a máquina que diz o mundo

Luiz Carlos entrou no enorme ambiente de paredes de metal e se impressionou com a imensa máquina que ocupava a sala quase que completamente. Era uma máquina monótona, um paralelepípedo enorme e cinza, com uma porta preta e uma grande inscrição, que era ao mesmo tempo um aviso e um desabafo.

Impressionado com a precisão reta das curvas do metal liso e sem defeitos do aparelho, Luiz Carlos se aproximou da porta preta. Leu a inscrição, sobre a qual havia sido avisado para atentar:

“Caro usuário, sou o criador desta máquina amaldiçoada. Não fosse minha incapacidade de destruí-la, eu o teria feito. Eu a terminei seguindo os projetos de cem antecessores e seus grupos de pesquisa. Cada um desses grupos acrescentou dados ao projeto inicial e fui, com minha equipe, o responsável por ligá-la pela primeira vez. Seremos conhecidos até o fim da humanidade como os destruidores da liberdade”.

“Não importa para você, neste momento, conhecer os complexos mecanismos de funcionamento da máquina. Serei o mais breve possível, alertando-o sobre o inferno que este aparelho lhe trará caso seja acionado”.

“A máquina realizará um mapeamento completo da estrutura e funcionamento do seu corpo, do seu ambiente e das pessoas com as quais você convive. Verificará um banco de dados que atualiza diariamente, e que guarda centenas de anos de informações, a fim de precisar o resultado. As informações obtidas serão consideradas em uma análise histórica e genética. O resultado dos cálculos é 100% preciso”.

“Este computador de funcionamento extraordinário se baseia na máxima de que os fatos estão determinados pelos fatos imediatamente anteriores a eles, em um fluxo inexorável. A máquina prevê o futuro. É extraordinário e assustador”.

“O conhecimento será implantado no seu cérebro. Infelizmente, a máquina também considera no cálculo todos os pensamentos concernentes ao novo conhecimento, o que impede que você restabeleça a falsa percepção de que você pode determinar suas escolhas”.

“Eu investiguei cada um dos usuários desta máquina e os futuros usuários. Se você é Felipe Andrade, saiba que…”

Luis Carlos sentiu-se mal ao saber que sua visita podia ter sido prevista. Procurou ansiosamente por seu nome, e o encontrou:

“Se você é Luiz Carlos, saiba que um dos usuários da máquina vive uma vida quase normal (Augusto Seimor, 9555-5555). Ele será atropelado às 16:02 do dia 20 de março. Recomendo que tente falar com ele se ele ainda estiver vivo”.

“Este aviso é inútil; bem sei que apenas cumpre um papel no funcionamento do mundo, sendo um mínimo estímulo de incentivo ou de afastamento. Ainda assim, senti-me obrigado a escrevê-lo. Saia desta sala agora e viva sua ilusão de escolha. Perdoe-me por ter criado esta máquina desgraçada”.

“Você seguirá um caminho que não pode ser decidido nem por mim nem por você”.

Durante muito tempo Luiz Carlos pensou sobre o incrível poder da ciência e da prova última da sua superioridade, manifestada naquela incrível máquina capaz de dizer o mundo. Era impressionante o assombro que descobrir a vida causara nos usuários da grande caixa cinza. Agora estava ao seu alcance a chance de saber tudo o que aconteceria sem ter de esperar e suar a ansiedade. Não importavam as conseqüências. Tinha sede de conhecimento!

Como seria conhecer até o fim da escolha?

Entrou na máquina tremendo um pouco. Pensou que não tinha dúvidas, mas antes de fechar a porta um impulso o fez ligar para Augusto.

— Alô!

— Augusto?

— Sim. Quem é?

— Meu nome é Luiz Carlos e estou dentro da máquina que você usou há um tempo atrás e que em teoria lhe revelou a vida. Estou pensando em acioná-la, o que você acha?

— Escuta, Luiz Carlos, eu sofro de perda de memória. É possível que eu tenha usado essa máquina, mas não serei cap…

Luiz Carlos ouviu um carro derrapando e um barulho sem ecos. Seu relógio confirmou o que ele já sabia: era 16:02h do dia 20 março. A cabeça girou e ele caiu tonto no chão de metal, procurando uma explicação. Não era mais capaz de pensar direito. Assustado, embevecido, maravilhado, fechou a porta, acionou a máquina e lembrou de Bárbara, como se isso fosse ajudá-lo a reconquistá-la.

Não houve barulho, nem aviso. De repente tudo fez sentido: nenhum.

A angustiante narrativa foi de Luiz para ele mesmo. E o que ele soube foi o que aconteceu…

Eu nunca mais estarei com Bárbara. Tentarei reconquistá-la de várias maneiras e falharei em todas. Descobrirei, para meu desgosto, que serei impotente em controlar os acontecimentos da minha vida. A idéia de que somos capazes de tudo é falsa. Viverei com essa certeza até o fim dos meus dias.

Conhecerei o desespero depois da quarta tentativa de estar com Bárbara. Saber disso antes de realizar essa tentativa não me torna capaz de me parar, pois estarei impelido ao encontro dela para além de forças conscientes. Depois da quinta tentativa estarei cansado e desistirei de viver com ela; terei 30 anos e idéias.

Meu filho nascerá de uma mãe que odiarei. Brigaremos em casa e brigaremos na justiça pela guarda do menino. Nunca obterei a guarda, pois o juiz me considerará incapaz de cuidar de uma criança, já que direi coisas desconexas sobre o que vai acontecer. Aprenderei, somente nesse dia, a me calar. Mesmo sabendo que não conseguirei morar com o menino, meu amor por ele vai me impulsionar às tentativas frustradas. Sentirei esperança: ela vive até mesmo na certeza do fracasso.

Eu e meu filho, que nomearei Augusto, seremos bons amigos. Felizmente nunca ficarei sabendo da sua morte, pois ele morrerá depois de mim. Eu o ensinarei valores consistentes e contarei a ele que o mundo é o fluxo inexorável que me atropela um pouco por dia. No meu último dia ele será um homem incrível.

Conseguirei um bom trabalho: gerente de uma rede de lojas de materiais eletrônicos. Serei rico e nunca passarei necessidade. Ao contrário do que pensei quando liguei a máquina, não preverei alternativas às diferentes decisões que poderia tomar. Isso porque não há verdadeiras decisões a tomar. Todos os acontecimentos são como lançamentos de dados que podem ter seu resultado previsto depois de medidas suas variáveis.

Depois da mãe do meu filho iniciarei uma relação com Amanda, uma linda mulher cujos olhos vão me hipnotizar desde a primeira vez em que os vir, no estacionamento do meu prédio. Ela me dirá que sempre me vê por ali e eu a convidarei para jantar. Nunca mais nos deixaremos. Ela mora lá hoje, no apartamento 307, mas esquecerei disso, ou terei outras coisas em que pensar. Eu a encontrarei no dia certo. A paixão que sentiremos nos acompanhará até meu último dia. Todas as noites recitarei poesias para ela e ela me sorrirá um rosto perfeito.

Eu a trairei com uma funcionária da loja. Ela me trairá com um amigo do meu filho. Descobriremos isso em casa, em um momento de desabafo mútuo. Isso acertará nossa relação e nos tornaremos ainda mais próximos. Ela me abraçará por horas e faremos amor.

Arrependerei-me do uso da máquina somente duas vezes: hoje e no fim. Há um apego à vida que me empurrará para cima. Realizarei ações com força, mesmo sabendo que elas foram desenhadas ontem. A única diferença entre mim e os outros será meu conhecimento de que sigo o fluxo. O prazer da vida é fundo no corpo.

Certo dia, acordarei velho e me sentirei bem por ter vivido. Tentarei não andar até o banheiro, mas me empurrarei para lá. Uma curiosidade mórbida vai me obrigar a me olhar no espelho. Momentos antes de me ver refletido terei vontade de gritar ao mundo que os desejos são maiores que os músculos. O espelho será minha morte, eu sei, e a procurarei a favor e contra mim, aliviado e desesperado.

Meu reflexo mostrará um sorriso indecifrável, um igual ao que sorri no meu décimo aniversário, quando pedi uma bola para meus pais humildes e ganhei a bicicleta que secretamente desejava. Meu último pensamento será “eu quero mais vida”. Perderei a consciência. Não saberei o que me matou, nem se há algo após a morte, nem se meu filho terá um filho como ele.

CONTO ESCRITO EM ABRIL/2005

e foi

— Eu ainda não entendi direito o que aconteceu. Você estava lá e viu tudo, vai ter que me contar. O que ocorreu exatamente?

— Eu era somente uma convidada na casa… Ele estava na sala, com a televisão ligada, mas olhando para a estante de livros. Tentei falar com ele, mas ele estava concentrado demais no que estava fazendo e não me olhou. A campainha tocou, ele correu à janela, com uma disposição e velocidade que me impressionaram. Depois de ver quem era, voltou desanimado ao sofá e me disse para não responder a campainha.

— O que ele estava esperando?

— Isso eu não sei… Depois de sentar no sofá, ele voltou a olhar para a estante de livros, muito calado. Eu comecei a me sentir um peso lá, sabe? Afinal, ele tinha me convidado, tinha me entretido durante toda a noite e de repente parou de falar comigo e me ignorou. Pensei isso e parece que ele leu meu pensamento, pois em seguida me disse para eu ficar relaxada, tomar um banho, que ele estava resolvendo algo e já me daria atenção.

— Ele estava muito estranho, não é?

— Sim… Eu não fui tomar banho, ao invés disso sentei na cozinha, que tinha um balcão com ligação para a sala e fiquei lá o observando. Depois de olhar por mais duas horas para a estante de livros, ele se levantou e foi até o quarto dele. Ouvi-o mexendo no armário, arrumando ou tirando alguma coisa de lá. Fazia muito barulho, ele devia estar muito nervoso. Saiu de lá e trancou a porta do quarto com a chave.

— Nossa! Ele não disse nada?

— Ele não voltou diretamente para a sala, foi para os outros quartos, os de hóspede, e fez a mesma coisa que fez no dele, fazendo cada vez mais barulho e se mexendo cada vez mais rapidamente. Até o banheiro trancou por fora.

— Você devia estar ficando assustada. O que fez?

— Ele voltou à sala e me deu minhas coisas. Estava carregando uma mala muito pequena, certamente não eram suas roupas. Perguntei o que estava acontecendo e se eu podia ajudar. Ele me disse que não. Ficou olhando para a estante de livros e só então percebi que ele não olhava apenas para os livros, havia outra coisa lá, na mesma estante. Fiquei em dúvida se ele olhava mais para a estante ou mais para essa outra coisa…

— O que era essa outra coisa?

— Nunca vamos saber… Não pude ver… Depois de alguns segundos olhando para a estante, pegou um cd de música. Sim, havia cd´s na estante… Havia também alguns cadernos velhos repletos de poesias e textos, além de álbuns com fotos de várias épocas… Ele chegou a me mostrar os textos e as fotos algum tempo atrás… Só não consigo mesmo me lembrar o que mais havia na estante, o que chamava tanto sua atenção…

— Continue. Ele pegou um cd na estante.

— Sim… Era um cd gravado no computador. Ouviu quatro músicas: “Babe I´m Gonna Leave You” do Led Zeppelin, “Canto para a Minha Morte” do Raul Seixas, “Help” do The Beatles e “Gota D´água” do Chico Buarque.

— Eram as músicas favoritas dele?

— Eu acho que não… ele tinha me dito o nome de suas músicas favoritas antes… essas estavam na lista, mas não a encabeçavam. Ouviu a todas emocionado… Percebi que lágrimas escorriam do seu rosto. Entre soluços, ele olhou nos meus olhos e disse “Esta casa não é mais minha…”

— “Esta casa não é mais minha”? O que ele quis dizer?

— Calma, sua apressada. Era o que eu ia dizer agora. Perguntei o que isso significava e então ele me apontou item por item da casa… “Vê tudo isso? O quanto isso é meu? A porta ficou sempre aberta, entrou quem quis, viu o que pôde, mexeu na configuração como lhe agradava. Depois foram embora… O quanto de tudo que aqui há é meu? Até esta estante, em que guardo o que mais me agrada, sinto como alienígena”. Não disse mais nada. Devolveu o cd ao seu lugar original. Pegou todos os outros cd´s na mão, um a um… Olhava-os ternamente. Fez o mesmo com cada álbum de foto…. Folheou um pouco de cada um dos seus livros…

— Que livros?

— Todos que tinha. Não vou me lembrar agora de quais, não estava preocupada com isso. Da estante, só não mexeu nesse algo que eu não sabia o que era. Disse para mim: “Retire-se, por favor”. Acompanhou-me até a porta.

— Que rudeza!

— Não sei, eu estava preocupada com ele. Ele foi muito bom para mim. Sempre foi um amor, um homem dos sonhos. A maneira como ele me olhava, a intensidade das suas palavras, a força e leveza de suas mãos… Estar com ele era inspirador… Aquilo tudo naquele dia estava me deixando preocupada, não o estava achando rude.

— Desculpe… não pensei assim. Mas o que aconteceu então?

— Antes de eu sair, ele me deu um beijo, pediu desculpas e me abraçou. Então, suspirou longamente, apagou a luz, trancou a porta por fora e foi…

— E foi para onde?

— Passou por mim sem me olhar e caminhou rápido. Virou a esquina sob meus oferecimentos de ajuda. Nunca mais o vi.

— Foi isso que aconteceu? Não consigo entender. O que será que havia naquela estante? O que ele esperava quando tocou a campainha? O que será que ele pegou nos quartos? Por que ele foi? Ele voltou?

— Não sei responder nenhuma de suas perguntas. Lembro apenas que pude ver sua face uma vez mais, antes de ele virar a esquina. Ele me olhou.

— E então? Ele estava chorando?

— Não… Pelo contrário, estava feliz, mas com uma expressão indecifrável. Não posso descrevê-la justamente… Pareceu-me, por um momento, uma expressão e um modo de andar que misturava a aparência de um Drácula e a essência de um Vasuveda…

— Nossa! E então?

— Ora, então que é fim de história.

— Não entendi… Não consigo entender.

PS: Texto originalmente publicado em 28/04/04.

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Era-lhe difícil

Era-lhe difícil. Tudo quanto se tinha para fazer, era-lhe difícil. Vivia no horror da insatisfação. Quando experimentava a felicidade, era em momentos curtos, em prazeres velados; uma felicidade de mentira, que servia apenas para lograr uma voz quase inaudível, que exigia alegria a plenos pulmões, mesmo abafada dentro de uma redoma de vidro e exibida como atração circense. Era-lhe difícil se entregar plenamente, deixar-se levar despreocupado, da maneira que exige o verdadeiro gozo. Não. Estava sempre pensando no momento seguinte e no momento anterior, procurando um significado, uma explicação que elucidasse porque o presente estava ocorrendo. E o presente, este ele não abria; mantinha a caixa fechada e o papel que a embrulhava, intacto; o pacote ficava escondido embaixo da cama, guardado por ressalvas de todos os tipos. Tinha medo, porém, que o pacote lhe fosse roubado e que outro gozasse do prazer que a ele estava destinado. Somente o medo, e a raiva que dele advinha, eram capazes de incitá-lo ao presente, à caixa que esperava ser aberta. Mas não: era-lhe difícil… mesmo com a raiva a lhe inflamar os ânimos e o medo a lhe pedir extinção, não abria a caixa; ao contrário, escondia-a com ainda mais cuidado, com esmero até, transformando o hediondo ato de se enganar e não viver o gozo em uma arte refinada. Ia mais longe: não só em arte, mas em ciência se transformava em suas mãos doentias o trabalho de adiar e esconder o prazer; transformava o medo em técnica. Nunca estava em paz, apesar dos esforços, porque por mais que se esforçasse por manter a caixa longe do mundo, sempre se lembrava dela. A voz enclausurada na redoma era vigorosa e clamava incessantemente e com esperança, como se estivesse alheia à sua difícil situação e à alta impossibilidade de ser ouvida. Gritava, gritava admiravelmente e conseguia irritar, mostrava toda a decadência daquele esquema, daquela arte que o medo inspirava. Essa tentativa de liberdade, infelizmente, perdia as batalhas, uma após a outra, miseravelmente.

PS: Este post foi um exercício de redação,
Originalmente publicado em 22/05/2002.
Cinco anos atrás! Estou velho, não?

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Rezar

Uma noite de quinta-feira. Estavam no Bar Paratodos, sem variar, Alton, Mauricio, Otávio e Rafael. Na mesa, sem variar, quatro copos, garrafas de cerveja, de água e de refrigerante. O passatempo também era o mesmo: criticar Otávio e seu monoteísmo.

Mauricio: Explique porque uma pessoa acredita em rezar.
Otávio: Cada pessoa deve rezar por um motivo, eu acho. Eu rezo para me manter em contato com o que acredito.
Mauricio: Mas você reza para pedir coisas?
Otávio: De vez em quando eu rezo para pedir, sim…
Mauricio: E do que adianta rezar para pedir? Você realmente acredita que é ajudado?
Otávio: É claro que eu sou ajudado, caso contrário eu não rezaria.
Mauricio: (Risos) Faz sentido. Rafael?
Rafel: (Terminando um copo) Claro que faz sentido, Otávio.
Mauricio: Mas imagine o seguinte: Dez pessoas disputando por uma vaga de emprego que requer boa nota em uma prova difícil… Três dessas pessoas estudaram loucamente. Cinco dessas pessoas mal estudaram. Duas estudaram medianamente, e ambas rezam. Qual delas seria aprovada no exame?
Otávio: O que eu sei é que cinco bestas não passariam. Das pessoas que estudaram loucamente, com certeza passaria a que leu assuntos que apareceram na prova. Sobram três possíveis, então.
Rafael: Agora eu fiquei curioso. Entre as pessoas que rezaram, qual delas tem mais chance de ser aprovada, a que rezou mais? E entre o vencedor desses dois e o vencedor dos estudiosos, quem seria aprovado?
Otávio: Provavelmente o que estudou mais.
Rafael: Ué, então do que adianta rezar?
Otávio: Por que vocês não colocaram no páreo o estudioso que rezou? A fé e a ação têm que andar juntas. Vocês insistem em ignorar isso.
Mauricio: Então o estudioso que reza seria aprovado, pois ele tem mais vantagens. Mas qual a vantagem de rezar mesmo?
Otávio: A pessoa de fé sabe que tem Alguém olhando por ela.
Mauricio: Esta é a explicação?
Otávio: Sim, ela é mais confiante.
Mauricio: E se a pessoa que não reza também for confiante?
Alton: Posso falar?
Rafael: Ora, vejam só quem vai falar. Alton, o calado.
Mauricio: Fala, então.
Alton: A explicação da fé do Mauricio tem sentido, ainda que a reza funcione como placebo. O que o Mauricio quer dizer também faz sentido; mas para vocês responderem a essa questão inútil vocês teriam que explorar muitos “e se…”. A cerveja vai esquentar. Vocês nunca perderão essa mania pervertida de contrapor fé e razão? Besteira de colegial!
Risos gerais.
Mauricio: Verdade, a razão ganha de largo. Mais uma cerveja?
Otávio: (De cara fechada). Claro, manda vir.

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Estes personagens fazem parte das histórias de Alton. Em breve, mais; e os outros personagens que compõem o texto.

A felicidade que antecipa a queda

Nos meus 25 anos de vida eu aprendi muita coisa. Na verdade, é pouca coisa, se pensarmos na quantidade de coisas a aprender. Mas para mim é muita coisa, pois são coisas que saíram pelos meus olhos em forma de verdadeiras lágrimas, ou que se mostraram vivas apertando horriveilmente meu coração. Também conheci aquele sentimento absurdo de ver o mundo pequeno, e eu o seu senhor. Já gozei aquela felicidade tão imensa, pois tranqüila.

Muitas, muitas vezes mesmo senti a felicidade que antecipa a queda… Não fosse meu ceticismo de dicionário, eu juraria que a felicidade pelo florescer do dia seguinte enterra a semente para sempre. Eu me recuso a acreditar que tal felicidade seja uma causa sinistra de um efeito dolorido. Mas é o que vejo, é o que sinto. Talvez meus olhos estejam viciados nessa idéia (então, sofri demais? recuso-me!). Talvez eu esteja simplesmente contando errado, e o número de folhas seja maior do que o número de sementes não fertilizadas.

De um jeito ou de outro eu me coloco na desprazerosa posição de não me animar com o amanhã… como se toda felicidade tivesse que gritar “supresa” ao me acordar (talvez seja isso mesmo, não?). Antecipar é morrer?

“Ame-me hoje, pois posso não ver amanhã”.

Um dia azul

Eu abro a janela e o céu está azul. Não o azul pálido das manhãs ainda sem sol. Chega aos meus olhos, e a tudo que sou eu, o azul forte dos dias mais felizes. E um frio silencioso me faz me aconchegar em minhas blusas. Eu me lembro dela.

Ela fala comigo e eu ouço sua voz, mas não entendo o que ela diz. O som é distorcido por tantos ventos, por tanto tempo, que meus ouvidos se recusam a acreditar nisto que pode ser uma confusão. Fico atento para ouvir novas palavras. Quando tento localizá-la, descubro que neste mundo redondo dizer que ela está para baixo, para cima ou para os lados é a mesma coisa, e por isso não sei onde ela está em relação a mim…

Admiro-me da minha serenidade. Volto-me ao que me acontece no momento mais presente. É um céu azul forte, como nos dias mais felizes. Ando até o parque e o azul se funde com o verde das árvores ao vento. Pessoas de todos os tipos correm por trilhas circulares. Talvez também eu. E assim como os rostos sorriem, também sorrio eu por andar nesta trilha, seja ela uma repetição ou não.

Deitado em um banco eu me lembro da chuva, e de quantas vezes eu e ela nos escondemos abraçados. Eu tremo de alegria por saber que amo a chuva como o sol. Durmo despreocupado no banco, sob o som de muitos passos. Talvez alguém me acorde de surpresa, mas não esperarei.

Na noite gelada

Nas noite geladas, eu normalmente aprecio com mais volúpia uma garrafa de vinho seguida de uma madrugada de sexo. A cerveja e o sexo suado do calor não se comparam à maravilha de saber que nas noites geladas todos os átomos estão mais lentos apenas para que você saiba a delícia de estar naquele corpo com aquela mente liberta.

As noites geladas são também o momento para pensar… É gostoso, às vezes, abrir a janela e ser surpreendido pela rajada fria do mundo, e saber que a distância para o calor de si mesmo está tão próximo quanto fechar novamente a janela. Pois você é sua casa e quem estiver com você em sua casa é também parte de você.

Nas noites geladas o banho quente, o café quente, a sopa quente, um quarto quente e amor…