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Ao sobrevivente, as palavras

Acordo olhos cansados de um pesadelo e descubro que estou cercado por pensamentos lutando uns contra os outros. Estou desolado com a visão de pedaços de palavras quebradas. A cada nova palavra destruída eu sinto uma aflição aguda e um esquecimento. Ficando tolo, perdendo…

Os pensamentos lutam e meu corpo é o palco, o alvo, o motivo e o objetivo da guerra. O “caminho do meio” faz frente ao “carpe diem” mal compreendido. O primeiro empunha as palavras de Buda e o “carpe diem” de hoje corre perdido sem a voz do seu sentido original. Uma cena triste, à qual se juntam a auto-flagelação e a culpa. Estou calando…

Os pensamentos, sem perceber, estão arrancando da minha mente a percepção da realidade – da realidade separada da minha mente – da realidade criada pela minha mente – da minha mente irrealizada na minha mente. Sem tempo, sem pessoa. Não entendo o porquê da guerra até que ouço o grito: “ao sobrevivente, as palavras”. Estou caindo…

Então é isso… as idéias querem minha voz, minhas mãos segurando canetas. Querem expressão, mas estão me destruindo e destruindo a possibilidade de se juntarem coerentemente. Estou distorcendo…

Bem e mal. Forte e fraco. Ridículo. Destrutivo. Mais feios são os graus tentando desfazer os “opostos” por meio de xingamentos. Todas são idéias egocêntricas, inclusive as que falam de paz… Todas são idéias acumuladas durante anos, lutando pela dominação da minha mente. Cada uma delas tenta me convencer da sua superioridade, mostrar-me o correto, o melhor. O problema é que estou consciente. Estou desentendendo…

A luta se reflete na minha cabeça sendo alucinada, doendo muito enquanto tento compreender o que acontece. Eu me ajoelho abismado, eu me levanto dolorido. Nada faz sentido, foi-se a coerência para-aonde-não-sei. O mundo fica turvo, eu me confundo com o chão que piso, com o homem que pisa em cima da minha superfície branca e gelada, com o corpo que me respira e me devolve diferente… Geléia, gelatina, caído em nuvens. Cabeça, cabeça, caçada, cachaça, calado, descascado, des des des. Ajudem…

— Ajudem!

Um pensamento corajoso salta da trincheira direita e vem falar comigo, ao meu socorro. Sussurra algo ao meu ouvido; o que? Depois me chama de General e se desespera:

— General, o Sr. precisa acabar com esta guerra! Não vê? Está perdendo muitos pensamentos… Isso não pode ser bom — e vai embora alarmado de volta para a trincheira direita. Sussurrou algo no meu ouvido…

São minhas crenças e decisões que estão sendo disputadas, e talvez nada sobreviva, e então serei um corpo sentado em uma de muitas cadeiras. Calado em uma posição de uma fila grande, olhando para uma porta que não sei a que leva. Chão não, gelatina não, pessoa, ato de vontade! Pessoa. Acudo…

Respiro fundo e encaro, em dor, o caos formado. Os pensamentos se tornaram mutantes, amálgamas deficientes e incoerentes, efeitos colaterais da guerra que agora entendo ser corriqueira nos cantos adormecidos do cérebro. O problema é que estou consciente, estou vendo a guerra diária que se esconde onde a luz tem medo…

Ato de vontade, eu grito o sussurro que a idéia da trincheira direita soprou:

— A razão é vazia, o que importa é o prazer que acompanha a idéia.

De alguma forma me entendem… O silêncio e a paz se estabelecem. Ao menos até o próximo aprendizado…

Fecho olhos cansados e volto para o sonho antes do pesadelo. A guerra não acabou, ganhou um pensamento, um esperto pensamento que se aliou ao sentimento. Eu durmo empurrando a guerra para a escuridão.

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