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relação cérebro – comportamento

Neuropsicologia é uma disciplina muito bacana. Ela estuda como o funcionamento do cérebro está relacionado com os processos psicológicos. Isso permite que os estudiosos conheçam qual parte do cérebro está danificada baseados no comportamento dos seus clientes, ou vice-versa: que conheçam o comportamento com base no cérebro. As implicações de tal conhecimento são fantásticas. Futuramente, podem ser desenvolvidas drogas específicas que ajam na região cerebral necessária, e planejamento de atividades que façam o mesmo.

Apesar das qualidades e dos avanços da área, é preciso tomar cuidado com um possível desvio que ela pode seguir. É preciso lembrar sempre que o cérebro, no vácuo, é nada. O ambiente em que o cérebro existe não pode ser ignorado. Pensando nisso, eu decidi postar aqui alguns possíveis paradigmas para entender a relação entre o ambiente, o cérebro e o comportamento. O Leandro, do Meandros, pode ajudar, indicando qual desses paradigmas está sendo utilizado atualmente, ou se hoje os cientistas utilizam uma maneira de pensar diferente das que estão aqui.

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paradigma-tosco.jpg

Estes paradigmas são muito planos e simplistas. Não acredito que algum cientista pense dessa maneira. Eu o coloquei porque um professor meu da graduação acreditava piamente que o cérebro era o senhor do mundo. Para ele, o universo era apenas uma conseqüência do cérebro. Se a fórmula do meu professor existe (cérebro-comportamento), imaginei que alguém poderia pensar que o inverso (comportamento-cérebro) era verdade. Mas sinceramente, acho que ninguém pensaria assim, tão planamente, fazendo de conta que não existe um mundo ao redor disso tudo.

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paradigmaa-linear.jpg

Acredito que este paradigma seja o atual. A idéia é a de que o ambiente modifica o cérebro (ou a cognição) e tal modficação produz um comportamento e uma nova percepção do ambiente. Ou seja, por causa da intermediação do cérebro, tanto o comportamento quanto um novo ambiente emergem. Não é meu modo preferido de pensar, mas é interessante. O que eu não gosto é da importância dada à mediação do cérebro, muitas superior à importância emprestada ao ambiente (e ele é o iniciador, sempre). Não gosto, também, do pensamento de que o cérebro (ou a cognição) produz comportamento, como se ele fosse uma instância mais importante do que o comportamento; ou, dito de outro modo, como se o comportamento estivesse subordinado ao cérebro.

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paradigma-correl.jpg

Este paradigma tem uma vantagem e uma desvantagem em relação ao anterior. A vantagem é compreender o cérebro e o comportamento como correlacionais, e não como produtores um do outro. A desvantagem é não fazer referência ao ambiente modificador do cérebro/comportamento. Este “ambiente” da figura é apenas o produzido, mas o produtor não está lá.

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paradigma-cptal.jpg

Este é o meu paradigma favorito. É o que eu uso na minha profissão. A idéia é a seguinte: o ambiente produz tanto o comportamento quanto a modificação no cérebro, e o comportamento produzido, por sua vez, modifica o ambiente. Neste paradigma, o cérebro e o comportamento são correlacionais e não produzidos um pelo outro. Não há dúvidas de que eles podem influenciar-se mutuamente, mas fazem dentro do contexto (ambiente) em que existem. Por exemplo, olhar (comportamento) para um desenho pode ativar alguma área cerebral (cérebro), mas nada disso aconteceria se não houvesse um desenho (ambiente) para ser visto. Ainda que o desenho só fosse imaginado (comportamento), alguma coisa do ambiente certamente teria produzido essa imaginação, por exemplo, uma frase relativa a esse desenho.

O que quero dizer é que não é correto dizer que a linguagem ocorre na área de Broca ou de Wernicke. Mais correto é dizer que quando o ambiente exige que nos comportemos como falantes ou ouvintes, as áreas de Broca e Wernicke são ativadas no cérebro. Ou seja, comportamento e cérebro ocorrem simultaneamente, sob a maestria do ambiente.

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Descrevi esses diferentes paradigmas, especialmente o último, para afirmar que os livros, e palestrantes, que prometem mudanças por meio do cérebro, estão ignorando algo muito simples: o cérebro só se modifica com treino. E treino significa que o ambiente está sendo alterado para que o cérebro também seja. Por exemplo, se você quer que o seu “cérebro” seja bom em matemática, você VAI TER QUE TREINAR resolução de problemas. Ou seja, o ambiente (problemas de matemática) é que vai mudar seu cérebro, e não o oposto.

Hoje de manhã descobri, surpreso, que o Catatau também está preocupado com o status do cérebro no nosso mundo. Ele utiliza uma abordagem bem diferente da que utilizei aqui. Vão lá.

Sinceramente, espero que os neurocientistas estejam usando este último paradigma.

Categories: Indefinido
  1. September 10, 2007 at 1:06 pm

    Ola Robson!

    É, acho que estamos todos preocupados com a questão da neuropsicologia. rs

    Gostei muito, muito do teu texto! Ficou bem didático! Foi muito bacana este resgate das diferentes teoricas (eu já estou começando a ficar com inveja dos seus futuros alunos… rs).
    Como ontem a noite eu havia deixado um comentário lá no Catatau, vou reprodui-lo aqui.

    “Esta frase foi muito precisa: “O que pode um cérebro, quando fazemos essa pergunta, limita-se a buscar compreender como é que um órgão se relaciona funcionalmente com outros, e interfere funcionalmente nas relações do próprio organismo.” (Catatau)
    É um problema sério quando profissionais – em especial da area da psicologia – ao se depararem com uma questão para a qual ainda não tem uma explicação satisfatória coloquem toda a explicação no cérebro. Ao fazer isso a explicação está ignorando o organismo “como um todo” (filogenetica), a história de vida (ontogenetica e cultural)e ainda o ambiente atual do organismo (as contingências que estão atuando sobre organismo naquele momento. Uma explicação “cerebral” provavelmente não ajudará muito na resolução do problema (talvez até torne o problema insolúvel assim explicado…).”

    Não preciso nem dizer que o comentário é uma referencia a última teoria, né?
    Ah, sim, gostei do inicio do texto em que você aponta a importância da neurologia. Inclusive, gostaria de aprender um pouco mais sobre.

    Um abraço
    ps.: vais a JAC-UFSCar?

  2. September 10, 2007 at 1:21 pm

    Que bom que gostou, Maga.
    Você é o meu controle de qualidade. hehehe.
    Eu fico bastante preocupado com as pseudo-explicações para o comportamento.

    Em breve, vou tocar novamente no ponto das pseudo-terapias. É sempre bom repetir essas coisas, pois a propaganda a favor delas está sempre ativa.
    Beijos.

  3. September 11, 2007 at 9:01 am

    Opa, ótimo!

    Creio que o maior problema nisso tudo é que muita gente confunde correlação com causalidade. Se duas coisas estão correlacionadas elas podem ser a causa uma da outra, mas não necessariamente serão.

    Podem haver quatro situações. Sempre dou estes exemplos:

    1. Quando mais álcool consumido por motoristas, maior o número de acidentes.

    Há uma forte correlação positiva e, sem dúvida, o consumo de álcool é um dos fatores que causam acidentes.

    Se for assim, o cérebro causaria o comportamento. Ou o comportamento “causaria” o cérebro.

    2. Quanto mais feliz a mãe, mais feliz o bebê.

    Há uma forte correlação positiva mas não é um que causa o outro. Uma via de mão dupla: tanto a mãe feliz deixa o bebê feliz quanto o bebê feliz deixa a mãe feliz.

    Se for assim, o cérebro causaria o comportamento e o comportamento “causaria” o cérebro, simultaneamente havendo modificações em ambos os lados.

    3. Quanto maior o número de sorvetes vendidos no parque, maior o número de acidentes por afogamento no lago.

    Há uma forte correlação positiva, mas definitivamente sorvetes não causam afogamentos (e nem o contrário!). Há um terceiro fator: os dias de sol, que não aparece mas faz com que aumente o número de sorvetes vendidos e de afogamentos.

    Se for assim, uma outra coisa causaria comportamento e modificações cerebrais. O ambiente, por exemplo.

    4. Quanto maior a altura média dos jogadores de basquete, maiores são o número de prestações a se pagar em uma moto.

    Pode haver até uma forte correlação positiva aqui, mas não há causalidade direta e nem por um terceiro fator: apenas coincidência.

    Se for assim, quem sabe tudo não seja apenas um grande acaso que se repete infinitas vezes.

    Há representantes de cada uma destas vertentes (com excessão da última) que você bem explicitou. Mas a segunda e a terceira estão ganhando.

    Só sei que, mais ou menos como vc escreveu num post atrás sobre o Skinner, daqui a alguns anos riremos destas teorias.

    Abraço!

  4. September 11, 2007 at 9:38 am

    Opa, que bacana, Leandro.
    Seu comentário já foi uma aula de como explicar a relação entre dois fenômenos.
    Então estão na frente, a concepção 2 e 3? Dentre elas, não sei qual eu prefiro…
    E você está corretíssimo. Em breve, vamos rir de tudo isso. Ou nossos netos irão.
    Abraço e obrigado pela colaboração.

  5. September 11, 2007 at 12:40 pm

    Obrigada pela explicação, Leandro!

    Bem didática!
    Um (h)abraço rs

  6. September 12, 2007 at 12:03 pm

    Engraçado que se não existe um mundo ao redor do cérebro (primeiro modelo), onde é que o cérebro fica? heheh

    Bela explicação, tua e do Leandro. Neuropsicologia é fundamental, especialmente por correlacionar (hehe) as funções cerebrais com as mentais. É interessante que se detecta uma espécie de substrato às atividades “mentais”, ou ao comportamento. O que não pode ocorrer são os abusos da idéia: reduzir tudo a um epifenomenalismo; confundir atividade social (essa da vida cotidiana, dos significados) com a noção biológica de cérebro; utilizar esse órgão com uma espécie de fonte de analogias que explica tudo. Por exemplo, dizer que fazemos o bem, ou o mal, ou que a fonte da política ou da arte ou ainda do amor se situam no cérebro é totalmente redundante. O que, enfim, aí não se situa?

    abração,

  7. September 13, 2007 at 11:18 am

    É exatamente esse epifenomenalismo que me assusta, Catatau.
    Ando vendo isso nas revistas especializadas, e nas não especializadas também.
    O que me inspirou a escrever este texto foi a superinteressante. Talvez sem saber o que fazem, eles ignoram o mundo onde o cérebro existe.
    Abraço.

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