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Sem escolhas, a princípio

Situação: (manhã perdida) (ouvindo John Lee Hooker) (pensando na vida) (comendo besteira: bolacha gostosa e bebendo coca-cola) (uma vida inteira pela frente) (placas de contra-mão em alguns caminhos) (vida vida bela vida)

Parece um caminhão…
Correndo desgovernado por uma estrada sinuosa…
As curvas feitas na sorte…
A carga é matéria preciosa…
São vidas esperançosas…
Mas, não há motivos para se preocupar…
A probabilidade de tudo dar errado é a mesma de dar certo.
Talvez o caminhão volte à estabilidade.

Há muito que não escolhemos nessa vida. Acima de tudo, somos corpos biológicos que necessitam. Necessitamos de segurança, de abrigo, realizar trocas com o meio. Coisas entram e saem do nosso corpo, a natureza é por nós engolida e respirada e é por nós expelida. Somos natureza. Somos vida, como os animais, como as plantas, como as bactérias.

Animais, temos limites intransponíveis (pelo menos é o que se pensa ou o que pensamos), definidos pela nossa constituição genética. Nosso corpo é um com nossa mente? Não há separação? Acredito que não haja, mas que meu corpo não permite que eu voe e que minha mente voa, isto é verdade! Somos um organismo, sem distinção corpo e mente? Acredito que sim, mas como explicar para minha mente que ela pode fazer a dor parar? Será que ela pode?

Não quero me deter em questões psicológicas…

Quero dizer que às vezes não temos escolhas. O mundo não é seguro, ao contrário do que muitos pensam. Estamos envoltos em teias inquebráveis, pintados num quadro com tinta indelével… Não temos escolhas, a princípio. Nascemos e somos condicionados a um mundo. Nada escolhemos. Crescemos aprendendo sobre um mundo, sobre como é viver nele, sobre como é atuar nele, sobre o que são as coisas de acordo com sua ótica. Nada escolhemos, a princípio.

Se tivermos sorte, entramos em contato com arte e filosofia. Denúncia! Esses doidos que nos incitam a pensar em nossas certezas, a relativizar nossos berços, a deixar a caverna! E achamos tudo aquilo absurdo, incrível, idéias de fanáticos ensandecidos… Só podiam ser infelizes, deviam estar insatisfeitos… Quem é feliz não questiona. O susto inicial transforma-se em curiosidade, e avançamos feito abelhas no mel da relativização, na quebra de conceitos eternalizados. De repente, estudamos como se formam os conceitos, porque se formam os conceitos… e, nossa, como pode tudo ser assim?

Pronto! Estamos sós. Agora que a tudo relativizamos, fazemos parte de nada. Se fizermos, é porque escolhemos um mundo, que sabemos, é apenas construção de algumas idéias, é apenas um entre tantos possíveis… Se escolhemos, escolhemos conscientes da falta de verdade… Escolhemos o que nos faz bem…

Mas alguns de nós não escolhem. Impressionados pelas construções, conhecendo as mil diferentes formações, as zilhões e zilhões de opiniões, teorias, religiões, formas de arte… impressionados com tudo isso, simplesmente não escolhem. E buscam mais informações.

(E agora deixo o nós e prendo-me ao eu)

Aqueles loucos lidos… não eram mesmo loucos? Viverei de acordo com conclusões que não são minhas? Acreditarei em verdades que não criei? Claro que não! Preciso ir mais fundo, mais fundo, mais fundo, até me perder para sempre na teia da relativização, até deixar de ter valores, de ser valor, de crer em valores… Não, isso não é possível. Os valores existem, são palpáveis! Aliás, tudo é palpável… Tudo existe mesmo. As religiões existem, existem experiências místicas, existem culturas, existem opiniões, existem idéias, existe arte. Tudo isso tem forma, é palpável e não pode ser ignorado..

Mas escolher… isso não posso. Estaria me entregando a um modo específico, estaria acreditando que aquele modo me faz bem, que os outros são, para mim, inferiores… Não posso, preciso de liberdade. Preciso de liberdade total!

É então que cai em minhas mãos um pensamento antigo, originário da Índia, simples, básico, que parece ir onde quero, que parece chegar à verdade, ou a uma delas, que não é agradável ou desagradável, que não espera, que não se prende, que parece prover total liberdade, que é capaz de relativizar até mesmo pensamentos e sentimentos e ainda fazer você se sentir como parte de tudo… Parece perfeito demais! Mas é assim mesmo… só é preciso ter coragem de esquecer o “eu” e o “meu”…

Será que tenho coragem? Esse é o caminho da relativização máxima, o caminho do descondicionamento… Mas alerta: é preciso de compaixão. Quando o “eu” é destruído e o “meu” esquecido, você percebe que tudo é um e então, tem compaixão. Belo modo de pensar! Paz e liberdade unidas com compaixão!

Um pensamento ainda me pega desprevinido… Não é só mais uma maneira? Não é só mais um pensamento que não é seu? Não era você que ia encontrar seu próprio caminho? Não era você que não queria se prender ao criado por outros?

Eu respondo: Sim, sou eu quem quero um caminho meu. Acontece que só posso saber qual caminho é melhor quando todos os caminhos eu esquecer. E é isso que aquele pensamento oriental quer me levar a fazer: esquecer de tudo, abdicar do “eu”, do “meu”, da esperança e do desejo. E parece absurdo? Parece mesmo… Parece porque estamos condicionados.

Um passo por vez…
Segurar o volante…
Colocar o caminhão na pista…
Descobrir que é um sonho…
Que não há caminhão…
Que não há pista…
E amar a vida.

Categories: Filosofia
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