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O agora sem palavras

A maioria do que faço no mestrado é estudar comportamento verbal. Eu sei que o comportamento verbal é algo bastante concreto. Tanto quanto o poste que amassa o carro. Mas o que controla o comportamento verbal por vezes é muito fraco, como se fosse uma tonelada controlada por um punhado de fios de cabelo.

Daí que…

Quanto mais aprendo isso mais a tonelada verbal parece controlada por menos fios de cabelo. E isso, de alguma forma, faz com que o agora fique cada vez mais especial e, de certo modo, cada vez mais real. Vou tentar explicar por quê.

Nos momentos em que estou vivendo o que está me acontecendo tudo é bastante real. Posso ver minha camiseta, posso sentir meu coração, posso curtir meu pé tocando o chão e dizer a cor da parede. Tudo é deliciosamente real e posso falar sobre o que está ao meu redor com bastante fidedignidade. Nessas situações a tonelada verbal está presa por correntes de ferro.

O que não me cerca fisica e temporalmente, porém, parece perder um pouco a realidade. Como posso viver de fato o que está no outro quarto? Com que autoridade posso pensar sobre o amanhã? O que me faz ter certeza do que aconteceu ontem? O controle é muito fraco, é muito distendido. Quando dizemos qualquer coisa sobre qualquer condição que não nos cerca naquele momento estamos na realidade respondendo apenas de forma indireta a essa condição.

Para ficar mais simples: Quando eu vejo água e digo água, esta relação é bastante real; estou respondendo a algo que está ali, estou respondendo à água.
Quando eu digo que verei água, que eu vi água, que existe água no outro quarto, normalmente estou respondendo a algo que está relacionado à água, e não à água em si. Posso estar respondendo a uma pergunta de alguém, ou a um copo que estou vendo naquele momento e que sempre me faz dizer água, e assim por diante.

O que quero dizer é que responder ao que não está presente é sempre menos real do que responder ao que está presente. E isso está sendo apreendido por mim de maneira bastante oriental. Todas as vezes em que li budismo e taoísmo fiquei encafifado com isso de viver o momento. Um tipo de “carpe diem” dos orientais (não muito igual ao carpe diem). Agora começo a entender a irrealidade que é o que não é no momento.

Quem diria que uma ciência totalmente ocidental me faria ter insights da China! A cada dia que passa a literatura, a ciência e mesmo o dia seguinte cedem ao prazer verdadeiramente real do momento presente. A cada dia que passa pensar verbalmente me parece menos real.

No entanto, eu amo esse tal de verbo e não vou pedir demissão da capacidade de falar. Talvez um dia eu só fale do momento.

Categories: Filosofia, Psicologia
  1. April 26, 2006 at 11:02 am

    Não sei se tem a ver, mas vi essa notícia e lembrei de ti:

    Cientistas descobrem região do cérebro responsável pela leitura
    Estímulos ligados à emoção facilitam percepção inconsciente das palavras

    Um grupo de cientistas franceses conseguiu identificar uma região do cérebro indispensável para a leitura e demonstrar a importância do inconsciente na percepção das palavras. As experiências mostraram que uma região do lobo temporal esquerdo do cérebro é fundamental para a leitura, explicou o psiquiatra francês Raphael Gaillard, principal autor do estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica (INSERM).

    – Sabíamos que a região era ativada durante o processo de leitura, mas não que era usada exclusivamente para isso e nem que era necessária – disse Gaillard.

    Os autores do estudo puderam comprovar a relação analisando um epilético em estado grave, que precisou remover a região para seu tratamento.

    – Após a operação, os cientistas observaram que o paciente tinha muitos problemas para ler, mas reconhecia rostos ou objetos sem problemas – explicou Gaillard, acrescentado que este foi o primeiro caso em que se provou, antes da cirurgia, que a pessoa lia normalmente.

    Os resultados foram publicados no jornal científico norte-americano Neuron.

    – O surpreendente é que um traço cultural, como a leitura, muito recente em termos de evolução e desnecessário para a sobrevivência da espécie, tenha um espaço específico no cérebro – comentou Gaillard.

    Em outro artigo, o psiquiatra diz que a região cerebral encarregada de reconhecer as palavras é ativada mais facilmente quando se fala de emoções. E o processo funciona mesmo quando a pessoa está inconsciente. Para chegar a esta conclusão, foram exibidas várias palavras a 36 pessoas que estavam “quase no limite da consciência”.

    – A primeira conclusão é de que a região do cérebro em estudo foi ativada até nas pessoas que não se lembravam de ter ouvido as palavras – informou o psiquiatra.

    Além disso, as palavras com conotações emocionalmente negativas foram mais identificadas que as outras, que eram neutras. Mesmo quando eram sons semelhantes, como no caso de douleur (dor) e couleur (cor). Segundo Gaillard, os resultados revelam que a experiência emocional negativa associada a alguns termos “amplifica a percepção das palavras, que chegam ao nível da consciência”.

    Embora o fenômeno só tenha sido provado com termos negativos, pode-se acreditar que o resultado será semelhante com palavras com uma conotação emocional positiva, de acordo com o cientista. Gaillard destacou que os resultados do estudo confirmam parte da teoria da psicanálise, pela qual os processos inconscientes são “muito ricos”. Mas, ao contrário do que defendia Freud, revelam que os estímulos negativos chamam a atenção, em vez de serem rejeitados.

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