Home > Diarices, Prosa > Crepúsculo e Descendência

Crepúsculo e Descendência

Estou preso no etéreo, no que existe apenas em fantasia, no que talvez nunca possa ser. Estou navegando na irrealidade do amorfo pensamento sem contexto. Estou preso por idéias que não aceitam palavras como modo de expressão e forçam sua saída mesmo sabendo que não sei como lhes realizar o desejo. Estou em um emaranhado de sentimentos que se enrolam por todo o meu corpo e se extasiam com minha estase; mas eu não! Não, e não conheço saída para esses estados recentes que minha alma tem experimentado enquanto meu corpo se enclausura no minúsculo espaço do meu quarto.

Estou em um redemoinho que faz meus olhos olharem apenas para algumas direções e ignorar as outras perspectivas e eventos a serem vistos. Estou preso no etéreo, com idéias contraditórias a me martelar a face, modelando uma expressão nova e indecifrável. Estou argila para sentimentos impronunciáveis… argila sendo esculpida em não sei quais formas com não sei quais finalidades.

Idéias paradoxais, olhos presos a direções e, contraditoriamente, um pensamento me quer acreditando que minha auto-análise é quase perfeita… Estou sem controle do que acontece, sou uma marionete para qualquer um que queira tirar proveito. Meus pensamentos e sentimentos gritaram independência do meu querer e decidiram que sou boneco à sua disposição.

Estou sentindo tudo mais intensamente, chorando sorrisos a todo momento, pois as lágrimas se recusam a sair e mandam os lábios em seu lugar. Estou o invulnerável vulnerável senhor do momento. Estou com a expressão dura e fria enquanto meus sentimentos dançam mais alucinadamente do que nunca. Estou uma imagem falsa do que está realmente acontecendo.

Estou preso no etéreo, no inefável, na saudade. Estou preso em regras que me levam às aulas, ao laboratório, ao planejamento de pesquisas, aos sorrisos com amigos, às frases engraçadas; ao cotidiano, enfim… Estou assistindo a um filme ao vivo de mim mesmo agindo, e não tenho acesso ao roteiro e à direção; sou um ator frustrado, um alienado às próprias ações, realizando o que me é imposto por dez mil forças e não pela única que me parece minha.

Estou preso no etéreo, em desejos irrealizáveis, em demandas insanáveis, em saudades que não podem ser diminuídas. Estou lutando contra o que eu sei, contra o que o universo coloca ao meu alcance, gritando em ondas inaudíveis que nada do que aí está é capaz de me levar ao gozo, que nada do que estão me apresentando é o que realmente preciso. Estou perdendo a luta, pois o grito da realidade é mais forte e me força ao cotidiano, ao passo após passo do dia-a-dia.

Estou dividido entre a certeza de que tudo está pré-definido pela ordem que não muda e a necessidade de afirmar que ao menos minha consciência está livre da ordem. Estou em discussão comigo ao mesmo tempo em que tenho a certeza de que sou apenas um e que não existe divisão mente/corpo ou de qualquer outra natureza. Estou me apegando a um eu que não acredito existir e cuja representação tenciono destruir.

Estou preso no etéreo, no que não consigo descrever com precisão. Estou extasiado por um milhão de maravilhas inalcançáveis e a mais bela delas canta e dança em uma grande maçã acompanhada pelo som de um desejo; estou saudades desse um milhão de belas obras: partes minhas; estou saudades dos olhos bandeira do Brasil. Estou sonhando com um lar onde tudo que faço é amar, escrever e aprender, longe de toda a cacofonia dos passos dos dias.

Estou cansado, velho, enrugado, incolor, insosso, inodoro e amorfo. Estou ainda em processo de aceitar o que está ocorrendo. Estou certo de que meus pensamentos aprisionantes e sentimentos inexplicáveis estão me conduzindo a um novo humano, que toda essa confusão e experiências contraditórias são partes de um objetivo maior, que meu desvanecimento é necessário para abrir caminho para um humano melhor, mais forte, mais belo, mais eficaz, mais poético e mais preciso do que o que existe hoje. Estou mudando.

Estou no crepúsculo para chegar à descendência. Estou com síndrome de Estocolmo, amando meu carcereiro: eu mesmo; e isso me faz dizer que estou alegre em meio à confusão.

Categories: Diarices, Prosa
  1. No comments yet.
  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: