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As vezes em que a mente funciona (da série: Adeus, Mente)

A ciência humana que utiliza a perspectiva que estou descrevendo segue uma filosofia que se chama pragmatista. Os pragmatistas não se importam com a verdade absoluta, pois acreditam que se tal coisa existir é praticamente impossível descobri-la. Então, verdades são relativas e mutáveis, e devem ser “escolhidas”. A melhor escolha é uma verdade (sempre temporária) que permite maior quantidade de efeitos práticos desejáveis. Assim, não importa se existe mente, cognição, etc. O importante é que quando esses conceitos são dispensados, as pessoas podem ser entendidas de maneira mais efetiva, em uma ciência coerente. Se um dia o conceito de mente se mostrar mais efetivo, então os pragmatistas vão utilizá-lo.

O problema com a palavra mente e os substantivos relacionados a ela ocorre quando o uso constitui uma ficção explanatória, ou seja, uma explicação que na realidade não explica. Voltando ao exemplo de “Pedro bateu no irmão porque tinha raiva”, a raiva, supõe-se, explica a ação de Pedro. Mas é fictícia, no sentido de que na realidade utiliza um nome no lugar de realmente mostrar as causas da ação.

Acontece que se a palavra mente for usada em uma situação em que não constitui uma ficção explanatória, então não há por que dispensá-la. Se, por exemplo, fosse explicitado que raiva, no caso, referia-se aos eventos “roubo do doce” e “pisão no pé”, não haveria problema em utilizá-la. Mas como vêem, a palavra tem que ser explicitada. É mais fácil descrever a situação, apenas.

É importante definir o que a perspectiva que descrevo entende por fenômeno, ou evento, psicológico. Um evento psicológico é uma ação humana (privada ou pública) em relação com o ambiente (privado ou público). É ação em relação com ambiente. Isto quer dizer que uma ação tomada isoladamente não é um evento psicológico, e que uma mudança no ambiente tomada isoladamente não é um evento psicológico.

O melhor exemplo é o do reflexo pupilar. O reflexo pupilar é um fenômeno psicológico; significa a relação entre a abertura da pupila e a mudança de luz no ambiente. A contração/dilatação da pupila não é um evento psicológico, mas sim objeto de estudo da fisiologia. Por sua vez, a mudança de luz é um fenômeno da área da física. Apenas a relação entre luz/abertura-da-pupila é um evento psicológico. Diz-se que a abertura/fechamento da pupila é função da quantidade de luz no ambiente.

O mesmo vale para eventos mais complexos. Dizer “bom dia” é um movimento mecânico das cordas vocais em consonância com movimentos da língua. Uma pessoa caminhando em sua direção é também um movimento mecânico. A relação entre a pessoa caminhando, “avistar” essa pessoa e dizer “bom dia” é um evento psicológico. Dizer “bom dia” a uma cadeira, ou a si mesmo em frente ao espelho, é um fenômeno psicológico, pois há relação entre a ação de dizer e o ambiente (seja a cadeira, ou a imagem no espelho).

A valorização do contexto é, portanto, ponto chave na perspectiva que descrevo. Por se preocupar com a relação, a estrutura do movimento tem papel secundário. O principal a ser estudado em um evento psicológico é a função que exerce. No caso do bom dia, por exemplo, acenar com a mão, mover a cabeça para cima e para baixo, dizer “bom dia”, dizer “opa”, são todos considerados como sendo o mesmo evento psicológico. Apesar de terem diferenças de forma, são idênticos em função: mostrar à pessoa que está tudo bem, deixar claro que ela foi vista ou, resumindo, cumprimentar a pessoa.

Há um adendo. Sendo que nenhum evento pode ser igual ao outro, diz-se que o evento de cumprimentar uma pessoa é uma classe de evento psicológico. Ainda que em todas as vezes a forma da ação seja um aceno com a mão, cada aceno tem uma velocidade, inclinação, duração diferentes. O conceito de classe, então, deixa claro que os eventos são formalmente diferentes entre si, mas têm a mesma função.

No próximo, texto, duas questões centrais: conseqüências e controle de estímulos.

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