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Buso Produções – 3

ESTAÇÃO PARAÍSO DO METRÔ

O primeiro fato que precisa ser conhecido sobre a estação Paraíso do metrô é que ela é o inferno. A Sé é pior, é verdade, o que me faz ter dúvidas do que pode ser pior do que o inferno que é a estação Paraíso.

Um segundo fato notável é que o inferno é na Paraíso e algo pior do que o inferno fica na Sé (que significa igreja). Eu acredito que seja Deus testando os homens. É preciso passar pelos dois pontos para chegar ao destino final (qualquer que seja).

Terceiro fato notável é a quantidade de trocadilhos que se pode fazer com o nome Paraíso. Eles estão em itálico tanto acima desta linha quanto abaixo, para que os de pensamento mais lerdo possam acompanhar.

Outro fato não tão notável, mas ainda notável, é os corredores e labirintos da estação Paraíso. Há pessoas que os desconhecem. Quem usa a estação apenas para baldeação perde a oportunidade de se perder na Paraíso. São subidas, descidas, curvas, cantos escuros, lojas, sorveteria… tem de tudo na Paraíso.

Não fosse a estação eu não conseguiria me readaptar a São Paulo tão logo quanto fiz. (mentira, ainda não me adaptei, mas vamos fingir que sim para termos texto). O relato a seguir mostra de forma conclusiva como é viver na Paraíso.

Cheguei de Floripa achando que eu era o mais zen dos homens. Cheguei manézinho, estilo sussa, tudo era massa, nada era palha, a vida fluía tal qual as ondas que nunca dropei. Aí me deparei com a Paraíso e suas regras. Rolava aquele amasso no metrô, muito parecido com os amassos no busão, mas com um agravante: todo mundo descia ao mesmo tempo, e não aos poucos.

Esse agravante provoca o chamado “efeito onda”, que pode ser resumido assim: não é preciso caminhar, basta pular e deixar as pessoas te levarem pelo ar. O “efeito onda” é perigoso, como uma arrebentação na sua cabeça; ao invés de levado você pode ser pisoteado pela fúria da maré. Então, como manézinho zen, eu esperava todo o povo passar e saía depois de todos. Mas isso não dava certo. As pessoas vinham de todos os lados e me atropelavam em plena Paraíso. Às vezes eu não perdia o fechamento das portas por pouco.

Passado algum tempo adotei uma solução que me parecia perfeita. Ao invés de ser o último da fila, eu seria o primeiro, assim eu poderia sair correndo e ninguém me atropelaria. O clima na Paraíso é quente e as pessoas têm fogo na bunda ou sei lá… me atropelavam do mesmo jeito, como que se ligasse o turbo.

Eu ficava boquiaberto com a violência, com a ignorância, com a malcriadagem, com aquele estilo de vida que existia na Paraíso, e me sentia com vergonha de fazer igual. Mas os homens são escravos do que lhes acontecem e depois de tomar pisões daqui e empurrões dali deixei de ser manézinho e fui rebaixado a uma categoria baixa, a dos paulistanos.

Eu entendi finalmente que em sampa espaço é ouro. Ao vencedor, os espaços. Paulistanos são como sem terras, que invadem espaços e brigam por eles com unhas e dentes. E são como as comunidades que precisam lutar por suas batatas, porque dificilmente elas poderiam ser plantadas, e não são suficientes para duas comunidades.

Agora nada era massa, tudo era palha, e na onda de pessoas eu é que dava vaca na galera. Da primeira vez em que fui um pouco mais duro em busca do espaço perdido, olhei para os lados, para cima e para baixo em busca de alguma frase que me dissesse errado. Nada aconteceu. Aquilo era normal, eu nunca seria punido. Empurrar, ganhar espaço… isso é micro sobrevivência. Eu estava transformado. Era mais um paulistano na Paraíso de São Paulo.

Finalmente, vale a pena notar que os trocadilhos não foram tão engraçados assim.

  1. April 12, 2006 at 9:15 pm

    Boa história.

  2. April 13, 2006 at 8:57 am

    Então, por favor, me dê sugestões quanto a sistema de comentários!

  3. April 18, 2006 at 11:25 am

    Eita, então não quero ter filhos.. Todos dizem que ser mãe é padecer no Paraíso… se for igual, deus me livre!😀
    Teu blog anda bom, não? Já te disse isso, né! Adorei os textos aí de cima, mas vou comentar tudo só aqui no debaixo. Eu te chamei de bobo, tu me chamaste de doida. Estamos quites.

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