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Falta

Minha semana foi insensatamente produtiva. Não se deve produzir tanto em uma semana, não é saudável. Há a possibilidade hedionda de você pensar que pode repetir o feito em todas as posteriores semanas da sua vida. Não é tão simples. Saudável é ser humilde, não mostrar aos outros a capacidade total. Cara de sonso, garras de águia. Surpreender é melhor que criar expectativas. Não é vagabundagem ou malandragem, é manter a felicidade. Na hora certa: gol de bicicleta.

——– xx ———

Entendi de uma vez que vou me formar em poucos meses. Fui abatido pela necessidade de saber tudo quanto posso saber do que quero fazer. Bacana descobrir que já sei mais do que pensei que sabia, isto me guiou direto ao aprofundamento de alguns tópicos. Simultaneamente, preparei terreno para outras realizações acadêmicas. A academia é minha vida, sei bem disso. E me assusto, pois a academia é nojenta. Começo a detestar palavras. Especialmente as que significam o que não se é capaz de entender.

——– xx ———

Tentei ler Borges, “O Aleph”. Vários contos, e só fui capaz de digerir um ou dois. Borges tem a incrível capacidade de escrever idéias opostas às minhas, ou complementares. Já havia discordado de “Funes, o memorioso”, o que me induziu a planejar um conto chamado “O outro Funes”, que nunca sairá. Agora discordo também do “Imortal” e tenho vontade de escrever “O outro Imortal”.

——– xx ———

Muitas vezes tentei idealizar, sem método formal, uma linguagem capaz de traduzir a realidade como ela é: simultânea. Imaginei palavras densas, que significassem situações inteiras, ou então palavras flexíveis às quais se pudesse acrescentar prefixos e sufixos à vontade. Meu desconhecimento de línguas não me permite saber se existe algo parecido.

——– xx ———

Estou terrivelmente cansado. Talvez por estar doente, talvez por ter corrido demais nesta semana. Preciso de forças para jogar um campeonato de futebol daqui a duas horas, para jogar futebol amanhã de manhã e ir a um churrasco amanhã à tarde. Preciso de forças para ir embora da ilha.

——– xx ———

E Chico César, que cantou “Esta”:

“Nenhuma mulher me basta
Mesmo que se meta a besta
Mesmo que se finja casta
Venha rindo numa cesta
Hare-krishna, puta ou rasta
Dê-me prazer, reza, êxtase
Chegue quando o mal se afasta
Nenhuma mulher me basta
A não ser esta, assim é esta
A não ser esta, assim é esta

Que traga ouro na testa
Dê forma à disforme pasta
Seja a única que resta
De matéria que não gasta
Tenha gestos sem arestas
Arre na festa nefasta
Trigo pro pão, luz na fresta
Nenhuma mulher me basta
A não ser esta, assim é esta
A não ser esta, assim é esta

Fedra, Medéia, Jocasta
A cachorra da moléstia
Peste que me arrasta
Cura pra minha imosdéstia
Couro de anja, pele de ginasta
Pôr-do-sol que resta
Sou sozinho, a vida é vasta
A não ser esta, assim é esta
A não ser esta, assim é esta”

Categories: Geral
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