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O pássaro (azarado?)

Ontem, enquanto assistia o depressivo e ansiogênico “Jornal Nacional”, lembrei de algo que vi há algum tempo. O que ativou minhas recordações foi a notícia de que o Chorão atropelou três ciclistas. Eu ando de bicicleta. Lembrei do pássaro (azarado?).

O pássaro foi executado na frente de milhares de expectadores durante um jogo de beisebol. Eu vi as imagens no programa Late Show with David Letterman, na época em que eu tinha isso de TV a cabo. Um dos mais conhecidos arremessadores americanos, conhecido por seu tiro potente, lançou a bola a uma velocidade incrível, com o intuito único de causar um strike no seu patético adversário… É aí que entra o pássaro, que fez o último rasante da sua vida. Ele (azarado?) conseguiu a proeza de ser acertado pela bola. O que a câmera mostra são penas voando para todos os lados. Imagino que o pássaro tenha se reduzido a uma pasta dismorfe. Azarado?

Ele devia ser um mau pássaro e Deus o puniu com uma morte estúpida, a mais acidental possível. Talvez ele já tivesse cumprido sua missão na Terra e era hora de se tornar puro espírito. De repente ele foi apenas um sinal para o arremessador parrudo abrir o coração. Ou então, o que é muito mais provável, ele participou de uma conjunção imutável de fatos que não foi a melhor para a vida dele. Se o pai do arremessador não o tivesse estimulado a praticar beisebol, o pássaro estaria vivo; nada aconteceria se o pássaro não tivesse percebido aquela comida no chão do estádio… Muitos outros fatores contribuíram para aquele momento; poderia enumerá-los à exaustão.

Se o pássaro tivesse sobrevivido, ele deixaria de voar baixo? Se ele tivesse visto um amigo dele sendo desmantelado por uma bola em alta velocidade, ele deixaria de voar baixo? Claro que não! Um pássaro está aí para voar, alto ou baixo. Tudo que ele pensaria (pensaria?) seria: “pois é… que foda, né? quase perdi uma asa, mas dá nada… amanhã voarei novamente”.

É por isso que vou andar de bicicleta todos os dias em que tiver vontade. Não há Deus nenhum mirando minha cabeça. O que acontece está além de qualquer poder. Claro que eu posso mudar algumas probabilidades, mas isso não ajuda muito. O pássaro morreu em uma conjunção de fatores mais improvável do que acertar sozinho a Mega Sena. Eu ando de bicicleta, sim, com a consciência totalmente clara de que tudo pode acontecer. Não é paranóia, não. Não se trata de pedalar com medo, ou com desconfiança. Pedalo à vontade em direção a qualquer fato.

Não há momento errado em hora errada. E azar é um nome que se dá a uma relação desfavorável com a sequência imutável dos fatos.

Categories: Crônica
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