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O monge e a água

Há algum tempo atrás vi o filme “Samsara”, mas só agora decidi falar alguma coisa sobre ele… O filme é excelente, minha expectativa é que era imensa. Vamos aos comentários, mas sem muita seriedade, que de seriedade o inferno está cheio. Entre parêntesis comentários sobre o budismo (até onde eu sei). Leiam até o fim, seus preguiçosos, que a charada da água é excelente.

(os comentários falam do filme inteiro… então, quem quer assistir, pare agora)

O filme conta a história de um monge recém saído de alguns anos isolados de meditação. Após recobrar plenamente a consciência, suas noites são assaltadas por sonhos eróticos, que terminam por abalar sua convicção. Seus superiores percebem o momento de dúvida do jovem e o levam em uma viagem contemplativa. Isso só atrapalha, pois na viagem o monge conhece uma lindíssima jovem, por quem se apaixona imediatamente. Decide abandonar o caminho do nirvana e viver no samsara com o argumento irrepreensível de que precisa conhecer o mundo antes de deixá-lo.

(Buda diz que ninguém deve acreditar em suas palavras sem antes verificar se elas são adequadas e verdadeiras. Por isso sugere que as pessoas sigam seus próprios caminhos, deixando claro que o caminho que ele indica é perfeito, sobretudo e talvez exclusivamente, para ele mesmo. Paralelo: no livro Sidarta, Hermann Hesse explícita isso ao fazer com que seu personagem principal escolha outra senda que não a do Buda).

O monge se casa com a indiana, vira comerciante, faz filho, chifra a mulher, aquela coisarada toda que monges não fazem. Sério. Eu fiquei um pouco chocado com a traição e acabei entendendo a boa jogada do roteirista. É preciso comentar que as duas únicas cenas de sexo do filme são tão boas que qualquer um largaria o hábito para fazer aquilo! Haja amor e criatividade, viu? Muito show.

Depois de um tempo vivendo a vida no samsara e passando por suas dificuldades, o monge percebe que aquele caminho não é mesmo para ele. Da mesma forma que veio, vai-se embora de volta para o mosteiro retomar o a senda em direção ao nirvana. No meio do caminho, sua mulher o interrompe e lhe dá uma bela de uma bronca, comparando-se a esposa do Buda, também abandonada com o filho. Diz que o budismo é machista e que se fosse ela a largar o filho, todos iriam contra ela.

(Esta parte é realmente excelente. Informando-me melhor, descobri que a história não é bem essa e que tanto o filho quanto a mulher do Buda se tornaram monges e praticantes do budismo. Além do mais, é fato que há muitas monjas budistas mundo afora e tanto é verdade que quando eu estava na segunda fase eu vi uma delas, que deu uma palestra na UFSC. De qualquer maneira, a representatividade que tem o abandono da família em favor do caminho da iluminação é imensa, mostrando o quanto o desapego é importante para a conquista do nirvana. E não é falta de amor, como pode parecer, é simplesmente uma relação diferente com os fatos do mundo).

A essa altura, vocês devem estar se perguntando de onde vem a água do título. Justíssimo. Será respondido. A água entra em dois momentos do filme. Primeiro, entra como representação da mudança de caminho do monge. Quando ele abandona o mosteiro para entrar no samsara, ele se lava em um rio. Ao voltar para o mosteiro, ele se lava no mesmo rio, purificando-se assim da sua vida anterior.

O segundo momento. No começo do filme há a seguinte charada: “COMO SE IMPEDE QUE UMA GOTA DE ÁGUA JAMAIS SEQUE?”. A excelente resposta é dada no fim do filme: “ATIRANDO-A AO MAR”.

(Em um grupo de discussão sobre o filme, encontrei uma análise maravilhosa dessa charada. A água no oceano significa a vida longe da individualidade, do eu, uma das mais difíceis barreiras enfrentadas pelos budistas. Uma gota de água no oceano, por outro lado, não discrimina, está em tudo e é parte de tudo, sem individualidade ou preferências. Excelente metáfora para o nirvana, uma das melhores e mais compreensível que já vi).

O filme é bacana mesmo. Provavelmente há muitas outras referências e comentários budistas que não entendi por ser pouco meu conhecimento. Não me importo com isso, porém, pois como aqui disse uma vez, meu budismo é melhor do que o budismo dos outros.

Categories: Cinema
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