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Comportamento e Incoerência

As pessoas que exigem coerência das pessoas não entendem de seres vivos. O comportamento não tem a mínima obrigação, com a realidade, de ser coerente. É claro que a comunidade exige coerência, e tem que exigir mesmo (e deve, sim, programar conseqüências para as pessoas que não obedecem certas regras nessas situações). Disso não resulta que o que controla o comportamento obedeça, automaticamente, as regras dos homens.

Por exemplo, um cientista, pela regra da coerência, não pode ser religioso. Mas muitos são. E por quê? Porque comportamento de verdade não é, automaticamente, como as pessoas gostariam que ele fosse. Um cientista religioso não é um mentiroso, um hipócrita, um charlatão, nem nada do tipo. Ele não é nem cientista nem religioso 100% do tempo. Ora ele é uma coisa e ora é outra. O modo como vai se comportar no momento depende das codições em que ele se encontra. Se ele estiver no laboratório, ele deve agir como um cientista. Quando está rezando, ele pensa em Deus e não em variáveis. Do ponto de vista do comportamento, isso é normal.

Foi relatado que uma mulher, muito crente e conservadora, foi exposta a uma fita que repetia sons sem sentido. Esses sons funcionavam como um teste projetivo: normalmente, cada pessoa diz estar ouvindo algo diferente. A dona saiu da sala indignada, não podendo compreender como aqueles jovens eram capazes de gravar horríveis palavras sexuais em uma fita. É claro que há uma tendência a rotular a mulher como hipócrita, mas ela não é. Enquanto que de um lado ela aprendeu que pensamentos sobre sexo são ruins, ela também sente tesão, como a grande maioria das pessoas vivas. A mulher, ao invés de incoerente, é uma sofredora.

E as pessoas apaixonadas, então… Não posso ligar, não vou ligar. Pega o telefone. Preciso desligar agora. Disca 8452… O que estou fazendo? Eu sei que não devo. Termina de discar 6232… Está chamando? Como posso me desobedecer assim? Alô? Alô? Tem alguém aí? Oi, desculpe ligar, é que…

lula.jpg
Um exemplo de incoerência. Vejam nosso presidente, com a mão direita levantada como se fizesse uma promessa. Mas essa cara de riso, hein?

Como isso?
A primeira coisa que precisa ficar clara, e que insisti bastante acima: a coerência é uma exigência humana ao comportamento humano e não uma exigência da natureza ao comportamento. Isso não significa, repetindo isso também, que devemos parar de exigi-la. Ela precisa ser exigida sim, caso contrário estaríamos legalizando o fim do mundo.

As pessoas se comportam de acordo com uma conjunção da sua história de aprendizado com as condições do momento. Todo mundo uma vez na vida pensou “por que será que sou tão diferente com meus amigos do que sou com meus pais? até os assuntos, o modo como falo, muda tudo”. Mas é claro que muda. Você raramente falará para os seus pais sobre aquela festa; simplesmente porque eles não vão se importar muito com seu relato. E seus amigos não precisam saber que seus pais o chamam de “neném”, porque se você contar eles vão rir da sua cara. Aposto que com sua namorada, pelo menos no início do namoro, você era um cara perfeito. Depois começou a arrotar, pois ela passou a aceitar o seu jeito grotesco.

As condições que controlam o comportamento não são coerentes entre si. E isto, que parece tão simples, explica a “incoerência do comportamento”. Portanto, para as pessoas se comportarem de maneira coerente, as condições em que elas vivem devem ser todas coerentes entre si. Isto é algo provavelmente impossível.

Nosso presidente… Como todo político, veio com a argumentação “salvarei o Brasil”. No fim, ficou de quatro para os banqueiros e escreve músicas para o FMI. Ele com certeza foi incoerente e o Brasil todo tem o direito de chamar o barbudo de pilantra. Analisando friamente, no entanto, eu me pergunto o quanto o ambiente político não direciona as pessoas rumo à malandragem. Se for este mesmo o caso, não adianta ficar xingando pessoas, pois todas elas vão se tornar hipócritas por conta do que é a política. Neste caso é preciso mudar o ambiente político em si. A coisa é grave.

  1. July 23, 2006 at 11:05 pm

    Olá Sr. Psicologo,

    Perfeita analise. Perfeita. Logo no começo lembrei do dia que a minha professora/supervisora disse: o ser humano é contraditório, e explicou o porque. Interessantissimo.

    Para me queimar menos tento seguir um conselho do Skinner: falar menos sobre o que vai se fazer, preferir falar sobre o que já se fez, ou está se fazendo.

    Pelo menos cai-se menos em contradição, e torna-se uma pessoa mais confiavel…

    Mas eu apenas tento… nem sempre consigo… rs

    Ah a politica é um problema: as promessas são inevitaveis…

    beijos

  2. July 24, 2006 at 4:13 pm

    Gostei de seus argumentos. De fato, não existe a tão falada coerência e exigir isso de qualquer ser humano, por mais legítimo que seja, é também agir incoerentemente… Quanto à sua reflexão final, mudar o meio é de fato um desafio… Não consigo imaginar um mundo em que o ambiente seja favorável à existência da coerência… até mesmo porque, quem faz o mundo e cria as condições são seres humanos.
    Talvez a chave esteja na aceitação da condição humana… … …
    Beijo pra vc!
    Raquel

  3. Leandro
    July 24, 2006 at 5:30 pm

    poisé oq dizer, muito bom o testo vc da mesmo pra psicologo e pra escritor uahauh, brincadeiras a parte. ser coerente é seguir convenções o que não quer dizer que é o correto até pq cada cultura tem suas convenções, por exemplo, em alguns paises é incoerencia vc dizer que vai ser fiel a sua primeira esposa, aqui no Brasil tmb é incoerencia vc dizer esta mesma frase pq vc estaria sendo hipocrita( na maioria dos casos), mas seria coerente se vc seguise isto. ou seja a coerencia depende de cada pessoa por isto ela não existe em grupo mas talvez exista individualmente

    enfim
    um abraço rob

  4. July 25, 2006 at 12:26 am

    Olha so a coicidencia!

    Na sexta havia separado o trecho de um livro para copiar e hoje quando releio o trecho, olha o que eu havia copiado:

    ” … Mas eu só queria saber neste mundo quem concorda consigo mesmo! Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências, metades, três-quartos e quando muito nove-décimos. Até afirmo não existir uma só pessoa perfeita, de São Paulo a São Paulo, a gente fazendo toda a volta deste globo, com expressiva justeza adjetivadora, chamado de terráqueo.” p. 79
    Mario de Andrade, trecho do livro Amar, verbo
    intransitivo

    Bom, era isso! beijo

  1. March 22, 2007 at 12:15 pm

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