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A ascensão da decadência

A ASCENSÃO DA DECADÊNCIA – PARTE 1

Em uma sexta-feira muito bacana fui comer pizza com um pessoal muito bacana e tive uma visão triste. A metáfora da Angelina Jolie caiu novamente sobre mim com força e não pude deixar de fazer algumas reflexões. Repito a metáfora para quem não a conhece: o homem que cresce entre desdentadas não experimenta um orgasmo diferente no sexo do que o homem que convive com várias lindas como a Angelina Jolie. Isso porque o cérebro só detecta a diferença se puder comparar os estímulos; além do mais, essa comparação é de uma relatividade irritante (daquelas que terminam conversa). A palavra chave aqui é “comparação”.

Todo mundo quer mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais. Essa é uma característica positiva dos humanos que foi transformada em doença pelos objetivos impostos. Ainda há buscas nobres e atos ilustres que melhoram a humanidade, mas a grande maioria dos humanos está presa em uma teia de aço de futilidade e ignorância.

É a ascensão da decadência! Hoje em dia não se comemora mais com prazer total o jantar em família em uma pizzaria simples, pois existem as chiques. E existe pressão, de um lugar, de outro, de uma conta, de um chefe, de um filho problemático, de um pai irresponsável, de um cachorro que come o sofá, de um bebê doente, de um carro quebrado. São muitas as barreiras aos momentos de prazer, muitos pensamentos atrapalhando!

O mundo vai colaborando para a desgraça, mostrando pizzarias chiques e prometendo maravilhas inalcançáveis. A maior mentira que existe é a idéia de que todos têm igual chance de ter a mesma qualidade de vida. Essa idéia é uma enganação que causa, entre outras coisas, a busca pelas Angelinas e a relegação das desdentadas! Acham mesmo que há espaço nas universidades para todos? Acham que há mercado de trabalho para todos? Todos têm iguais chances? “Merecimento”, citam, então, os adeptos da idéia de igualdade de oportunidade: “só quem merece, quem trabalha muito”. Acham que isso responde alguma coisa? Claro que o trabalho é fundamental, mas, ainda assim, não há vagas para todos os trabalhadores. Outra, a mesma vontade e intensidade de trabalho em duas pessoas nunca são efetivamente iguais por causa das diferenças dos trabalhadores; somente um deles vai ser escolhido para “o próximo nível”. Fato!

A decadência ascende a degraus cada vez mais altos e toma tudo para si, aprisiona as idéias, os ideais e os instintos na mesma panela. É o querer mais em um ambiente que não permite que o “mais” seja alcançado! Quanta tristeza espalhada pelo desejo! Aí está um círculo de insatisfação bem desenhado pelo budismo. Leiam ali no canto esquerdo, a última coluna.

A ASCENSÃO DA DECADÊNCIA – PARTE 2 e final

Quero desenvolver a idéia de que as pessoas não têm igual oportunidade de terem a mesma qualidade de vida. Vou usar apenas dois argumentos, os que primeiro me vieram à cabeça. Primeiro, não é vantagem para os que têm qualidade de vida superior que todos os igualem; ser superior é grande parte do prazer, a igualdade é entediante. A maioria dos grandes ricos é obsessiva, e todo bom estudante de Psicologia sabe que os obsessivos são competidores; por que apoiariam a igualdade? É o mundo deles (perdoem o fatalismo; pelo menos estou falando de maiorias e não de totalidades).

Segundo, ainda que todos os ricões fossem gente boa e decidissem abdicar da fortuna para que todos se igualassem, o feito seria inexeqüível. Nem vou me referir às dificuldades administrativas e econômicas de tal realização (quem quiser dissertar sobre isso nos comentários, fique à vontade, não tenho conhecimento), mas às dificuldades humanas: há pessoas que são melhores que outras, se não por diferenças de aprendizado, por diferenças genéticas. Como seria feita justiça? Uma pessoa melhor que outra teria os mesmos direitos? Isso é justo? Complicado, não é? Nem me arrisco a responder. Só digo que para mim é clara a impossibilidade de igualdade.

A idéia de igualdade é etérea demais, não pode mesmo dar certo na prática. Aparentemente, o sistema de castas é natural. Sempre vai haver um superior. Por mais “democrático” que seja um grupo, por mais que todos sejam igualmente ouvidos e respeitados, por mais que tenham os mesmos direitos e vantagens, por mais que todos os constituintes do grupo creiam verdadeiramente na idéia da igualdade e lutem verdadeiramente para executá-la, ainda assim haverá desigualdade. Haverá. Um terá mais poder que outro, invariavelmente, por sei lá quais motivos: por ser mais bonito, ter a voz mais grossa, ter um olhar mais profundo, mais conhecimento, etc.

Já deve estar claro que falo de igualdade no sentido de poder e controle, porque igualdade absoluta seria lavagem genética e cultural no estilo “Admirável Mundo Novo”. Todos os tipos de igualdade são impossíveis. Qual é a solução, então? Duvido que minha idéia seja apreciada, mas aí vai: aceitar a desigualdade. É isso mesmo. Fique com sua desdentada e deixe quem pode ficar com sua Angelina. Mas faça isso verdadeiramente, de corpo e alma, e não só da boca para fora, porque se não, não vai adiantar, seu cérebro vai continuar comparando os estímulos e você vai continuar seu caminho infeliz na direção da futilidade (lembra que no começo do primeiro texto disse que a palavra chave é “comparação”… em breve escreverei algo sobre valores).

É a essa busca por superioridade que estou chamando de “Ascensão da Decadência”. Sabe o que é pior? Quem está na busca por “qualidade de vida superior”, não está fazendo para ser igual a todos, mas para ser igual aos superiores. É absurdo! Todos seriam mais felizes se fechassem os olhos à sedução da busca por superioridade. As pessoas podiam ser ao menos mais sinceras e confessar suas reais intenções; ao invés de ficar gritando que lutam por uma sociedade mais justa, gritar que lutam por uma sociedade mais justa para si mesmos. E é uma superioridade tão horrenda a financeira!

Categories: Crítica, Filosofia
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