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Análise do comportamento e outras práticas

Meu primeiro ato como pessoa livre da seleção do mestrado vai ser tomar um porre tão violento, que vou considerar falha não acordar em algum país da Ásia sem lembrar que negociei com o Bush o esquecimento da dívida, e da dúvida, brasileira.

Meu segundo ato vai ser procurar novas formas de olhar para a realidade. Estou invariavelmente comprometido com a ciência, e com a análise do comportamento. É prático, é funcional, é o que o mundo de hoje precisa: rápido, prático e funcional. Não acho que temos muito tempo para filosofar a respeito de nada, nem ficarmos nos perguntando o que acontecerá no futuro, pois creio que pode não haver futuro se algo prático, rápido e funcional não for colocado em ação imediatamente.

Mas… ainda assim, e aparentemente de maneira contraditória, meu segundo ato vai ser procurar novas formas de olhar para a realidade. E isso pode ser explicado. Tendo, já, uma base rápida, prática e funcional, é possível reduzir alguns danos. Pretendo fazer isso, inicialmente, de dois modos: dando aulas e atendendo em clínicas. É um começo humilde, mas é um começo que cria algumas bases educacionais importantes para salvar o futuro da destruição narcísica. O problema é que a ciência, e a análise do comportamento, são relativamente neutras, e não as considero capazes de criarem uma ética. Elas não têm direções, apenas preceitos básicos.

Alguns cientistas, e analistas do comportamento, discordariam de mim. Mas eu tenho boas razões para dizer o que eu disse. Uma ética de um analista do comportamento, por exemplo, seria bem geral, do tipo, “não puna (faça mal)”. A análise do comportamento produziria uma direção de ação eficaz e reforçadora, mas há graus e graus de qualidade do reforçamento. A direção de ação seria funcional, e cumpriria seu objetivo, que é o de tornar os homens dignos, recebendo recompensas e evitando punições. Mas talvez isso ainda seja pouco. Penso de forma simples: se é possível ser agradável de mil maneiras, por que utilizar apenas uma? Há um amplo movimento pró pesquisas aplicadas e de análise de o que é mais reforçador para as pessoas.

Isso pode ser resumido assim: um analista do comportamento pode saber o que é melhor, de um ponto de vista prático e funcional, mas não é certo que uma pessoa leiga vai considerar a afirmação do analista do comportamento a melhor. Por isso, estudos tentam descobrir o que a população acha que é melhor, e então adaptar a afirmação do analista do comportamento a essas preferências. O resultado é a afirmação do analista do comportamento revestida de preferência da população. Algo extremamente prático, funcional, e agradável.

Agora sim posso falar do porquê de procurar novas formas de olhar para a realidade. Existem muitas práticas mundo afora que objetivam o bem-estar do homem. A maioria delas não é científica e, por não serem científicas, são de certa forma deixadas de lado pelos cientistas e analistas do comportamento. Não podemos dizer que todos os cientistas ignoram essas práticas (prova disso é a união de neurociência com meditação budista, vide Dalai Lama e seus projetos com investigadores do cérebro), então vamos dizer que há uma tendência em ignorá-las. Acontece que essas práticas realmente produzem o bem-estar no homem. Disso decorre que uma análise científica dos motivos causadores do bem-estar pode ajudar a isolar esses motivos e potencializá-los. Isso, de maneira bem complexa e abrangente: se for descoberto, por exemplo, que uma prática promove o bem-estar por causa da filosofia que a embasa, então é a filosofia que a embasa que necessita ser potencializada.

Mas alguns problemas são gerados. Primeiro, há uma quantidade quase infinita de práticas e filosofias que aparentemente produzem bem-estar. Uma análise de cada uma delas seria absurda. O ideal seria observar o que essas práticas e filosofias têm em comum, e assim isolar a propriedade essencial causadora de bem-estar. Mas talvez isso seja impossível e nem haja uma propriedade comum. Talvez a propriedade isolada do todo da prática não cause bem-estar. É uma dificuldade difícil de ser superada.

Uma solução possível seria escolher uma prática específica e extrair dela um direcionamento. Mas cada pessoa é singular. Então, realmente ideal seria analisar diversas práticas produtoras de bem-estar e estudá-las todas, permitindo que cada pessoa escolhesse aquela que é mais adequada para si. Essas práticas, então, seriam potencializadas com as descobertas da aprendizagem produzidas pela análise do comportamento. O resultado, em teoria, seriam super-práticas causadoras de bem-estar.

É preciso deixar de lado o preconceito com a ciência. Pois, de fato, ela se responsabilizaria pelo grau de qualidade das práticas. Por sua vez, os cientistas deveriam reconhecer que deles não vêm todas as soluções, e que eles precisam se submeter às qualidades de práticas não geradas em laboratório. Eu acredito que seja possível essa junção adequada de práticas científicas e não-científicas, desde que a prática não-científica seja devidamente estudada pela ciência. Não importa se a concepção da prática for anti-ciência, o que importa é que essa concepção seja promotora de bem-estar, como mostrado experimentalmente. Para a ciência, não deve importar o conteúdo, mas sim o produto do conteúdo. É uma afirmação altamente pragmatista. É o que deve ser.

Por isso quero estudar novas formas de olhar para a realidade. Apesar de saber que a análise do comportamento, por si, permite a criação de um mundo agradável a todos, ao mesmo tempo inegavelmente prático, também sei que é possível a criação de um mundo ainda mais agradável, se forem utilizados conhecimentos e práticas que a ciência não produziu. Volto a repetir: desde que esses conhecimentos e práticas sejam analisados cientificamente, e seus componentes que causam bem-estar sejam identificados.

Eu sou um cientista convicto. É a mais sincera das formas de conhecer.

PS: Tenho um projeto secreto de analisar o budismo comportamentalmente.
PS2: Agora não é mais secreto.

  1. Robson Savoldi
    May 26, 2008 at 10:04 am

    Sou estudante de psicologia, e tenho estudado bastante AC e neurociência. Ultimamente estou estudando neurofeedback e tenho interesse em meditação e graus de suscetibilidade a estímulos perceptivos (termo inventado por mim, os cognitivistas chamam de “estados de consciência”). Entretanto, ainda não consigo correlacionar estes fatos, o que os tornam incompativeis com a AC, em tempo. Gostaria de saber se tens informações que associem AC, meditação e estes “estados”.
    Obrigado
    Robson Savoldi – UFSC

  2. July 28, 2008 at 12:23 am

    Olá Robson

    Sou estudante de psicologia e tb tenho interesse em AC associada ao estado alterado da consciência.
    O IIPC-SP, é um Centro Educacional de Autopesquisa da Consciência, e estuda a consciência como um todo. http://www.iipc.org

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