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morte e vida na perspectiva de um cético

De acordo com a minha perspectiva da realidade, não há o sobrenatural. A existência se limita ao que vivemos aqui e agora, e nada mais. Eu não nasci pensando assim, foi um longo caminho que começou em um Deus único, passou pelo panteísmo e estacionou em lugar nenhum. Digo lugar nenhum porque dentro da minha perspectiva não há uma finalidade subjacente em existir: existimos porque uma infinidade de variáveis produziu a vida. Não houve intenção ou propósito, apenas condições adequadas.

A partir do momento em que percebi que o mundo é apenas isto que vivemos, a morte tornou-se assombrosa. Deveria ser de outro modo, pois aceitar a vida como natural implica aceitar a morte como natural: a parte final do processo de viver. No entanto, a lógica não calou o medo. Meu temor é conseqüência do fato de que a morte não é uma passagem para outra vida, e sim o fim da única existência que conhecerei.

Felizmente, o raciocínio combate o medo e este não está presente durante todo o tempo. Com freqüência eu sou relembrado da beleza de considerar a morte como o fim de tudo. Pensar dessa forma significa ter a certeza de que não haverá arrependimento, remorso ou qualquer outro sentimento ruim quando a morte acontecer. De fato, nada haverá! Não precisarei reavaliar nada, sofrer por quem fica ou me preocupar com o meu futuro pós-morte. Nesses momentos de esclarecimento não sinto medo de morrer. Posso viver esta vida em paz.

Alguém pode argumentar que encarar a morte e a vida ceticamente, ou seja, entender que elas são fatos naturais sem propósito ou intenção, pode produzir uma liberdade inadequada, acompanhada da falta de ética e civilidade. Tal argumento é logicamente correto, mas comportamentalmente não é. Comportamento não está relacionado à lógica, mas à aprendizagem em um ambiente real (não lógico). Eu falei um pouco sobre isto no texto “Comportamento e Incoerência”. Um cético não tem inclinação para ser socialmente inadequado. O mais importante é o que cada pessoa aprende a valorizar.

Por fim, devo dizer que a vida, esta inacreditável produção dos fatos, é maravilhosa. Para mim, ela é incrível por dois motivos. Por ser algo tão complexo criado por combinações tão peculiares de eventos do universo. E por ser algo que nos possibilita sentir prazer, dor, amar e ainda escrever sobre ela afirmando que ela nada significa. Quanto à morte, não é preciso se preocupar.

Isto é tudo.

Categories: Filosofia
  1. March 23, 2007 at 9:39 am

    “Uma posição radicalmente ateista pode até significar que sua vida é uma corrida rumo ao esquecimento – mas ao menos você pode fazer isso com estilo. Como você se comporta hoje, o que você faz com cada momento, como você explora os talentos e as oportunidades à sua disposição são coisas muito mais importantes para um ateu genuíno do que para os devotos mais religiosos. Longe de perder o sentido, o que você faz nesta vida subitamente torna-se incrivelmente importante, já que você só tem essa única possibilidade de fazer a coisa certa, de mudar alguma coisa, de contribuir de alguma forma para aqueles que você ama ou que seguirão seus passos.” Prefácio – Guia do Mochileiro das Galáxias.

    É ótimo ler alguem que pensa como a gente!!! O texto ficou muito, muito bom Robson! (hehe vou até fazer uma cópia dele aqui no meu bloco de notas… hahaha)

    Eu só acrescento uma coisa: quando a gente morrer acaba-se isso que chamamos de “consciencia” ou sei lá o que… ou seja: você como “unidade” acaba-se, mas o seu corpo vai se decompor em milhares de moleculas e virar bactérias, pedra, coco, outros animais… isso dá uma sensação de pertencimento do mundo. Na verdade isso já acontece o tempo inteiro, mas na morte isso se completa. Sei lá, gosto de pensar assim, afinal a gente passa a respeitar mais o mundo já que fazemos parte dele, sem escapatoria…😉

    beijos e parabéns pelo texto😀

    RESPOSTA:

    Valeu, Maga.
    Eu também gosto de saber que há pessoas pensando como eu. A vida sem Deus não é nem um pouco solitária. Torna esta vida mais importante, como disse o Adams. Beijão.

  2. March 26, 2007 at 1:31 pm

    Rapaz.. que texto interessante este.. Descobri seu blog e ainda o estou pesquisando.. e acredite já achei muita coisa boa.. mas este textinho aqui é por demais significativo. Meu ateísmo já me colocou em situações meio que niilistas mesmo.. pensar de forma natural a vida é naturalizar a nós mesmos.. talvez aí resida o problema.. muitas vezes me parece que a poesia perdeu o sentido, que as sonatas do Beethoven perderam seus significados.. mas diante disso tento me recorrer a pensamentos mais animadores e não considerar a vida assim tão “realística”.. e sobria demais..
    Fico feliz que alguém sofre dos mesmos questionamentos que eu..
    Grande abraço Robson.. e continue escrevendo sempre..

    RESPOSTA:
    Que bom que você curtiu, Felipe. Fiz o que pude para escrever sobre o tema com toda a seriedade com quê o encaro. Eu às vezes sou atacado por essa fase de descolorização do mundo. Mas me lembro tudo o que vivi, e ainda espero poder viver coisas gostosas e diferentes. No fim, é possível ficar em paz.
    Valeu pelo comentário.
    Abraço.
    Robson.

  3. March 26, 2007 at 2:14 pm

    O autor do prefácio do Guia do Mochileiro das Galáxias é o Bradley Trevor Greive. Portanto a frase acima pertence a ele.

    beijos

    RESPOSTA:
    Valeu, está anotado.
    Beijos.

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