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Para ler e comentar

Minha narrativa ainda está cheia de clichês e baboseiras. Produzi estes parágrafos para brincar um pouco de escrever. Fiz questão de usar a palavra “presidente” em todos os textos (só por usar, nenhum motivo especial).

Amor matrimonial
Aline, com mãos diligentes e silenciosas, arruma a peruca do esposo todas as manhãs. Sorri feliz com as piadas matinais do seu homem adorado. Espera sentada enquanto ele serve o café assoviando a música tocada no casamento. Ele bebe uma dose de conhaque presidente, depois ambos tomam o café e comem o pão sem tirar os olhos um do outro. Os vizinhos morrem de inveja daquele amor à prova de tudo. Sem pestanejar, o marido de Aline recolhe a louça da esposa e a convida para a cama. Antes de o esposo sair para trabalhar, Aline o ama algumas vezes e depois retorna a ajeitar sua peruca. “O amor no casamento é raro”, comenta uma fofoqueira vizinha para a outra; “é, e já vão fazer cinco anos de casado” responde a invejosa enquanto tira a mancha da camisa do marido.

Morreu sozinha
Leonardo tinha ridícula paixão por Andréa, e esta tinha uma repulsão ridícula pelo pretendente. Toda noite de sábado, estrelada ou chuvosa, Leonardo ia até o orelhão da praça para ligar para a garota. Apesar da repulsão, Andréa se divertia com as divagações, promessas de amor eterno e soluços do rapaz do outro lado da linha. Achava-o um tolo por causa da insistência inútil, do caminhar de passos curtos, olhos baixos e corpo curvado. Leonardo era apaixonado por Andréa por causa do sorriso altivo da garota e sua maneira de prender os cabelos quando o balançava contra o sol. Os telefonemas foram o grande momento da vida dele por dois anos, depois dos quais desistiu da paixão, mais por causa do novo corte de cabelo de Andréa do que pela sua recusa semanal. Na primeira noite que Leonardo não ligou, Andréa chorou sem saber por quê. Morreu sozinha. Leonardo mudou-se para uma cidade grande e se tornou presidente da república.

Transporte em massa
Quando ele era garoto, sonhava com transporte em massa todas as noites, à exceção dos dias em que ia até a cozinha italiana da sua nona e roubava aquele massão todo que nunca viria a ser macarrão. A cozinha da sua avó era conhecida no estado todo e a massa que servia havia sido provada pelo presidente em pessoa, que sujou a camisa novinha com o delicioso molho e riu acompanhado dos ministros de camisa limpa. No entanto, a massa não tinha melhor uso para o garoto do que o de transporte. O garoto colocava pequenos objetos dentro da massa, enrolava-a em forma de bola e a deixava deslizar pela ladeira. Lá embaixo seu amigo esperava a encomenda com os olhos fixos. Metia a mão no meio da massa e de lá tirava uma bolinha de vidro: estava feito o transporte em massa; na noite não haveria sonhos.

Acima, a família
Nunca entendi o ódio do meu irmão pelo presidente do clube. Olhava-me com igual furor toda vez que eu dizia que o velho era aliado de papai e que ambos fundaram junto a agremiação. Certa vez escorraçou o próprio filho da mesa à faca quando o garoto comentou um almoço ajustado com o desafeto. Na noite seguinte perdoou o filho e este o pai, graças aos céus. Certa vez meu irmão me procurou muito preocupado e vermelho como um tomate para me contar um segredo. Disse que odiava o velho amigo de papai porque ele negara a ele a mão da filha, alegando que “minha filha não vai casar com um frouxo”. Quem casou com a filha do velho fui eu, sem saber desse pedido do meu irmão. Fomos juntos à casa do agora ex-amigo da família para pedir explicações. O velho não soube o que dizer, mas sob ameaça prometeu não colocar mais os pés no clube. Meu irmão subiu à presidência e eu me separei da minha mulher, que me confessou depois que casou comigo para ficar perto do meu irmão. Nunca entendemos o acontecido, mas não tocamos mais no assunto, meu irmão e eu.

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