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Era-lhe difícil

Era-lhe difícil. Tudo quanto se tinha para fazer, era-lhe difícil. Vivia no horror da insatisfação. Quando experimentava a felicidade, era em momentos curtos, em prazeres velados; uma felicidade de mentira, que servia apenas para lograr uma voz quase inaudível, que exigia alegria a plenos pulmões, mesmo abafada dentro de uma redoma de vidro e exibida como atração circense. Era-lhe difícil se entregar plenamente, deixar-se levar despreocupado, da maneira que exige o verdadeiro gozo. Não. Estava sempre pensando no momento seguinte e no momento anterior, procurando um significado, uma explicação que elucidasse porque o presente estava ocorrendo. E o presente, este ele não abria; mantinha a caixa fechada e o papel que a embrulhava, intacto; o pacote ficava escondido embaixo da cama, guardado por ressalvas de todos os tipos. Tinha medo, porém, que o pacote lhe fosse roubado e que outro gozasse do prazer que a ele estava destinado. Somente o medo, e a raiva que dele advinha, eram capazes de incitá-lo ao presente, à caixa que esperava ser aberta. Mas não: era-lhe difícil… mesmo com a raiva a lhe inflamar os ânimos e o medo a lhe pedir extinção, não abria a caixa; ao contrário, escondia-a com ainda mais cuidado, com esmero até, transformando o hediondo ato de se enganar e não viver o gozo em uma arte refinada. Ia mais longe: não só em arte, mas em ciência se transformava em suas mãos doentias o trabalho de adiar e esconder o prazer; transformava o medo em técnica. Nunca estava em paz, apesar dos esforços, porque por mais que se esforçasse por manter a caixa longe do mundo, sempre se lembrava dela. A voz enclausurada na redoma era vigorosa e clamava incessantemente e com esperança, como se estivesse alheia à sua difícil situação e à alta impossibilidade de ser ouvida. Gritava, gritava admiravelmente e conseguia irritar, mostrava toda a decadência daquele esquema, daquela arte que o medo inspirava. Essa tentativa de liberdade, infelizmente, perdia as batalhas, uma após a outra, miseravelmente.

PS: Este post foi um exercício de redação,
Originalmente publicado em 22/05/2002.
Cinco anos atrás! Estou velho, não?

Categories: Prosa
  1. April 22, 2007 at 9:55 pm

    Que texto bom!!!!! Delicia, adorei!!!! Obrigada por comportilhar ele conosco…

    Bom… acho que é impossivel não ter se identificado em, pelo menos, alguns momento agindo como o personagem.

    Infelizmente.

    beijos

    RESPOSTA:
    Olá!
    Que bom que gostou. Na época, eu estava muito a fim de ser escritor. Mas nunca consegui desenvolver muito os textos. Este aí morreu no parágrafo, por exemplo.
    Espero que goste das próximas republicações também.
    Acabei de fazer um comentário no seu blog como se estivesse um mês sem atualização (só agora que eu vi que era o relógio do meu computador que estava 1 mês adiantado………)
    Te cuida.
    Beijos.

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