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Reencontrando o Truco

Sempre joguei truco. Quando aprendi, ainda era auge do sistema de “manilha velha”, mas o sistema de “manilha nova” estava sendo implantado e aprendi os dois. A diferença é que no “manilha velha”, as cartas que valiam mais são constantes, enquanto no sistema novo, as cartas que valem mais variam a cada rodada.

Joguei muito truco em casa, principalmente nas festas de família, quando meu lendário Tio Angelin aparecia com seus gritos de truco que ecoarão pela eternidade. Quando eu penso no tipo de jogador de truco que quero ser, penso no meu tio Angelin. Ele tinha uma capacidade de ficar vermelho gritando coisas engraçadas e de provocar os adversários de maneiras nada convencionais, que ganhava todas mentindo. Blefe era o segundo nome do meu tio Angelin. Angelin Blefe, primo do Angeloni.

No colegial, desenvolvemos um sistema discreto tão poderoso, que jogávamos durante a aula, olhando para o professor. Parece mentira, mas não é. Nenhum professor jamais nos flagrou. Mais tarde entrei na Universidade de Guarulhos, e lá tínhamos a disciplina “tópicos em truco”. Diariamente jogávamos, e jogávamos ainda mais nas aulas de anatomia.

Terminei por enjoar. Em Florianópolis, eu joguei muito pouco: uma ou duas partidas e já me afastava da mesa. Mas mesmo enjoado, tive ânimo para jogar algumas partidas contra a inesquecível dupla da CARNE. E foi histórico o momento em que a equipe CERVEJA foi campeã na modalidade Truco na primeira Olimpsíadas, título que foi renovado na segunda Olimpsíadas.

Depois disso, parecia que minha breve carreira no truco havia acabado. Já não sentia mais vontade de jogar, todas as mesas eram iguais e os adversários pareciam iguais. Não que eu seja um grande mestre na arte do truco, sou até bem ruinzinho, mas entre gostar e ser ruim há uma imensa diferença.

O bacana do truco é enganar o adversário. Truco bom é truco roubado. É olhar na cara do mané e pedir “meio pau” com um 7 na mão. O prazer é ver o mané deixando de ganhar 6 pontos e ainda o presenteando com 3. Isso é o bacana do truco!

A outra coisa bem bacana do truco é o parceiro de jogo. Se ambos se conhecem bem e manjam dos discretos sinais trocados, o jogo flui com uma facilidade incrível. Aos adversários cabe apenas a derrota humilhante. Mas se o parceiro não for bom… Daí tenho que citar meu amigo Herbário: “sexo é que nem truco, sem um bom parceiro é preciso ter uma boa mão”.

Reencontrei o truco em uma reunião de família, para variar. Jogamos eu e o meu irmão contra o meu tio e o meu pai e depois eu e o meu tio contra meu irmão e meu pai e depois várias outras duplas com várias outras pessoas. Tudo regado a amendoim japonês e cerveja. Foi divertido demais! Minhas vitórias e derrotas foram equilibradas, mas quando joguei com meu tio, várias duplas foram necessárias para nos tirar da mesa. Esse tio com quem joguei não é o Angelin, é o Ângelo. Juro.

Agora, como bom tio, tenho que ensinar ao Pietro as artimanhas do jogo da mentira. A vida se divide entre fora e dentro de um campo de futebol e entre fora e dentro de uma mesa de truco. No truco, a mentira é bem vinda e a enganação é a lei. Mais gente podia entender isso, e deixar de roubalheira fora das mesas de truco.

Este texto não tem um final de efeito. Ele acabou aqui. Obrigado por ler, se você teve paciência. Feliz ano novo.

Categories: Diarices
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