de que há uma base teórica, ou como eu disse, pelo menos critérios de descrição, comuns a todos.

    Abraço.

  5. September 24, 2007 at 11:21 am

    Tem uma frase do Skinner logo no início de Ciência e Cpta/ Humano que acho fabulosa: ele diz algo como “eu faço análise experimental do comportamento; O QUÊ será feito com isso, é outro assunto”. Em outras palavras, a transição da AEC para o comportamentalismo aplicado não se dá como diria um Rangé, do “laboratório animal” para a “clínica”. O Skinner mesmo dá o tom, inclusive mostrando no mesmo livro que práticas aplicadas provém das agências controladoras, e não da AEC (esta faz o que você mencionou acima, ela estuda o comprotamento). Algo como “não sujemos a análise comportamental com prescrições; estas não provém da AEC, mas do uso dela para fins exteriores, como fazem agências controladoras como a psicoterapia, por exemplo”.

    Esse cuidado de Skinner (se o interpreto bem) é muito interessante, pois é precisamente não confundir pesquisa com prática aplicada. Até o Cporta/ Verbal é uma espécie de constructo que serve a propósitos científicos, polemiza com outros autores, enfim, busca debater com a ciência.

    Inclusive, Skinner é um pouco mais privilegiado do que Freud, pois a AEC é alheia à clínica. E é muito interessante notar que, se vem da clínica, a própria psicanálise acabou se tornando uma espécie de prática que não para nunca de se perguntar sobre seu papel ético. O Skinner já põe a questão ética de saída, separando AEC de prescrições, e colocando a psicoterapia como agência controladora; já a psicanálise nucna para de se perguntar sobre seu papel ético. Se bem que, em Skinner, livros como Walden II já passam para a prescrição, e fazem a AEC avançar sobre a ética…

    Quanto ao bom caminho da psicologia, é bem o que você disse: de um lado, já Watson mostrava que os psicólogos não se entendem (como então montar uma ciência coesa?). Mas de outro lado, o entendimento dos psicólogos, já que todos insistem na prática, deve sempre perpassar uma pergunta de âmbito ético. Pois caso contrário, a psicologia se torna psicotécnica, e a melhor psicologia seria um instrumentalismo!

    Bom, por supuesto, vc elencou um excelente tópico

    abração,

  6. September 24, 2007 at 1:55 pm

    Eu sempre tive o projeto secredo de compreender todas as abordagens, para então ver o que elas tinham em comum. Esse projeto está emperrado por tempo indeterminado, devido aos estudos obrigatórios em AEC.

    A idéia é dar o primeiro passo em busca de uma nova Psicologia. Espero que o projeto não morra.

    Abraço.

  7. September 24, 2007 at 9:21 pm

    Robson, esse seu projeto secreto é o projeto de todo estudante de psicologia, ao menos no início do curso. A maioria vai além e quer propor uma teoria unificadora, heheh. Difícil é prosseguir…

  8. September 24, 2007 at 11:23 pm

    Um ótimo quetionamento! ótimo mesmo! Adorei a forma como você colocou a pergunta, e também a forma como foi discutido nos comentários!

    Uma delicia de post, que faz a gente sair da bases e pensar um pouco…

    beijos

    ps.: problemas com a placa de rede do computador… rs

  9. September 25, 2007 at 10:07 am

    Fiquei rindo sozinho quando li seu comentário.
    É realmente o projeto de todo estudante de Psicologia.
    Bom, ainda estou no mestrado, então ainda estou na categoria. hehehe.
    O sonho não morreu.
    Abraço.

  10. September 25, 2007 at 10:08 am

    Bem vinda de volta, Maga!
    Que bom que curtiu!
    Beijo.

  1. February 8, 2008 at 5:05 pm

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: