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Álvaro de Campos

Eu sou muito bom em críticas literárias. Tão bom, manjo tanto, que me considero capaz de emitir dois tipos de opiniões: gosto e não gosto. E não vale me perguntar por quê. Ou vale, mas não é válido esperar resposta. “Gosto” e “não gosto” são mais complexos do que parece. Mas não vale me perguntar por quê.

Estou me desviando do assunto. Quero falar brevemente sobre uma pessoa que era uma pessoa do Pessoa: Álvaro de Campos, o cara com preocupações existenciais (ou não) que escreveu textos do exato modo como eu gostaria de escrever. A beleza não vem da forma, vem do conteúdo.

camposimagem.jpg
Álvaro de Campos, um desenho

Não conheço todos os textos do rapaz, mas vou colocar aqui quatro inícios para despertar a curiosidade.

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.”
de Todas as cartas de amor são ridículas

“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.”
de Passagem das horas

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”
de Poema em linha reta

“Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.”
de Lisbon revisited (1926)

Todos os textos acima são muito bons! Na minha opinião, o melhor dele é TABACARIA. Nem coloquei o comecinho ali porque não quero fazê-los ler um trecho e esperar a página abrir para continuar a leitura. Leiam Tabacaria. Leiam.

Depois que me lembrei que a pessoa do Pessoa, Álvaro de Campos, tem vários textos, a única coisa que eu ficava pensando era “Tabacaria é um texto só? Não pode ser um texto só, não pode…” Bom, mas é um texto só, por incrível que pareça…

Como eu disse, não sei ficar falando se ele era um futurista, um cara da ciência ou afins. Essas coisas são para professores de literatura. Digo apenas que gosto muito, e que vale a pena conhecer um pouco dos escritos do Álvaro de Campos. Para ver mais textos, CLIQUE AQUI.

Categories: Arte, Crítica, Literatura
  1. August 3, 2006 at 12:59 am

    Ah, as coincidencias, sempre elas!!!

    Hoje enquanto caminhava me veio a boca exatamente esse trecho do Todas as cartas de amor são ridiculas!

    Tabacaria lembra as aulas de filosofia do meu primeiro ano de faculdade… o professor leu para nós no primeiro dia de aula, se não me engano… uma experiencia e tanto!!! Não vou reler agora… mas prometo faze-lo em um momento de mais inspiração…

    Concordo contigo: ““Gosto” e “não gosto” são mais complexos do que parece.” e são mesmo! Afinal nele estão implicados contingencias idiossincraticas que escapa a nossa própria descrição!!!

    Ah só mais uma coisa: O Pessoa é o cara!!!

    beijos

  2. August 3, 2006 at 10:45 am

    Esse é um dos heterônimos de Pessoa que eu mais gosto! E como gosto! E Tabacaria é um de meus poemas preferidos na vida! Sempre gostei de poesia, sempre gostei de Pessoa (conheci quando eu estava na sexta série do ginásio… heheh). Lembro-me de meus primeiros contatos com poesias de Pessoa, Vinícius, Cecília Meireles… Doces lembranças. Era uma mistura das poesias com tudo de novo que eu experimentava naquela idade, naquele tempo!
    Adorei seu post hoje. Valeu!
    Beijão!

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