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O muro dos afogados

Um dia eu vi o muro dos afogados. Era um lance deprimente. As pessoas ficavam se debatendo sem parar e, no fim, tudo que conquistavam era um afogamento cinematográfico. Era possível ouvir as pessoas dizerem que a vida é dura. É que é mesmo dura, saca?

Quero dizer, você vai vivendo esta vida como um vivo vivente qualquer, e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro. Você vai batendo em tudo que está ao seu redor, e lá se vai um osso e outro e outro, e o crânio. Pô, o crânio é sacanagem! Mas bate, bate! Daí sua pele sai, vai dar uma volta pelo asfalto e se encosta em um muro de afogados qualquer. Como já não há mais pele, começa a dor diretamente na alma, que vai sendo dilacerada aos poucos, bem aos poucos. Sobra o que, caramba? Sobra o que? A impressão que dá é que a vida fez de propósito, como não ficar enfurecido com ela? Parece o ocaso, o fim mesmo, e então algo acontece!

Não se sabe de onde, nem por quê, mas algo acontece. Remendam sua alma de alguma maneira, com fita crepe mesmo, só para perseverar, entende? Ela não fica assim uma maravilha, mas, ei, é a sua alma e você nem pode pensar em se sentir frustrado. A pele volta ao seu corpo, liberta-se do muro dos afogados e corre. Parece até uma silhueta sua. Vem, coloca-se direitinho em sua posição original. Você até percebe que falta um pedacinho bem na sola do pé e que a cada passo vai sentir dor, só que está feliz mesmo assim, afinal, sua pele voltou. Pegam com uma pá seu cérebro e vão colocando dentro da sua cabeça. Ih, esquecem ali um ou outro neurônio sem importância, e aquela lembrança acaba se modificando… mas pode até ser para melhor, não há motivos para reclamar. Enfim, os ossos. Um a um são consertados com farinha e água. Está pronto. Quer dizer…

Você levanta ainda meio tonto, olha ao redor e vê que todos os seus queridos estão muito felizes com seu retorno. São eles que dão o toque final nessa operação de reconstrução. Passam uns pós em você, amarram seu cadarço e penteiam seu cabelo. Como novo! Você fica como novo, é maravilhoso. O acidente nunca é esquecido, claro, mas a felicidade de respirar novamente o ar humano é deliciosa! Aí algum amigo seu na melhor das intenções diz: “Agora você está pronto para outra”. Puxa, precisava ser tão otimista? Precisava lembrar da possibilidade de outro acidente? Ainda bem que você é forte e esquece essa idéia, consegue viver plenamente de novo.

Então você compra um carro novo, todo bonitão, depois de uma economia de anos. Coloca nele os apetrechos mais bacanas, cuida dele com amor e dedicação inatacáveis. Passeia com ele por todos os lugares; curte mesmo. Ganha confiança e começa a andar cada vez mais rápido, o prazer dominando em cada curva, em cada freada e aceleração. A vida é a mil por hora, afinal! Você se sente completo, inteiro, a pessoa mais especial de todos os tempos. E vai com seu carro cada vez mais rápido. É tudo realmente perfeito e mesmo assim a vida coloca alguma coisa na frente do caminho. Algo inesperado, inevitável, que não é em absoluto de sua responsabilidade. Você está feliz e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro…

Eis a vida. Você cai e levanta sem parar. Não adianta querer que a coisa aconteça de outro modo.

Do que o texto tratava mesmo? Ah, claro, do muro, do muro. É que muro dos afogados é um lance meio estranho, certo? Se você parar para pensar direitinho, por que diabos acha que existiria um muro dos afogados? Não tem sentido, não. Era isso o que eu tinha a dizer: muro dos afogados não faz sentido. Por isso pare de se debater e ande para frente, criatura preguiçosa.

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