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Quando os olhos procuram II

Agora que expus minha idéia quanto à impossibilidade da verdade e o poder da aprendizagem de moldar tudo quanto sabemos do mundo, é necessário comentar uma outra força de influência, que regula o aprendizado.

Trata-se da filogenia, nosso passado evolutivo. É fato que somos animais com um alto poder de adaptação ao meio. Temos grande plasticidade comportamental, este é nosso forte. Evito falar de inteligência ou consciência, pois essas palavras mais atrapalham do que ajudam. Melhor é pensar em termos de capacidade de aprender diferentes atividades, o que temos de sobra.

Sentir amor, ódio, ou o que for, é uma adaptação evolutiva que facilitou a sobrevivência da espécie em algum momento. Amor ajuda no cuidado dos filhos, por exemplo, e na manutenção da comunidade. Ódio é auto-preservação: destruir o que faz mal. Assim por diante.

Um autor da análise do comportamento notou que é muito provável que as construções da comunidade sejam muito mais aceleradas do que a mudança genética. Nosso corpo é igual ao corpo dos romanos, e dos povos anteriores ao romanos, e dos povos anteriores… Essa discrepância de velocidade gera conflitos. Muitos dos sistemas naturais de defesa não são mais necessários, pois a comunidade tem sistemas alternativos. A raiva exagerada poderia ser dispensada, mas ela existe, como uma predisposição do organismo a agir de certa forma sob determinadas condições.

A comunidade ainda permite a ocorrência das condições que produzem raiva. Essas condições assim o fazem porque são semelhantes às condições que provocaram raiva em nossos antepassados. Agora vem a sacada: sendo que nosso corpo ainda sente raiva, o ideal seria a comunidade entender esse mecanismo e evitar a criação das condições que o ativam.

Conhecer o comportamento é fundamental para decidir o que ensinar. Tudo o que pensamos, sentimos, fazemos, etc, tem origem em três sistemas de seleção. O sistema de seleção natural (ou filogenético), a seleção dos nossos comportamentos por suas conseqüências (ontogenia) e a seleção de comportamentos imposta pela comunidade, que permite algumas atividades e condena outras.

Sendo que nos comportamos de acordo com a forma como nos relacionamos com os dois últimos sistemas acima expostos, amparados inevitavelmente pelo sistema biológico, é fundamental conhecermos as formas como nos relacionamos com o ambiente. É um conhecimento mais do que necessário para produzir alguma melhora no mundo.

A maioria da Psicologia ignora a seleção genética e parte do pressuposto de que a comunidade influencia tudo o que somos. Ingenuidade. É uma postura infrutífera.

Se tudo o que somos depende do aprendizado, significa que o modo como entendemos a realidade foi proveitoso para nós e se não mudamos o modo como pensamos, significa que nosso entendimento continua proveitoso de alguma forma. É preciso deixar claro, no entanto, que não é só o mundo que nos produz, nossas ações transformam o mundo, criando condições diferentes, que nos farão também diferentes.

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