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Mais coisas sobre isso

O negócio me incomoda tanto, que preciso escrever mais sobre isso. (isso o que? calma que eu chego lá)

Vamos supor que eu esteja em um furacão de criatividade. Apanho algumas madeiras e muitos pregos e construo ALGO altamente original. A construção sou eu, de muitas maneiras. Construindo-a, espantei pensamentos ruins, ou traduzi para formas concretas todo o mundo abstrato que soprava o furacão na minha mente. Batizo a construção de “estaca de domingo” e exponho a todos.

Dois conjunto de universitários vêm para a exposição. O primeiro grupo está fazendo um passeio estranho ao comum. Não costumam discutir arte, nem ver arte, nem mesmo sabem exatamente o que é arte. Eles chegam até o local onde reluz minha “estaca de domingo”. Um olha para o outro, sentindo-se desafiados por aquela obra. “Deve haver um sentido nisso”, pensam. As formas não seguem um padrão, não parecem confluir para algum lugar específico. “Mas deve haver algum sentido nisso”. Sentam-se no banco, e repousam confortáveis do cansaço.

O segundo grupo está em um passeio comum. Seus membros costumam visitar exposições. Ao se depararem com a “estaca de domingo”, deliciam-se. Discutem acalarodamente sobre o conceito da obra. Comentam sobre as formas impressionantes, as cores. Até percebem que a obra foi posta pensadamente em relação à luz. É magnífica. É cheia de significado. É… é… é O QUE ELES PENSAM QUE É.

O que revela a “estaca de domingo”? Aponta uma nova via estética para as artes plásticas? Demonstra a forma do pensamento contemporâneo? É uma representação da condição humana? Qual a essência que a torna mais admirada do que um trabalho de marceneiro como o do banco onde descansa o primeiro grupo? É sua originalidade? É sua capacidade de sintetizar as emoções humanas?

O quão desafiante é a obra? Quanto faz com que as pessoas percebam o mundo de maneira diferente, entendendo o outro, entendendo a si mesmos, aumentando seu universo de perspectivas? Quanto de realidade pode ser reavaliada? Quantas emoções, quantas idéias a “estaca de domingo” provoca?

O banco onde repousa o primeiro grupo pode fazer a mesma coisa? A “estaca de domingo” é só para quem sabe FALAR sobre arte? O que significa “FALAR” sobre arte? Quem define o que é a obra, seu autor, os críticos ou os visitantes da exposição? A obra deve ser de algum modo funcional ou deve apenas existir?

Finalmente, existe alguma maneira de moldar a “estaca de domingo” de forma que ela possa atingir um maior número de pessoas? Alguém acha válido fazê-lo?

Eu acho.

Categories: Arte, Crítica
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