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soma

– Eu quero três comprimidos de soma, por favor.
– Vai levar ou vai usar agora?
– Hummm… levo dois… o outro não precisa embrulhar.
– É pra já, senhor. Saí 3 “soma” aí, Maneco.

Eu sempre fui fã da sociedade criada por Huxley no “Admirável Mundo Novo”. Aquele Selvagem sem graça teve o fim que merecia, hehehehe. Maldade minha, mas explico.

O povo tem uma mania de se apegar aos ideais de liberdade humana que irrita; irrita porque eles nem sabem o que é isso e se acham nobres e defensores de grandes causas por serem contra sociedades como a do livro AMN. Acontece que os humanos sabem apenas aquilo que lhes é dado saber. Com exceção dos comportamentos ditos “da espécie”, tudo é social. Tudo é tão malditamente social que até mesmo os comportamentos “da espécie” não são tão genéricos como se supõem que sejam.

Então, tanto os ideais de liberdade quanto o contrário disso são criações dos nossos próprios sistemas e valorizar um mais que outro é quase aleatório. Eu voto sempre pela praticidade. Uma coisa não pode ser negada: só se sai da caverna se alguém diz que lá é uma caverna. E os filósofos que me perdoem, mas se a caverna for confortável, por que sair dela? Esse apego à verdade é outro engodo.

A impressão que tenho, do topo da minha paranóia, é que tanto os ideais de liberdade quanto os de verdade são formas de controle. Enquanto maluquinho pensa que está defendendo a liberdade e a verdade, com o peito estufado de orgulho, está chafurdando na cilada deles. Falar em “eles” é sempre legal e prático quando se é paranóico… fica aquele misteriozinho do “quem são eles?”

Sou a favor do soma. Sou a favor daquela sociedade bem estruturada e nada injusta. Claro que não era injusta, se pareceu assim para os leitores de Huxley é porque o autor era contra o tipo. Se você nasceu e cresceu extraindo prazer e conforto de servir aos das castas superiores, por que ser de uma casta superior? Todo mundo trabalha igual, no fim das contas. E aí de quem dizer que não estamos nós mesmos em uma sociedade de castas.

A realidade é o que nos mostram aos olhos. Somente isso. Se ninguém falar para o cara que limpa o chão que ele pode mandar limpar o chão, ele vai obter a mesma quantidade de prazer que o cara que manda. E por que? Porque o descarregamento de substâncias que causam a sensação de prazer só é atenta a essas diferenças se o cérebro (sujeito) for. Ou você acha que o cara que nunca viu a Angelina Jolie e convive apenas com desdentadas tem um orgasmo menos intenso do que o cara que pega a Jolie? Nada, rapaz, é o mesmo cérebro, a mesma descarga, o mesmo prazer. Não é proporcional, é igual.

Mas isso é muito hedonista, seu porco. Ah é? Nem vou falar o que acho da moral, se não nunca acabo esse texto. Tá, vou falar uma coisa: acho moral o maior barato, mas não concordo com o que falam sobre ela, tenho minhas idéias sobre o assunto.

– Maneco, já pegou o soma do rapaz?
– Tá em falta, senhor… e agora?
– E agora, rapaz, tá em falta?
– Vou ver ali naquela padaria, valeu.

PS: Texto originalmente publicado em 29/02/04.

Categories: Crítica, Filosofia
  1. marortolan
    April 30, 2007 at 10:05 pm

    Eu ainda não li esse livro… posso ler o post sem que ele estrague a leitura???

    bjos

    RESPOSTA:
    Oi, Maga.
    Pode ler sossegada.
    Não vai estragar o livro.
    Beijos.

  2. May 1, 2007 at 12:09 pm

    incrível como concordo contigo, Brero. Já te disse e vivo repetindo: a ignorância é o verdadeiro segredo da felicidade!

    RESPOSTA:
    Oi, Nina.

    Eu penso isso também. Mas penso que depois de te começado a adquirir conhecimento, este é um delicioso caminho sem volta.
    Eu ainda sou ignorante para muitas coisas, e quero deixar de ser. Saber é um vício.

    Beijos.

  3. May 2, 2007 at 8:36 pm

    Saber é um vício… bela frase!!!

    Bom, sobre esse texto… acho que o próprio Huxley responde um pouco no A Ilha, não? (ng mandou indicar o livro… :P)

    Adorei o texto!

    Beijos, querido!

    RESPOSTA:
    Oi, Maga.
    Os dois livros são muito bons. Em alguns momentos, um parece a contraparte do outro. Mas, depois de um aviso de um amigo de que “A Ilha” era também uma crítica, eu passei mais a ver semelhanças do que diferenças. As sociedades são quase opostas, mas o isolamento é o mesmo.
    Beijo.

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