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Não posso falar

Hoje eu começo uma pesquisa da qual não posso falar em um lugar do qual não posso falar. Posso falar que não tem nada a ver com Psicologia. Na real, posso falar também que não sou eu quem está fazendo a pesquisa. Estou apenas participando da coleta de dados, sacumé, para pagar o carnaval.

O que preciso fazer é incrivelmente repetitivo. E farei durante 7 dias corridos das 18h às 24h. O horário é ótimo para fazer coisas incrivelmente repetitivas. Adeus sexta, adeus sábado, adeus domingo. Sentirei saudades.

Posso falar também que verei uma infinidade de pessoas de outros países. Falarei um máximo de três frases com cada uma delas, o que deixa de ser empolgante o fato de elas serem estrangeiras. Afinal, não terei oportunidade de conhecer sobre suas vidas e países. Sim, pode parecer estranho, mas não se consegue muito sobre uma pessoa apenas com três frases programadas.

De qualquer modo, imaginem quantas figuras humanas eu vou ver! Espero encontrar tipos bem estranhos, apenas para guardar na memória como uma espécie geneticamente tão igual pode produzir indivíduos tão diferentes. Claro que é obra de ambientes totalmente diferentes.

Quero guardar tudo na memória, e ficar imaginando histórias que conectem as pessoas. Ou então, apenas histórias sobre cada pessoa em si. Imaginar como pode existir por exemplo, Gui Bao Ming, chinês que viveu metade da vida em Paris, a outra metade no Cairo, mas casou-se em uma igrejinha católica no interior da Bahia. Sim, quero imaginar histórias como essa.

Vou imaginar também a história de Katrina Rhustikoff, cujo pai fugiu com uma bailarina australiana depois da apresentação do grupo de balé “New York”. Rhustikoff, por sua vez, formou-se psicóloga em Londres e foi dar aula de Psicologia Social na África do Sul. Eu mencionei que ela nasceu no Egito?

Sim, apenas três frases progamadas que não me permitem saber nada sobre as pessoas. Espero não ver ninguém de terno, ninguém de bermuda, ninguém de camiseta. Quero ver pessoas diferentes, como Pedro, o colombiano que ficou rico vendendo cebola para a Argentina, mas faz questão de andar com as roupas típicas dos seus ancestrais.

Eu quero ser como Pedro, Rhustikoff e Gui Bao Ming. E por isso voi imaginá-los bem imaginados, baseando toda a história, e toda a minha história, na cara deles. Ah, e quero que eles sejam bem feios pelo meu padrão de beleza. Quero tudo bem diferente.

Mas não posso falar sobre a pesquisa. Lamento muito.

Categories: Coisologia, Diarices
  1. Bró
    January 24, 2007 at 6:37 pm

    E se eu disser que sei sobre o que é a pesquisa?

  2. January 24, 2007 at 9:49 pm

    bom, espero que renda bons e belos contos🙂
    beijo, brero.

  3. January 25, 2007 at 8:51 am

    Se o intuito do texto foi me deixar curiosa, você conseguiu. Mas eu faço idéia do que pode ser.

  4. January 25, 2007 at 9:19 pm

    E se eu disser que também sei sobre o que é a pesquisa?

    Hein? Hein? Hein?

    E se todos nós dissermos “sim, sabemos qual é a pesquisa”?

    Hein? Hein? Hein?

    Você está escrevendo bem, meu amigo. Dá até orgulho, como se eu tivesse alguma coisa a ver com isto.

    Mas vai dizer que não te deixa surpreso o fato de que tais historinhas são muito mais comuns do que pensamos? A mim, me deixa surpreso. Ainda acho incrível que tantos compartimentos deixem de ser compartimentos.

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