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Esses dias que passam

O universo é realmente assustador: o tempo passa. Os dias passam, o que é bom acaba. Felizmente, o que é mau também tem fim. Os dias passam e deixam apenas memórias, e isso é tão doloroso quanto ter todos os ossos quebrados. Se você é esperto e não deixa os dias passarem em vão, ganha a certeza de que fez tudo o que podia e de nada se arrepende, mas isso não torna sua dor muito menor. Ajuda saber que ela vai passar. Os dias passam e, tal qual rolos compressores, levam o que quer que encerravam. Ah, esses dias que passam…

A saudade é um belo sentimento, sou obrigado a admitir. Ela é a mãe das mais belas artes, a criadora de dias emocionantes. Somente os prazeres imediatos da paixão e do amor lhes são superiores; estes sentimentos não têm comparação. São tão absolutamente perfeitos que o seu fim é fantástico: marca o começo da beleza da saudade.

E tudo isso… todos esses sentimentos, da saudade ao amor, da dor ao prazer, passam. Muitos não somem porque são fortes demais para serem esquecidos, mas todos passam. Deixam de ser guias e se tornam companheiros, às vezes se tornam guiados. Não dominam mais, trazem felicidade. A saudade torna-se aquele saudosismo gostoso por ter aproveitado a vida. A paixão se torna admiração, carinho e respeito inesgotáveis. Ah, esses dias que passam… passam sempre para melhor.

Assim com a Tetê: saudade que guia. Prazeres demais! Plenitude e complementação, como deve ser a felicidade. E passou, ela passou. Em breve, a saudade torna-se companheira. Tetê, que abriu portas trancadas e alcançou em mim o que estava deitado, que me conquistou de todos os jeitos que se conquista alguém, mais uma vez, obrigado! Obrigado mesmo! Você passou e será lembrada com saudosismo, carinho, respeito e admiração. Ou então, um final mais emocionante, como você mesmo citou:

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento, que apaga as velas e intensifica as fogueiras”.
(F. de La Rachefoucauld)

Não vou esquecer o último momento, tão repentino, tão fugaz:

As mãos não querendo se desgrudar,
Os olhos nos olhos que nunca desviavam,
Corpo contra corpo, apertados…
A necessidade de se separar.
Vai e volta, vai e volta. Vai…
A Tetê atravessando a catraca do metrô,
Olhando para trás, para mim,
Eu, concentrado, sem perder nenhum detalhe.
Ela esperando na plataforma,
De costas para os trilhos, de frente para mim,
Eu com os olhos cheios d’água
E o metrô chegando.
Um aperto forte no coração.
Ela mandando um beijo com as mãos,
Entrando no vagão.
Eu repetindo seu gesto.
Ela sentando de costas para mim,
Virando-se para me ver,
Repete o gesto:
Um beijo e um aceno de adeus.
Faço o mesmo.
A garganta presa, os olhos úmidos.
O metrô começando a se mover,
Os olhos se cruzando pela última vez.
Uma palavra muda.
Depois de todo o vivido,
Ela desaparecendo em um repente,
Em um milésimo de segundo,
Talvez para sempre,
TALVEZ PARA SEMPRE,
A lágrima saltando, enfim.
E fim.

Naquele momento, eu pensei, e tive certeza: “não faz sentido”. Mas esse pensamento, como tudo, também passou. Foi substituído pela certeza de que as maravilhas são vividas uma de cada vez, uma após a outra, e as tristezas desaparecem.

Como eu mesmo digo, postagem após postagem:
“Tudo que existe é impermanente,
Este é o primeiro conhecimento necessário para vencer Dukkha”

Categories: Diarices, Prosa
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