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e foi

— Eu ainda não entendi direito o que aconteceu. Você estava lá e viu tudo, vai ter que me contar. O que ocorreu exatamente?

— Eu era somente uma convidada na casa… Ele estava na sala, com a televisão ligada, mas olhando para a estante de livros. Tentei falar com ele, mas ele estava concentrado demais no que estava fazendo e não me olhou. A campainha tocou, ele correu à janela, com uma disposição e velocidade que me impressionaram. Depois de ver quem era, voltou desanimado ao sofá e me disse para não responder a campainha.

— O que ele estava esperando?

— Isso eu não sei… Depois de sentar no sofá, ele voltou a olhar para a estante de livros, muito calado. Eu comecei a me sentir um peso lá, sabe? Afinal, ele tinha me convidado, tinha me entretido durante toda a noite e de repente parou de falar comigo e me ignorou. Pensei isso e parece que ele leu meu pensamento, pois em seguida me disse para eu ficar relaxada, tomar um banho, que ele estava resolvendo algo e já me daria atenção.

— Ele estava muito estranho, não é?

— Sim… Eu não fui tomar banho, ao invés disso sentei na cozinha, que tinha um balcão com ligação para a sala e fiquei lá o observando. Depois de olhar por mais duas horas para a estante de livros, ele se levantou e foi até o quarto dele. Ouvi-o mexendo no armário, arrumando ou tirando alguma coisa de lá. Fazia muito barulho, ele devia estar muito nervoso. Saiu de lá e trancou a porta do quarto com a chave.

— Nossa! Ele não disse nada?

— Ele não voltou diretamente para a sala, foi para os outros quartos, os de hóspede, e fez a mesma coisa que fez no dele, fazendo cada vez mais barulho e se mexendo cada vez mais rapidamente. Até o banheiro trancou por fora.

— Você devia estar ficando assustada. O que fez?

— Ele voltou à sala e me deu minhas coisas. Estava carregando uma mala muito pequena, certamente não eram suas roupas. Perguntei o que estava acontecendo e se eu podia ajudar. Ele me disse que não. Ficou olhando para a estante de livros e só então percebi que ele não olhava apenas para os livros, havia outra coisa lá, na mesma estante. Fiquei em dúvida se ele olhava mais para a estante ou mais para essa outra coisa…

— O que era essa outra coisa?

— Nunca vamos saber… Não pude ver… Depois de alguns segundos olhando para a estante, pegou um cd de música. Sim, havia cd´s na estante… Havia também alguns cadernos velhos repletos de poesias e textos, além de álbuns com fotos de várias épocas… Ele chegou a me mostrar os textos e as fotos algum tempo atrás… Só não consigo mesmo me lembrar o que mais havia na estante, o que chamava tanto sua atenção…

— Continue. Ele pegou um cd na estante.

— Sim… Era um cd gravado no computador. Ouviu quatro músicas: “Babe I´m Gonna Leave You” do Led Zeppelin, “Canto para a Minha Morte” do Raul Seixas, “Help” do The Beatles e “Gota D´água” do Chico Buarque.

— Eram as músicas favoritas dele?

— Eu acho que não… ele tinha me dito o nome de suas músicas favoritas antes… essas estavam na lista, mas não a encabeçavam. Ouviu a todas emocionado… Percebi que lágrimas escorriam do seu rosto. Entre soluços, ele olhou nos meus olhos e disse “Esta casa não é mais minha…”

— “Esta casa não é mais minha”? O que ele quis dizer?

— Calma, sua apressada. Era o que eu ia dizer agora. Perguntei o que isso significava e então ele me apontou item por item da casa… “Vê tudo isso? O quanto isso é meu? A porta ficou sempre aberta, entrou quem quis, viu o que pôde, mexeu na configuração como lhe agradava. Depois foram embora… O quanto de tudo que aqui há é meu? Até esta estante, em que guardo o que mais me agrada, sinto como alienígena”. Não disse mais nada. Devolveu o cd ao seu lugar original. Pegou todos os outros cd´s na mão, um a um… Olhava-os ternamente. Fez o mesmo com cada álbum de foto…. Folheou um pouco de cada um dos seus livros…

— Que livros?

— Todos que tinha. Não vou me lembrar agora de quais, não estava preocupada com isso. Da estante, só não mexeu nesse algo que eu não sabia o que era. Disse para mim: “Retire-se, por favor”. Acompanhou-me até a porta.

— Que rudeza!

— Não sei, eu estava preocupada com ele. Ele foi muito bom para mim. Sempre foi um amor, um homem dos sonhos. A maneira como ele me olhava, a intensidade das suas palavras, a força e leveza de suas mãos… Estar com ele era inspirador… Aquilo tudo naquele dia estava me deixando preocupada, não o estava achando rude.

— Desculpe… não pensei assim. Mas o que aconteceu então?

— Antes de eu sair, ele me deu um beijo, pediu desculpas e me abraçou. Então, suspirou longamente, apagou a luz, trancou a porta por fora e foi…

— E foi para onde?

— Passou por mim sem me olhar e caminhou rápido. Virou a esquina sob meus oferecimentos de ajuda. Nunca mais o vi.

— Foi isso que aconteceu? Não consigo entender. O que será que havia naquela estante? O que ele esperava quando tocou a campainha? O que será que ele pegou nos quartos? Por que ele foi? Ele voltou?

— Não sei responder nenhuma de suas perguntas. Lembro apenas que pude ver sua face uma vez mais, antes de ele virar a esquina. Ele me olhou.

— E então? Ele estava chorando?

— Não… Pelo contrário, estava feliz, mas com uma expressão indecifrável. Não posso descrevê-la justamente… Pareceu-me, por um momento, uma expressão e um modo de andar que misturava a aparência de um Drácula e a essência de um Vasuveda…

— Nossa! E então?

— Ora, então que é fim de história.

— Não entendi… Não consigo entender.

PS: Texto originalmente publicado em 28/04/04.

Categories: Prosa
  1. April 26, 2007 at 11:54 pm

    No meio do post parei e fui baixar as músicas que não tinha. Exceto pela do Raul, que não consegui pegar, ouvi-as e digo que a mulher só não entendeu o que aconteceu porque não quis… rs

    beijos

    RESPOSTA:
    Massa, Maga, que empolgação!
    Foi até ouvir as músicas. Curti muito saber disso.
    Tente abaixar a do Raul de novo, “Canto para a minha morte” é indispensável. Se vc não conseguir, dou um jeito de te passar pelo msn.
    Beijos.

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