O FIM DE UM BUSAI

Esta é a última parte sobre a interessante vida dos Busai.
Esta é a menor parte, é aquela parte sobre a qual o autor não pensou direito.
Esta é a parte conclusiva que decepciona os fãs esperançosos de encontrar emoção.
Vamos a ela, enfim:

Os Busais são eternos enquanto são obrigados. O fim de um Busai acontece quando ele não precisa mais tomar ônibus. Como vocês devem ter deduzido, os Busai lutam a vida toda para deixarem de ser Busai. E agora um final um pouco surpreendente, ou nada:

Busai é um termo pejorativo.
É uma pena ser um Busai.

PS: Perdão pelo fim sem graça, mas ele tem uma boa justificativa:
Hoje eu passei por um daqueles dias horríveis em transportes coletivos. Cheguei em casa apenas 3h depois de sair da USP. Tudo relacionado a ônibus está hoje especialmente aversivo. Quero acabar com isso de uma vez.

As Habilidades Busai

NO POST ANTERIOR: O QUE É UM BUSAI
NESTE POST: AS HABILIDADES DE UM BUSAI

Toda a arte Busai tem a finalidade de diminuir o sofrimento das viagens de ônibus e metrô. O sonho de todo Guerreiro Busai é sentar-se à janela, mas somente os experientes conseguem o feito. Sentar-se ao corredor também requer rara habilidade. Ficar de pé fora do aperto é motivo de orgulho para muitos Busai. Afora isso, existe ficar de pé no aperto sem sentir-se infeliz. Uma conquista complexa é não desejar a morte alheia, ainda que o Guerreiro sinta-se infeliz.

Para atingir esses objetivos os Busai necessitam desenvolver habilidades especiais. O conjunto de habilidades de um Busai é conhecido como o EMAP (Entrada, Movimento, Atenção, Posição). Há ainda duas habilidades só possuídas pelos guerreiros que não sucubiram ao lado negro. Essas habilidades impedem que os Busai não corrompidos atinjam o nível de conforto que os Busai degenerados alcançam, mas mantêm sua sanidade. Os Busai do lado negro são mais poderosos, mas o poder os leva à loucura, como vocês verão daqui a dois parágrafos.

ENTRADA: O momento de entrada no ônibus é fundamental para o sucesso de ir sentado. Guerreiros experientes conhecem qual o lugar mais provável do ponto de ônibus em que o motorista abre a porta. Quem entra primeiro, tem mais chance de ir sentado. MOVIMENTO: Locomover-se dentro do ônibus requer equilíbrio e graça; quem se move melhor, vê mais e ganha mais terreno. Há a lenda do grande mestre que conseguia executar o triplo mortal carpado em um ônibus cheio. ATENÇÃO: Este é um dos principais tópicos. É necessário que o Busai conheça a mente das pessoas com quem dividem o ônibus. Qualquer movimento suspeito pode significar que a pessoa se levantará; atenção é fundamental. POSIÇÃO: De nada adianta a atenção e o movimento se a posição não for favorável. Por sua vez, para se posicionar de maneira que permita sentar-se rapidamente, é preciso dominar a arte da Atenção e do Movimento. As habilidades estão todas relacionadas.

Como eu disse que aconteceria, neste parágrafo serão descritas as duas habilidades que somente os guerreiros não corrompidos possuem. Tratam-se da PACIÊNCIA e do RESPEITO. Um guerreiro Busai não toma o lugar de grávidas, idosos, deficientes físicos e pessoas carregando cem quilos de sacolas, entre outros casos. Para resistir ao cansaço e à tentação, um Busai conta somente com o respeito e a paciência. Os guerreiros Busai do lado negro, é óbvio, roubam lugares indiscriminadamente sem se sentirem culpados. Não vale a pena chegar a esse ponto, porém. Os guerreiros Busai são sofredores, mas ainda assim humanos.

a seguir: O FIM DE UM BUSAI

Os Guerreiros Busai

O QUE É UM BUSAI

Sim, Guerreiros Busai é um nome horripilante. Jedi é mais bonito, sim. Mas pelo menos os Guerreiros Busai são reais, enquanto os Jedi são sonhos de Lucas.

Um Guerreiro Busai é todo aquele que é obrigado a se locomover de ônibus freqüentemente. A parte do “obrigado” é muito importante, como vocês descobrirão na próxima frase. Além do fato de que habilidade requer treinamento, e treinamento em Busai requer muitas viagens de ônibus, tem também a verdade de que ninguém é louco o suficiente para sair por aí de ônibus só por diversão.

Os Guerreiro Busai, ao contrário dos Jedi, não escolhem seu destino, e é isso que os torna essencialmente trágicos. A arte dos Jedi objetiva o aperfeiçoamento do artista, a arte dos Busai objetiva terminar com o sofrimento do coitado. Os Jedi são confiantes, corajosos, possuem The Force. Os Busai são cansados, sofridos e possuem The Forced. The Force significa A Força, The Forced significa O Forçado. Os Busai são forçados a andarem de ônibus, como esclarecido acima.

As condições de treinamento são severas. No nível básico, o Busai entra em um ônibus ou metrô vazios, e fica pouco tempo. As condições se tornam mais pesadas conforme dois fatores aumentam, a quantidade de tempo dentro do ônibus e quantidade de pessoas dentro do ônibus. Os Busai mais poderosos (ou sofridos) utilizam o transporte por mais de 4 hs/dia no horário de rush de São Paulo. Esses guerreiros lendários são conhecidos como os mestres e seu conselho sábio paras os jovens aprendizes (os Dançarâm) é que encontrem empregos mais próximos e desistam se se tornar um Busai. Devido à estrutura econômica contemporânea, poucos são os que podem escolher abandonar o caminho da dor.

A seguir “HABILIDADES DE UM BUSAI”

Buso produções – 5

Vamos falar de distribuição normal. Você entra no local de embarque do metrô e chega um trem fresquinho do túnel escuro, rumo ao buraco do outro lado. Vejam abaixo a representação pictórica de como as pessoas se distribuem em cada porta de entrada do trem (versão com menos vagões):

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O troço aí de cima é chamado de distribuição normal (ou curva normal). É chamada assim porque a maioria dos dados tem valor médio, e a quantidade de dados vai diminuindo conforme se aproximam dos valores extremos.

O mais interessante é que as pessoas se distribuem assim para entrar no metrô. Mentira, o mais interessante é que nos vagões do meio não há lugares para sentar. Ou seja, as pessoas ficam apertadas, de pé, mas entram nos vagões do meio. Por que isso acontece?

Eu tendo a pensar que é uma mistura explosiva de burrice e preguiça. A preguiça vem do fato de que a maioria dos acessos ao local de embarque fica próxima aos vagões do meio, o que requer que as pessoas andem algums metros até os vagões das pontas. A parte da burrice é não fazer uma conta simples: energia requerida para andar até os vagões das pontas e ir sentado versus energia requerida para ficar de pé apertado nos vagões do meio.

Bom, isso é só uma constatação. Agora quero fazer a observação definitiva: ver o que acontece quando os acessos são próximos aos vagões das extremidades. A estação Consolação é assim, e posso adiantar que lá a distribuição é uma distribuição normal cortada no meio.

Eu não reclamo do povo não. Sempre vou sentado!

Buso produções – 4

A VIDA EM MOVIMENTO

Todo mundo reclama de pegar ônibus e metrô. Até eu. Mas é preciso perceber fatores positivos em tudo. E até eu, que sou chato, consigo ver fatores bons em andar de ônibus e metrô. Vou listá-los para que vocês apreciem:

1. Muitas vezes é mais barato andar publicamente do que privadamente no seu carro alcoólatra.

2. Você vê as pessoas que compõem o mundo. Lida com elas. Não é muito simples entender que existem tantas pessoas diferentes. É preciso vê-las, e o transporte público é o melhor lugar para isso.

3. A vida em movimento. Se você for muito esperto mesmo, pode aproveitar o movimento do ônibus para movimentar sua vida. Curtir as peculiaridades dos locais por que passa, planejar um grupo rebelde para mudar o mundo, pensar sobre os dias da sua vida e intuir o melhor caminho a seguir, etc.

Eu acho que é isso aí. O resto é ruim, como ficar de pé, demorar horas para chegar, participar de lotações recordes e tal.

Enfim… Ei, tem fatores positivos.

Buso Produções – 3

ESTAÇÃO PARAÍSO DO METRÔ

O primeiro fato que precisa ser conhecido sobre a estação Paraíso do metrô é que ela é o inferno. A Sé é pior, é verdade, o que me faz ter dúvidas do que pode ser pior do que o inferno que é a estação Paraíso.

Um segundo fato notável é que o inferno é na Paraíso e algo pior do que o inferno fica na Sé (que significa igreja). Eu acredito que seja Deus testando os homens. É preciso passar pelos dois pontos para chegar ao destino final (qualquer que seja).

Terceiro fato notável é a quantidade de trocadilhos que se pode fazer com o nome Paraíso. Eles estão em itálico tanto acima desta linha quanto abaixo, para que os de pensamento mais lerdo possam acompanhar.

Outro fato não tão notável, mas ainda notável, é os corredores e labirintos da estação Paraíso. Há pessoas que os desconhecem. Quem usa a estação apenas para baldeação perde a oportunidade de se perder na Paraíso. São subidas, descidas, curvas, cantos escuros, lojas, sorveteria… tem de tudo na Paraíso.

Não fosse a estação eu não conseguiria me readaptar a São Paulo tão logo quanto fiz. (mentira, ainda não me adaptei, mas vamos fingir que sim para termos texto). O relato a seguir mostra de forma conclusiva como é viver na Paraíso.

Cheguei de Floripa achando que eu era o mais zen dos homens. Cheguei manézinho, estilo sussa, tudo era massa, nada era palha, a vida fluía tal qual as ondas que nunca dropei. Aí me deparei com a Paraíso e suas regras. Rolava aquele amasso no metrô, muito parecido com os amassos no busão, mas com um agravante: todo mundo descia ao mesmo tempo, e não aos poucos.

Esse agravante provoca o chamado “efeito onda”, que pode ser resumido assim: não é preciso caminhar, basta pular e deixar as pessoas te levarem pelo ar. O “efeito onda” é perigoso, como uma arrebentação na sua cabeça; ao invés de levado você pode ser pisoteado pela fúria da maré. Então, como manézinho zen, eu esperava todo o povo passar e saía depois de todos. Mas isso não dava certo. As pessoas vinham de todos os lados e me atropelavam em plena Paraíso. Às vezes eu não perdia o fechamento das portas por pouco.

Passado algum tempo adotei uma solução que me parecia perfeita. Ao invés de ser o último da fila, eu seria o primeiro, assim eu poderia sair correndo e ninguém me atropelaria. O clima na Paraíso é quente e as pessoas têm fogo na bunda ou sei lá… me atropelavam do mesmo jeito, como que se ligasse o turbo.

Eu ficava boquiaberto com a violência, com a ignorância, com a malcriadagem, com aquele estilo de vida que existia na Paraíso, e me sentia com vergonha de fazer igual. Mas os homens são escravos do que lhes acontecem e depois de tomar pisões daqui e empurrões dali deixei de ser manézinho e fui rebaixado a uma categoria baixa, a dos paulistanos.

Eu entendi finalmente que em sampa espaço é ouro. Ao vencedor, os espaços. Paulistanos são como sem terras, que invadem espaços e brigam por eles com unhas e dentes. E são como as comunidades que precisam lutar por suas batatas, porque dificilmente elas poderiam ser plantadas, e não são suficientes para duas comunidades.

Agora nada era massa, tudo era palha, e na onda de pessoas eu é que dava vaca na galera. Da primeira vez em que fui um pouco mais duro em busca do espaço perdido, olhei para os lados, para cima e para baixo em busca de alguma frase que me dissesse errado. Nada aconteceu. Aquilo era normal, eu nunca seria punido. Empurrar, ganhar espaço… isso é micro sobrevivência. Eu estava transformado. Era mais um paulistano na Paraíso de São Paulo.

Finalmente, vale a pena notar que os trocadilhos não foram tão engraçados assim.

Buso produções – 2

UM AMASSO BÁSICO

Hoje no busão eu comecei a pensar no amasso básico que rola no busão. As pessoas acabam se tocando bastante, muitas vezes contra a vontade e em pessoas nada desejáveis. Em situações como essa o melhor a fazer é fingir que está se encostando em um pedaço de madeira. Qualquer movimento mais estranho ou risadinha de lado pode provocar muita confusão.

Eu vou falar das minhas experiências com amassos no busão. Vou fazer isso me considerando uma pessoa comum, que deve representar outras pessoas comuns. Ignorem o fato de que talvez eu não seja comum. Hoje estou com vontade de repetir algumas vezes a última palavra da frase. E isso termina mais uma frase.

Procuro sempre não tocar as pessoas. Não porque tenho medo de toques. Gosto bastante de tocar as pessoas que conheço. Tocar é uma coisa legal e bastante prazerosa. Eu recomendo. Mas no busão você não é exatamente tocado, a palavra certa é amassado, entre uma pessoa e outra, entre uma pessoa e um banco, entre uma pessoa e o teto, sei lá.

Não tem jeito, quando você é amassado está tocando e existem algumas regras de conduta para casos como esses. Em primeiro lugar, tente encostar apenas a região da cintura para cima nas outras pessoas. Braços e ombros são os mais indicados e os que causam menos embaraço. Costas é permitido. Se você tocar as pessoas com suas pernas, bunda ou o púbis, você estará sendo mal educado, vão pensar que você tem intenções sexuais. Bom, talvez você tenha, mas tome cuidado.

Alguns cuidados podem ser tomados para evitar toques se você não os quer. Primeiro, vá para o fundo do ônibus, lá costuma ficar mais vazio (na maioria das vezes). Espalhe-se bastante no seu lugar, de forma que as pessoas tenham que se adaptar ao seu espaço. Depois que todos estiverem domados, encolha-se um pouco e aproveite a sua mansão. Sente-se na janela, pois quem senta no corredor é inevitavelmente amassado. Compre um carro, enfim.

É preciso pensar agora em situações em que é impossível não ser tocado. Neste caso é necessário desenvolver preferências.

No meu caso, prefiro ser tocado por um conjunto de universitárias lindas dando risadinhas e olhando sedutoramente nos meus olhos. Mulheres feias são preferíveis a qualquer tipo de homens. Se você entrar em um ônibus e notar que não há maneira nenhuma de não ser amassado, dirija-se a um espaço onde seu público de preferência esteja localizado. Não se trata de safadeza, mas de redução de danos.

Você tem o direito reconhecido pela constituição das pessoas comuns em ônibus a tomar medidas não muito educadas caso se sinta ofendido. Assim, se Pedrão estiver encostando a bunda dele na sua bunda, ou coisa pior, você tem direito a dar uma leve cotovelada localizada na boca do estômago da criatura. Após isso, peça desculpas, alegando que foi o balanço do busão. Se Pedrão acreditar que foi o balanço, aplique uma cotovelada mais forte, e assim por diante, até Pedrão se dar conta de que ficar ali é potencialmente perigoso para a saúde. Esta estratégia chama-se “zona do cotovelo” e é muito eficaz.

Ela também serve para quando você estiver sentado e Pedrão ficar encostando o púbis no seu ombro. É uma situação bastante incômoda, e pede a solução do cotovelo. Neste caso, além de dar uma cotovelada em algum nervo da perna de Pedrão, monte uma barreira com seu cotovelo, de modo que mesmo com o verdadeiro balanço do busão, a perna de Pedrão acerte o nervinho no osso do seu cotovelo. Esta estratégia é realmente recomendada. Outra possibilidade é olhar com cara feia, e logo depois aplicar a cotovelada. Os resultados são imediatos.

Você precisa tomar cuidado com as Doras. As Doras representam uma porcentagem considerável de mulheres. Elas têm instintos sexuais semelhantes aos do Pedrão e podem colocar você em situações delicadas. Normalmente, as Doras tentam disfarçar a libido, mas inconscientemente se entregam.

Elas costumam encostar a região pubiana no ombro de quem está sentado, e por vezes acomodam-se de maneira a encostar toda a perna na extensão do braço de quem repousa no banco. Uma situação como essa requer que você tente afastar a Dora. Mas a Dora pode insistir em ficar toda encostadinha em você. Neste caso, você é inocentado e está, de certa forma, indefeso. As Doras costumam lançar olhares maliciosos, mas você deve ignorá-los, pois elas são o paradoxo encarnado. Se você fizer qualquer menção de que está gostando, ou convidá-la para sentar no seu colo, ela tratará você como o pior homem do mundo, ficará ofendida por você pensar que ela é uma prostituta, e assim por diante.

O que você deve entender é que tanto o Pedrão como a Dora estão agindo sob influências biológicas poderosas e podem nem estar conscientes do que estão fazendo. O toque é poderoso, por isso você deve tomar cuidado. Antes de xingar um Pedrão ou convidar uma Dora para sair, lembre-se de que eles são de certa forma inocentes.

De resto, aproveite o passeio, e reze pelo conjunto de universitárias lindas, maliciosas e conscientes da malícia. É como ganhar na mega-sena, mas tem gente que ganha, né?