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Os poucos dias que governam todos

Eu me considero uma pessoa de sorte quando lembro de tudo que já experimentei na vida. Vocês não fazem idéia de como é bom ser o Robson Brino Faggiani. Se eu pudesse, eu deixaria vocês serem eu por algum tempo para ver a maravilha que é meu mundo anímico e o quanto admiro as pessoas. A vida é muito confusa para mim, eu sou um cético que acredita em apenas uma ou duas afirmações, o que faz das coisas todas um caos absoluto. E mesmo assim é uma vida que vejo tão bela, tão cheia de mistérios empolgantes e deliciosas conquistas inúteis. Inexplicável… vocês teriam que ser eu para entender.

Engana-se quem pensa que todos os momentos são maravilhosos ou que a vida toda tive o que quis. Não, eu penei, como todos vocês. E sofri, e sofro, como todos vocês. Quando estou lá embaixo, na mais sinistra solidão, na escuridão pegajosa, eu não penso “anime-se, pois há quem sofre mais do que você”… Da mesma forma, quando estou feliz a ponto de explodir em mil sóis, eu tenho a certeza de que sou a pessoa mais feliz do mundo! O sofrimento e a felicidade só falam a quem os sente, e comparar os seus com os sentimentos de outras pessoas é chamar a si mesmo de menos que humano. Não, eu sou humano e o meu sofrimento e minha felicidade é o mesmo que os de todas as pessoas.

Se vocês fossem eu, saberiam como é maravilhoso ter milhões de amigos com os quais se divide a vida. Sempre achei fácil fazer amigos e nunca entendi a afirmação de que verdadeiros amigos são raros. Os meus são vários, não são raros, e ainda assim considero cada um deles como a pessoa mais maravilhosa do mundo. Vocês sabem quem são, meus queridos e queridas. Vocês sabem quanto construíram da minha vida e quanto serão importantes para mim até o último suspiro. Amigo eu não empresto nem troco, mas divido, sim.

Há dias em que me sinto um animal, todo sensação e emoção, pronto para expulsar o rei e elevar a pedra. Nesses dias questiono todos esses conteúdos tolos que somos obrigados a saber, todas as verdades e afirmações que me contaram. A vida como ela é hoje, com as leis de hoje e as manias de hoje, e os certos e errados de hoje, são apenas uma versão do todo. Não é minha versão preferida, devo dizer. Eu reverteria tudo, se pudesse. Faria as coisas da forma como sinto quando sou simplesmente animal. Destruiria os pressupostos mais básicos que formam as culturas e nações. Seríamos finalmente iguais.

Em outros dias, sinto-me uma máquina, todo raciocínio e lógica. Então aceito os conteúdos como um mal necessário para a existência em grupo. Percebo o quão necessárias são as leis e os caminhos valorizados de vida. Apesar de não recriminar meu animal, conto a ele que ele deve permanecer na universidade, tornar-se mestre, doutor e dar aulas e posteriormente escrever livros. Ele reclama, claro, mas entende que a vida é mais complexa do que desejos.

Na maioria dos dias eu sou um misto perfeito dessas duas forças, a máquina e o animal. Confesso que o animal pulsa mais forte, e que o controle da máquina sobre ele é um engodo para tranqüilizar o mundo. No fim, ambos buscam o êxtase, ambos se confundem com as possibilidades infinitas de ser humano, e se confundem e mesclam nessas possibilidades. É por isso que sou infinito em potencial.

O êxtase se resume a algumas poucas experiências de prazer e dor tão intensas que tentamos repeti-las e evitá-las a todo custo. A delícia é que essas experiências estrondosas não estão limitadas pelo tempo e acontecem de repente e em qualquer momento da vida. A vida verdadeira é o tempo que passamos tentando alcançar o êxtase novamente. É nesse tempo que aprendemos, que crescemos e entendemos o quão raros e importantes são os dias de êxtase. São os poucos dias que governam todos!

Ah, as mulheres que já amei… São poucas, pois meu amor é exigente e não se dá a todas, mas quanto brilho irradiavam, quanta beleza transmitiam, quanto bem me faziam as mulheres que amei! Elas me ensinaram muita coisa e eu retribuí com todo o amor que pude, e as ensinei tanto quanto pude, e fomos felizes enquanto nos foi permitido estar juntos! Maravilhoso e maravilhosas! Ainda as amo, todas elas, nunca tive motivo para não amá-las.

Tudo isso, toda essa vida… Se vocês fossem eu entenderiam. Eu gostaria de entendê-los. Se eu pudesse, também seria cada um de vocês por algum tempo. Tenho certeza de que confirmaria o que acredito: somos iguais.

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