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Terapias científicas e alternativas

Qualquer terapia é humana. Só que algumas são éticas e outras não. As não éticas acabam sendo menos humanas. Então, em um continuum de humanitarismo, homeopatia, florais e afins são menos humanas.

O problema é que agora além de a pessoa poder escolher com que baboseira vai gastar dinheiro, quem paga imposto vai pagar pelas baboseiras dos outros.

Muito mais honesto uma análise decente, verificando as relações do dia a dia da pessoa, mostrando a ela como cada uma dessas relações pode estar sendo prejudicial a ela, sugerindo algumas alternativas, discutindo-as decentemente, e partindo para uma solução conjunta. Isso uma análise científica pode fazer de verdade, também sendo humana o suficiente para enfatizar que determinadas relações ainda não foram descobertas. E mais, até descrevendo que as pesquisas científicas demonstraram que florais e etc não ajudam na doença em si, mas reduzem o estresse, e que se a pessoa acha que uma massagem pode ajudar, então vá fazer uma “massagem” chamada floral ou homeopatia. E que a ciência também descobriu que a redução do estresse está vinculada a maior produção de anticorpos. Isso é ser humano. E ser ético. E ser honesto.

Porque parte da ética de um profissional está em lidar com as limitações da própria prática.

Vale a pena dizer também que todas as teorias são apenas diferentes maneiras de olhar para o que acontece. E o que acontece pode ser chamado de fatos, de espíritos, ou influências extraterrenas. E, olha que coisa, a explicação mais eficaz normalmente é a mais simples. Então, que nos atenhamos aos fatos e não aos extraterrestres.

Mais interessante ainda: os cientistas são capazes de olhar para um cidadão e dizer “se você quiser aprender a fazer isso, eu te ensino”. Eles nunca inventarão que a pessoa precisa de mediunidade, ou qualquer tipo de dom ou sensibilidade especial, ou que a pessoa tem que treinar sua consciência ou seu espírito. Não, o conhecimento é bastante público e nada esotérico. Isso é ser humano. E não ser um padre vendendo uma idéia que só os escolhidos podem ver.

Ser humano é olhar nos olhos dos pais de uma criança autista e dizer “a ciência descobriu isso e isso, e é o que podemos fazer. Aqui estão os dados do que os procedimentos conseguiram com outras crianças. O que os senhores acham disso? Como vêem, não há nada mágico. Vamos trabalhar duro e precisaremos de sua ajuda”. E eu sou testemunha do que uma análise científica pode fazer por uma criança autista. Desafio, a qualquer momento e em qualquer lugar, uma terapia alternativa à científica conseguir os mesmos resultados que venho observando.

É fácil ser humano: é só ser ético e honesto, e mostrar por que as coisas funcionam e no que podem não funcionar muito bem. E é claro, mostrar que o conhecimento pode ser aprendido, não dependendo de qualquer “disposição mística especial”.

  1. Jean
    May 30, 2006 at 6:03 pm

    Já tens esse blog desde 2002??? Esse eu não conhecia. És o louco dos blogs!
    No mais… nem tudo tem relação não. Aliás, ver as coisas como relacionadas é apenas uma maneira de ver o caos, ou não… Vai saber… O fato é que cada um acredita no que mais lhe apetece, e no mundo existe um monte de coisas… E sei lá, cara. Não sabia que tinhas esse blog oculto aqui.

  2. May 31, 2006 at 12:28 am

    Bonito discurso sem dúvida, enfatizou bem a palavra ciência. Porém ainda lhe digo que acupuntura e homeopatia são deliciosas terapias e que trazem resultado, tanto que o conselho federal de medicina os tornou especialidades médicas. Florais e outros é só questão de tempo.

    Relax man, você está numa paranóia de cientista muito exagerada, julgado a tudo e todos como se fosse o dono de la verdad, como se tudo que não se faz num laboratório ou não se escreve uma tese provando é desprezivel. Você fala do ciêntista como se ele fosse a luz do mundo, aquele que vê o que o ignorante não vê. Esse é o MITO CIENTÍFICO. Antes o padre era esse cara, agora é o cientista. Daqui a 100 anos vai sabe-se lá quem vai ter o domínio do discurso ideológico.

    Tem hora que o padre humilha a técnica do psicólogo e nem ciência ele pratica mas resolve o problema do cidadão. E tem hora que a acupuntura resolve mais que remédio e por ai vai. Não se esqueça das réles limitações da ciência e do quanto o homem não sabe. Ciência é bacana, eu mesmo sou um cientista apesar de você achar que não😉 O problema é sempre o paradigma.

    Experiência pessoal vale mais que posições teóricas, então criticar as coisas requer vivência nelas não? Enfim, esse meu papo de experiência pessoal já deu o que tinha que dar, não mais o citarei a ti🙂

  3. May 31, 2006 at 1:11 am

    Você coloca as coisas desta forma – exotérico e esotérico – por questões de simplicidade, por questões didáticas?

  4. May 31, 2006 at 7:14 am

    Na verdade, o mito científico é que é uma pedra onde as pseudociências se apóiam.

    Eu não me considero um padre, não. Eu busco um conhecimento honesto, da mesma forma que o pessoal que faz florais buscam. A mesma paixão que eu tenho, essas pessoas têm, afirmando-se científicas e com métodos precisos. Todos defendem suas idéias com paixão. Da mesma forma que tento dizer o que é a ciência, você tenta dizer que o que faz é ciência, e tentam dizer os que fazem florais que aquela terapia vale a pena. Se eu mereço o título de padre, você e essas pessoas também merecem.

    Meu papel, porém, é bem diferente. Não sou padre nenhum, porque não defendo nada invisível. O que defendo pode ser visto e tocado por quem quiser. Não é preciso ter fé, basta analisar os dados!

    Não duvido que florais baixem o nível de estresse. Mas mais do que isso eu duvido. E mesmo o porquê baixa o nível de estresse merece investigação científica.

    Ciência não é religião, como diz o pessoal do mito científico. É só um método ao alcance de quem quiser. Não existe, como você disse, uma experiência pessoal que permite que a pessoa veja ou não. Existe sim uma experiência para todos que quiserem aprender.

    É muito diferente uma coisa da outra.

    E Lucas, uso por simplicidade.

  5. May 31, 2006 at 2:27 pm

    Na verdade não disse que você é como um padre, o que eu fiz foi um paralelo com o discurso intelectual dominante desta época no ocidente (científico cartesiano) com a da época imediatamente anterior (religioso) para mostrar que os discursos mudam em um curto período de tempo, assim como os paradigmas e por isso é mais interessante não se apegar com todas as forças as idéias, as quais são sempre relativas (Zeitgeist).

  6. May 31, 2006 at 2:29 pm

    Ah, na verdade poderia dizer que é como padre sim, na medida em que defende com paixão uma idéia e não a deixa sempre em certeza relativa. A fé e a paixão podem caminhar juntar muitas vezes, só mudando de nome.

  7. May 31, 2006 at 4:27 pm

    Interessante, Robizito, na matéria sobre a carta psicografada usada como prova no julgamento, o argumento do último advogado, a favor deste tipo de prova: de que as provas obtidas por meios “lícitos” são válidas, ou seja, as provas adquiridas não de acordo necessário com a lei, mas sim as que pelo menos não são contra a lei. Ou seja, o direito penal serve para nada, neste caso, pois sendo que A Lei dita o que é válido ou não, cabe à “opinião” decidir o resto. A Lei serve somente, neste caso, para dizer o que é válido ou não em termos de processo, cabendo o resto à “consciência dos jurados”.

    Já o segundo caso é uma discussão mais interessante. Eu também prefiro não gastar dinheiro público com certas práticas como as indicadas, e elas estão ficando tão populares, não é mesmo, que daqui a pouco ficarão a disposição de todo cidadão médio. Eu só quero ver os argumentos do pessoal a favor, e quem seriam estas pessoas. Cada um com o seu osso, será? Eu nem mesmo sou a favor de análise “clássica” em sistema público de saúde, quem dirá isto?

    Só acho engraçado que você sempre acabe levando a questão para ciência versus pseudociência.

  8. May 31, 2006 at 6:36 pm

    Pois é, Luchésio. Eu sempre levo mesmo… Eu vejo toda essa coisa como relativamente interligada. É mais do que uma discussão entre ciência e pseudociência. É uma espécie de postura que se tem frente as coisas.

    Quanto à discussão da carta, não estou dizendo que é contra lei. Só me preocupa que ela seja considerada com seriedade…

    Marcus, não posso ser chamado de padre em nenhum sentido, pois estou disposto a aceitar provas contrárias ao que acredito. Desde que elas sejam provas, claro. Então, se você tiver alguma de verdade, que não seja algo do tipo “é preciso vivenciar”, então me mostre. Eu não acredito na ciência, como pode parecer. Acredito em relações demonstráveis.

  9. June 7, 2006 at 11:09 am

    Topei com uma critica similar no livro de Dawkins, O capelão do Diabo. Criei inclusive um post no meu blog (http://chicoary.wordpress.com/2006/06/07/lacan-e-a-matematica/). O método da ciência exige a reprodutibilidade e repetibilidade dos experimentos, como razão prática, pois não é possível transformar conhecimento em tecnologia sem tais pré-requisitos. As teorias científicas devem ser baseadas em assertivas falseáveis (Popper). Esses são os critérios da ciência (e alguns mais que posso ter esquecido). A ciência é realista e decepcionante para muitos. Um mundo mágico seria preferido por várias pessoas. Dawkins afirma que o mundo develado pela ciência, sem ilusões, é mais fabuloso do que todas as invenções culturais fantasiosas. Eu acho que a cultura fala de coisas diferentes e mais amplas, mas que a ciência é o nosso critério de realidade. A cultura tem seu valor como amálgama da humanidade e a fantasia também é maravilhosa embora não deva ser confundida com o propósito da ciência. Até as teorias menos científicas (ou pseudo-científicas) que surgem usam o termo “científico” para importar de forma matreira a respeitabilidade que o método científico grangeou. Dawkin solicita que os místicos de plantão pensem bem no “ato de fé” na ciência que professam ao voar a 10 mil metros do solo quando se dirigem aos locais de suas palestras onde esbravejam contra ela.

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