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a pomba

Hoje, a primeira coisa que eu vi depois de sair da escuridão da estação clínicas do metrô para o sol da Dr. Arnaldo, foi uma pomba. Ela estava pousada no meio da avenida, passeando por ela com aquele andar empescoçado típico das pombas.

É preciso dizer que eu não gosto de pombas. São animais sujos, e estão em número muito maior do que deveriam. Pombas são uma praga para as cidades, como os ratos. Em sua maioria, são feias quando olhadas de perto, com olhos podres e bicos deformados. Uma praga, uma verdadeira praga causadora de doenças.

Esta pomba que eu vi era daquelas meio verdes, meio brancas, meio marrons. Uma das feias. Passeando na avenida. Um ônibus veio em sua direção. O motorista nem deve ter se dado conta do fato. A pomba percebeu tarde demais. Tentou levantar vôo, mas não foi rápida o suficiente. Subindo, bateu embaixo do ônibus e, descoordenada, foi para perto da roda dianteira, que passou por cima de uma de suas asas. Quando eu vi a cena, antes de saber do seu resultado, eu tive certeza de que a pomba morreria. Foi extraordinário vê-la viva após a passagem do ônibus.

A pomba cambaleou um pouco, e dobrou a asa atropelada como se ela não tivesse sido machucada. Eu estava pronto para vê-la levantar vôo e me deixar boquiaberto. Ela ficou parada. Um carro passou ao lado dela, e ela ficou parada. Um outro carro desviou dela no último segundo, e ela ficou parada. Imóvel, imóvel, enquanto sua vida estava nas mãos de motoristas apressados em uma grande avenida.

Eu tive um leve impulso de recolhê-la, mas desisti. Pombas são sujas, e eu não podia saber se ela teria condições de sobreviver após o que aconteceu com sua asa. Talvez eu tenha sido covarde. Enquanto caminhava em direção ao ponto, eu olhava a quase todo instante para a pomba. Ela estava de pé, podia chegar à calçada. Podia, quem sabe, voar. Eu olhava todo instante. A pomba não se movia. E os carros passavam.

É incrível o efeito do medo sobre o comportamento. A pomba ficou paralisada, mesmo estando em risco. Eu queria que aquela pomba fosse um símbolo, ou que eu pudesse tirar uma lição de moral de toda a história. Não pude. Não havia símbolos ali, apenas uma pomba fraca. Fraca porque não desviou do ônibus. Fraca porque não fugia de medo: paralisara. Um bem para a espécie, diriam alguns. Um nada para os homens, nenhuma lição, apenas um pedaço de realidade, da rapidez dos acontecimentos; um lembrete, se muito.

Eu olhei, ela estava lá. Eu olhei novamente, e a pomba…

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Categories: Crônica
  1. May 2, 2007 at 7:55 pm

    Ai, Brero, que coisa triste… Quer dizer, mesmo que tu decidisse ajudar, tu conseguirias? Como se meter no meio dos carros?
    Também acho que as pombas são uma praga. Mas tive uma pomba de estimação, o Corrupto. Nossos cachorros atacaram o bichinho e meu pai, sempre metido a São Francisco, cuidou dela até ela ficar boa. E ela morou um bom tempo no quintal de casa (os cachorros acostumaram e não atacaram mais, ou a pomba ficou mais esperta e não chegou tão perto, nunca vou saber). A questão é que, com um passado desse, não posso me declarar total mente antipática (ou seria antipômbica?) à causa, mesmo sabendo que esses animais são mesmo um perigo à saúde pública.

    RESPOSTA:
    E aí, Nina Sobrinho.
    Acho que se eu tivesse tido uma pomba de estimação, eu teria agido de outra maneira. Ou não.
    Parece que a ONU tá com um projeto de reduzir o tamanho das cidades, de modo que as pombas não tenham mais onde morar.
    Eu acho que não vai dar certo.
    Te cuida.
    Beijos.

  2. May 2, 2007 at 8:30 pm

    Eu não gosto de passaros em geral. Por algum motivo obscuro, coisa do incosciente freud-laca-kleiniano, eu tenho medo.

    Já as pombas são nojentas mesmo. Aqui em Londrina a UEL e a prefeitura estão cogitando fazer uma parceria para mapear as pombas e exterminar 1/3 da população. É mais que uma praga.

    Por outro lado passei a olha-las com outros olhos agora que estou lendo Darwin… rs

    beijos

    RESPOSTA:
    O que Darwin fala sobre elas?
    Estou curioso!!!!!!
    Te cuida!

  3. Marcela Ortolan
    May 2, 2007 at 11:50 pm

    Elas foram bastante importantes no desenvolvimento da teoria da seleção natural. Darwin observou que apesar de as raças de pombos diferirem muito entre-si elas podiam cruzar e gerar descendentes ferteis.

    Entre estes descendentes era possivel observar caracteristicas marcantes do pombo silvestre ou, até mesmo, descendentes que eram aparentemente pombos silvestres!!! Ou seja: todas as mais diversas raças de pombos haviam surgido do mesmo ancestral comum: o pombo silvestre!

    Na época a teoria corrente era de que cada raça havia sido criada em separado por Deus e não se modificava.. enfim, criacionismo. Provar que as espécies mudavam e que espécies diferentes poderiam surgir de um ancestral comum é uma grande revolução.

    Vou falar-te: eu pensei que não ia dar conta de ler o livro. Mas estou adorando! rs

    Beijos

    RESPOSTA:
    Ah, agora eu entendi.
    As pombas ajudaram o Chacha a mostrar o erro criacionista, e cimentar uma nova ciência.
    Valeu pela explicação.
    Boa leitura da “origem…”.
    Beijos, Maga.

  4. May 3, 2007 at 10:59 pm

    Ah, antes da aranha, voltemos a pomba.

    Além de Darwin, não podemos esquecer da importancia da pomba na análise do comportamento. Por algumas peculiaridades da espécie as pesquisas com pombas permitiram que várias questões fossem sanadas com mais rapidez do que se as pesquisas fossem realizadas apenas com ratos…

    E só para constar: hoje fui novamente alvejada por uma pomba. É a quarta vez só este ano. rs

    Beijos

    RESPOSTA:
    Bom, parece inegável a importância da pomba para a ciência. Especialmente para a ciência da qual sou parte.
    Hoje as pombas têm que lidar com novos desafios, como carros, ônibus e pessoas com desejo de vingança por terem sido alvejadas. hahhaha

    Beijos.
    Robson.

  5. May 5, 2007 at 3:01 pm

    Andei pensando mais um pouco no texto… e putz… me identifiquei muito com a pomba…

    Por várias vezes me senti paralizada pelo medo. Hoje estou paralizada pelo medo…

    ai ai, coisas da vida

    beijo

    RESPOSTA:
    É normal ter medo.
    Como estamos no clima Homem-Aranha, lembro uma citação do personagem Surfista Prateado, nos quadrinhos:
    “Não há desonra en falhar. Só existe uma vergonha definitiva: a covardia de não ter tentado”. O criador da frase foi Stan Lee, criador do Homem-Aranha, que colocou a frase na boca do Surfista.
    Aliás, o surfista poderá ser visto no cimena no próximo filme do quarteto fantástico.
    Beijos.

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