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As vezes que você não vê (da série: Adeus, Mente)

Existem ações invisíveis a todos, menos à pessoa que as realiza. E existem ações invisíveis a todos. Uma perspectiva psicológica abrangente deve se preocupar com esses tipos de ações tanto quanto com as ações que todos podem ver. Claro que há uma imensa dificuldade em estudar ações que as pessoas não vêem, mas isso não é motivo para tratá-las como inestudáveis, ou inexistentes.

É ainda mais comum atribuir rótulos mediacionais a ações invisíveis. Foi fazendo isso que se desenvolveram o cognitivismo, a psicanálise, o existencialismo e por aí afora. O cognitivismo, por exemplo, surgiu para superar uma perspectiva ultrapassada de que só era possível fazer ciência com fatos observáveis por todos. A solução do cognitivismo foi criar conceitos mediacionais e esquemas matemáticos para tentar entender o que acontecia na “mente” entre uma ação observável e outra.

Mas se correr pode ser estudado, também podem ser estudados o pensar e o sentir. Não há necessidade de supor que pensar, sentir e correr sejam essencialmente diferentes. Eles possuem uma mesma característica, a de serem ações humanas que são influenciadas e influenciam o meio ambiente. Inclusive, meio ambiente é um conceito maior do que parece, e inclui os estímulos que só o indivíduo pode perceber.

Para entender melhor, é preciso conhecer a diferença entre as divisões interno/externo e privado/público. A divisão interno/externo é cartesiana e postula que o pensamento é de natureza diferente do mundo físico. A divisão privado/público reconhece que o pensar é tão físico quanto o mundo físico, sendo que sua única diferença é a quantidade de pessoas que podem ter acesso direto a ele. Ou seja, pensar é ação tão concreta quanto correr, mas pensar só pode ser visto por quem pensou, enquanto correr pode ser visto por todos. Estou evitando usar termos técnicos, mas é possível resumir assim. Interno/externo é uma divisão ontológica. Privado/público é uma divisão epistemológica.

Quando uma pessoa pensa, ela está realizando uma ação que produz estímulos. Uma ação, por sua vez, é influenciada por um estímulo anterior. Dessa forma, pode-se dizer que há uma seqüência inesgotável de estímulos influenciando ações que produzem estímulos que podem influenciar outras ações, e assim por diante.

A seqüência não ocorre apenas com pensar. Quando uma pessoa estica a mão para pegar um grampeador, pode-se dizer que ela esticou a mão influenciada pelo estímulo visual grampeador e por folhas bagunçadas; por sua vez, esticar a mão produziu estímulos privados, tais como a nova posição do braço e o contato físico direto com o grampo. O contato físico com o grampeador, um estímulo privado, influenciou fechar a mão para agarrá-lo, que produziu novos estímulos privados, e assim por diante.

A mesma regra vale para o sentir. No exemplo a seguir fica clara a importância de considerar toda ação humana em relação com o meio ambiente. E mais, mostra como conceitos mediacionais podem atrapalhar o entendimento de fenômeno como um todo.

Se alguém explicar uma ação dessa forma: “Pedro bateu no irmão porque estava com raiva”, o que essa frase explica de fato? O que causou a ação foi a raiva? “Raiva” é um conceito mediacional, que transforma a ação (verbo) de sentir-raiva no estado (substantivo) raiva. Em uma perspectiva incompleta, explicar a ação por meio de substantivos mediacionais pode ser suficiente. No dia-a-dia, dizer que alguém fez algo porque estava com raiva, cansado, feliz, etc, é considerado uma explicação adequada.

Mas uma ciência humana não pode aceitar explicações incompletas. Para começar, considera raiva como uma ação em relação com aspectos do ambiente. Correr é uma ação tanto quanto sentir-raiva é. Ambas são influenciadas pelo meio ambiente. Correr pode ter sido influenciado pelo tiro de largada, por olhar no relógio e pela experiência prévia de que chegar fora do horário resulta em bronca do chefe. Sentir-raiva também é fruto do meio ambiente.

No caso de Pedro, é fácil notar que o irmão de Pedro tomou-lhe um doce e pisou em seu pé. As pesquisas com animais, e algumas raras com humanos (por questões éticas), mostram que um organismo “frustrado” (dor, fome, agredido) tem maior probabilidade de executar ações violentas. Então, voltando a uma explicação do porquê Pedro bateu no irmão: “Pedro bateu no irmão porque o irmão lhe tomou o doce e pisou em seu pé” é muito mais completa do que “Pedro estava com raiva”. A explicação mais completa considera o ambiente e é baseada em descobertas científicas.

O mesmo tipo de desmembramento pode ocorrer com qualquer conceito mediacional. Basta analisar as situações em que os conceitos são usados para compreender por que o são e que relações organismo/ambiente querem explicitar. Outro exemplo. Quando se diz que Bruno ama Teresa, o que isso quer dizer? A palavra “amor” é usada para se referir a ações como ligar para Teresa, dizer que gosta dela, escrever para ela, dar-lhe beijos, ajudá-la com seus problemas, e assim por diante.

E é isso por hoje.

No próximo texto, vou falar mais sobre a diferença entre dizer que mente não existe e que mente é um conceito dispensável. E vou escrever um pouco mais sobre o fenômeno psicológico segundo a perspectiva que descrevo.

Respondendo aos comentários do outro texto:
Tsu, é behaviorismo sim. Mas não o metodológico, e sim um que se chama radical. É radical de raíz. As críticas ao behaviorismo normalmente são voltadas ao metodológico.

Sabrina, talvez o que a pesquisa esteja demonstrando não seja uma bondade, e sim um mecanismo de sobrevivência. Um sujeito que ajuda o próximo tem mais chance de ser ajudado por ele. Mas é bacana chamar de bondade.

  1. Maximiliano
    August 6, 2006 at 9:58 pm

    Oi

    Seu blog é formidável. Combina leveza com conceitos pesados.Parabéns!
    Leio e releio seus posts sobre psicologia, com entusiasmo, celebro essa descoberta.
    Sou psiquiatra e estudo Terapia Cognitiva-Comportamental.Minha busca por principios filosóficos sobre o tema da mente começou recentemente e ainda não sei operar a maioria dos conceitos-pilares da discussão.Mesmo assim gostaria de levantar alguns questionamentos.
    Vou estudar seus posts e fazer algumas anotações.
    Tá limpo?

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