Home > Prosa > Passional?

Passional?

Pedro matou Joana. Não sabe dizer por quê. Chegou em casa de um dia cansativo no trabalho. Tinha o problema típico dos que não gostam do emprego e o enfrentam maquinalmente: mais inconsciência do que pensamento. Joana estava sentada lendo algum daqueles livros que Pedro não compreendia. Depois de matá-la ele abriu o livro. Estava escrito algo que ele não terminou.

Cumprimentou-a com um beijo no pescoço. Passou a mão por seus braços. Ela ficou arrepiada, do jeito que ele gostava. Ele estava mentindo. Ela o envolveu como pôde. Beijaram-se. Levou-a para o quarto. Tomaram um banho. Fizeram sexo. A liberdade de todo o cansaço era gozar. Ele usava o dorpo dela.

Fechado em si mesmo, Joana dormindo, foi remoído pela lembrança do dia posterior. Conhecia sua vida até o fim do ano, sabia exatamente o que ia acontecer. Amanhã seu chefe argumentou que o trabalho de Pedro não está rendendo, e ele contra-argumentou que o chefe tem mais é que ir para a puta que o pariu. O chefe ficou paralisado, pensou em demitir Pedro, mas lembrou das fotos. Pedro riu da cara dele e foi trabalhar, como previa o acordo de chantagem. No dia depois de amanhã, o mesmo aconteceu.

Joana sonhava com Pedro. Ele a amava e beijava sua barriga. Dizia que estava muito vazia. Dizia que estava na hora do Pedrinho aparecer. Ela o abraçava, ela o adorava, ela o pegava quase com violência e o deixava entrar para nascer Pedrinho.

Pedro ouvia Joana arfando. Será que sonhava com outro? Ela se contorcia de maneiras que ele nunca vira. Deve estar sonhando com outro. Sonhando com o outro. Isso não aconteceu amanhã. Não aconteceu ontem, consertou. Joana começou a gemer, a se mover mais, a agarrar o travesseiro. Ele a tocou, tremendo. Ela acordou em êxtase, grudou nele: “Me dá um filho!”

Você estava sonhando comigo?
Que você me fazia um filho.
Eu não posso.
Você pode, você pode.
Eu tenho fotos comigo. De você.
Do que está falando?
Eu sou podre como você.

Pedro matou Joana. Não sabe dizer por quê. No dia seguinte mandou o chefe para a puta que o pariu. Mandou uma foto para a esposa dele, uma para os diretores da empresa, uma para a polícia. Entregou-se. Não sabe dizer por que não foi preso. Disseram algo sobre passional. Ele não entendia dessas coisas. Queimou os livros dela.

Categories: Prosa
  1. No comments yet.
  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: