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Ser massa

Os cobradores e motoristas fizeram greve. A tarifa do ônibus aumentou. Os estudantes protestaram. Inocentes foram presos.

Na terça-feira, três estudantes foram presos durante a manifestação na frente do Terminal do Centro. Uma delas, aluna de Psicologia da terceira fase. Na quinta-feira, num segundo ato de protesto, 22 estudantes foram presos depois de terem sido atacados, a exemplo da terça, com balas de borracha e gás de efeito moral.

Não vou dizer ingenuamente que o movimento estudantil tenha sido todo feito pacificamente. Eu não estava lá para afirmar isso. O que sei por certo é que estudantes foram feridos e presos, e não houve divulgação de nenhum policial ferido. Dos 22 estudantes presos, 6 eram menores e foram liberados. Os outros 16 foram trancados em uma delegacia da polícia civil.

Uma das garotas presas é minha amiga, estudante da primeira fase de Psicologia e ex-namorada de um amigão meu, que mora comigo. Ele ligou em casa explicando a situação e pedindo que fôssemos para a frente da delegacia, exigir a liberação da garota e dos seus 15 colegas.

Eu conheço a garota, não os outros 15, e posso dizer que ela é o tipo de pessoa que não faria mal a uma mosca. Estava sendo autuada por formação de quadrilha e utilização de violência, que pode ser traduzido assim: estava protestando pelo aumento absurdo da passagem de ônibus.

Havia poucos estudantes no centro e eu, iniciante em movimentos de rua, calei-me e garanti minha participação apenas com a minha presença. Estar lá no meio do povo protestando o transforma imediatamente em massa de manobra das pessoas que falam. Os que falam são de dois tipos: os que têm informação e os que gostam de falar merda. O problema é que eles não são facilmente classificados e, por falta de informação, você acaba seguindo as indicações dadas. Você se torna um peão.

Decidi continuar lá, mesmo sabendo do pequeno papel que exercia dentro da massa, por causa do papel maior que havia para além da massa. Exigíamos, afinal, a libertação de 16 pessoas que poderiam ser nós mesmos caso estivéssemos no lugar errado na hora errada. E mais, 16 estudantes que exerciam direito constitucional.

Depara-se com muita putaria e muita beleza em movimentos como esse. A beleza está na ação das pessoas preocupadas, na união imediata e empatia que todos tiveram com os chorosos pais das 16 vítimas e na vontade de mostrar que a voz estudantil pode estar rouca, mas ainda pode ser ouvida. A putaria fica por conta de aproveitadores políticos, que utilizam movimentos como esse para realizar propaganda partidária, e de agitadores que pouco se preocupavam com a situação de fato.

A OAB se prontificou a falar com o juiz responsável pelo caso, na tentativa de pressioná-lo a emitir a inocência dos estudantes. Depois de horas de negociação, e TALVEZ em parte pelo movimento pacífico que fizemos em frente à delegacia, o juiz emitiu uma tal de “carta de relaxamento”, a partir da qual os estudantes poderiam ser libertados mediante o pagamento da fiança de R$1500,00 cada. Claro que os advogados estavam tentando recorrer, mas o final da novela não pôde ser visto, pois os estudantes foram transportados da prisão temporária para outro local, possivelmente o fórum ou alguma dependência “sossegada” do presídio no Estreito.

Algumas pessoas tiveram permissão para falar com os estudantes e voltaram noticiando que estavam todos sendo tratados bem, mas com muito medo de irem para o presídio. Segundo o relato, as 4 garotas presas estavam chorando demais, inconformadas com a prisão injusta a qual foram submetidas. Os 16 pediam também que não entrássemos, sob nenhuma condição, em confronto direto com a polícia. Estavam tranqüilos com a idéia de serem transferidos para o presídio. Do lado de fora, nós nos lamentávamos por termos que testemunhar essa falta de respeito aos direitos do cidadão.

Eu não sou a melhor pessoa para falar de política, nem tampouco represento bem o movimento estudantil, pois nada faço para ajudar seu progresso, atrevo-me a dizer, de qualquer modo, que o protesto é ainda uma arma importante do povo na defesa dos seus ideais e que o ato repressivo acionado pelo governo foi anti-constitucional e anti-ético. É triste ver tão pouca participação e é triste saber que mesmo eu provavelmente vou ficar ausente de futuras aglomerações. Estou ausente agora mesmo, pois enquanto escrevo, meus colegas estão no centro exigindo que as tarifas dos ônibus voltem ao preço anterior, que já era injusto.

Os protestos, ainda que importantes, não têm a força que tinham. O governo conseguiu calar o povo. Eu sou povo calado. Minha garganta, porém, está pegando fogo. Não quero me aliviar gritando nas ruas, quero ajudar de outro modo. Tenho vergonha de não ter começado.

Categories: Crítica, Crônica, Diarices
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