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Algumas palavras sobre envelhecer

Eu sou um paradoxo. Eu tenho medo de envelhecer, mas não me cuido nem um pouco para amenizar o futuro golpe. Porque talvez o futuro golpe do envelhecimento não ocorra, e eu tenho ainda uma fagulha “carpe-dien-ana” que me faz querer mandar tudo à merda e me divertir até cair.

Caso chegue, o envelhecimento vai chegar intenso para mim. Sem pressa, do jeito que ele vem mesmo, só que mais pesado e sem nenhuma possibilidade de adiamento. Creio que aos 50 anos eu vou estar na pior. Se eu não morrer vítima de um escorregão na escada, viverei muito anos. Cada vez com o corpo mais fraco, o que é altamente horripilante.

É do corpo que eu tenho medo. É meu corpo que tem probabilidade de definhar, minha mente não. Claro que corpo e mente são a mesma coisa. Claro também que o físico Hawking continua muito inteligente, apesar de ter um corpo não muito útil. Então,estando minha mente salvaguardada por leituras e questões irrespondíveis, falta guardar o corpo. Coisa que confessadamente não farei com muito afinco.

Não é que eu abuse. Eu não uso drogas pesadas (atualmente muito pouco álcool, apenas), nem fico dias sem comer (pelo contrário), nem sou um sedentário completo (pratico meu futebolzinho, caminho bastante, de vez em quando pedalo bastante). O problema é a comida. Eu não fico sem comer, mas só como porcaria. E comida é tudo, minha gente. Se você só come porcaria, você é uma porcaria. Seu organismo é obrigado a se desdobrar para manter a homeostase. Você se transforma em um festival de substâncias grotescas corroentes e corroídas.

Eu tenho um defeito: eu não engordo. Isso é uma qualidade para alguns, mas para o meu estilo de vida é um defeito. Não engordando, vou achando que está tudo bem entupir as artérias com gordura. Meu avô morreu por questões dessa natureza, meu pai não é um exemplo de saúde coronária, e eu sou semi-careca (e está provado que carecas têm mais problemas de doença do coração). Como, como porcaria e meu corpo continua exteriormente como sempre foi. Se eu engordasse, saberia que eu estou exagerando.

O problema é que mesmo não engordando eu sei que estou exagerando. Pergunta se eu vou parar. Não vou. Venha a mim toda a comida gostosa. Comer é um prazer fabuloso e eu não vou trocar este prazer por um futuro que nem sei se vai existir. Irresponsável? Na sua opinião, talvez. Na minha, esperto. Você é cuidadoso? Concordo, mas será que se diverte tanto?

Eu tenho outras maneiras de cuidar do meu corpo. Eu não tomo remédios. Isso sim é manter a saúde. A última vez que tomei remédio foi no início do ano passado. Antibiótico por causa de procedimentos dentários. E mesmo os antibióticos eu larguei antes do tempo; não me sentia bem os ingerindo. Irresponsável? Na sua opinião. Deixe eu contar um pouco sobre os mecanismos de defesa do meu organismo.

Há muito tempo atrás, mais de cinco anos, eu fiz um curso de Psico-Oncologia. O ministrante do curso não era um profissional respeitável; ainda assim, falou algo que ficou para sempre na minha cabeça. Um dos exercícios que o psicólogo devia incentivar os doentes a fazer era o de imaginar que a doença eram pequenos seres combatidos ferozmente por outros seres, nossos mecanismos de defesa. É sabido que a redução do estresse ajuda no combate às doenças. É provável que a elevação “da alegria e da esperança” do organismo cause efeitos benéficos. Sempre que estou doente imagino essas lutas de pequenos seres. Eu sempre venço.

Eu estou com gripe desde terça-feira. Sei que é gripe porque os resfriados passam por mim em um dia e vão embora no outro. A gripe não me debilita. Gripado, continuei saindo à noite, de dia, jogando futebol e o que mais vier, eu topo. Hoje estou muito bem, apesar de ter corrido atrás da bola de manhã. Não foi meu melhor desempenho, mas foi um desempenho padrão. Amanhã estarei melhor e assim a cada dia, sem remédio, sem preocupação, sem me privar do que quero fazer. Uma beleza de organismo, devo dizer. Já me curei de uma possível intoxicação alimentar sem ajuda. Foi depois de comer uma torta de limão (até hoje não posso ver esse troço). Se foi intoxicalção alimentar mesmo eu não sei. O que sei é que foi tudo bem feio, mas fiquei curado em dois dias. Uma verdadeira beleza de organismo, repito.

Tenho medo que isso acabe. O envelhecimento faz isso por você. Sinto, já, minha visão piorando. Culpa minha, que leio demais e forço meus músculos oculares a serem grandes campeões. Eles estão perdendo a força. Eu posso sentir. Meu joelho esquerdo também não é mais o mesmo, ele dá sinais de vida bem estranhos de vez em quando. Nenhum problema que me impeça de fazer o que quero, mas já demonstrações de um futuro corporal nada promissor.

Eu combato meus temores da velhice focando no sucesso da minha mente. No fim, essas preocupações são irremediavalmente irrelevantes. Eu sempre tive medo da próxima fase da minha vida, e até hoje tenho me adaptado com um sucesso razoável. Se não me adaptei a algo foi por que não quis. Não quero mesmo me adaptar a tudo, senão deixo de ser quem sou. Nem tudo é válido nessas novas fases da vida, isto é verdade.

Se a velhice vier, eu vou vencer. Mas tenho medo mesmo assim. Vencerei, mas primeiro vou me agachar assustado. Sempre achei mais bacana se superar do que lidar com tudo facilmente. A nota 10 na prova é mais gostosa depois de muito estudo. Ganhar a nota máxima sem se esforçar faz desconfiar do professor.

Ouçam “O Velho Francisco”, música de Chico Buarque. Fala sobre envelhecimentoi. “Já gozei de boa vida”…”Vida veio e me levou”.

Categories: Crônica, Diarices
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