ESTAÇÃO PARAÍSO DO METRÔ
O primeiro fato que precisa ser conhecido sobre a estação Paraíso do metrô é que ela é o inferno. A Sé é pior, é verdade, o que me faz ter dúvidas do que pode ser pior do que o inferno que é a estação Paraíso.
Um segundo fato notável é que o inferno é na Paraíso e algo pior do que o inferno fica na Sé (que significa igreja). Eu acredito que seja Deus testando os homens. É preciso passar pelos dois pontos para chegar ao destino final (qualquer que seja).
Terceiro fato notável é a quantidade de trocadilhos que se pode fazer com o nome Paraíso. Eles estão em itálico tanto acima desta linha quanto abaixo, para que os de pensamento mais lerdo possam acompanhar.
Outro fato não tão notável, mas ainda notável, é os corredores e labirintos da estação Paraíso. Há pessoas que os desconhecem. Quem usa a estação apenas para baldeação perde a oportunidade de se perder na Paraíso. São subidas, descidas, curvas, cantos escuros, lojas, sorveteria… tem de tudo na Paraíso.
Não fosse a estação eu não conseguiria me readaptar a São Paulo tão logo quanto fiz. (mentira, ainda não me adaptei, mas vamos fingir que sim para termos texto). O relato a seguir mostra de forma conclusiva como é viver na Paraíso.
Cheguei de Floripa achando que eu era o mais zen dos homens. Cheguei manézinho, estilo sussa, tudo era massa, nada era palha, a vida fluía tal qual as ondas que nunca dropei. Aí me deparei com a Paraíso e suas regras. Rolava aquele amasso no metrô, muito parecido com os amassos no busão, mas com um agravante: todo mundo descia ao mesmo tempo, e não aos poucos.
Esse agravante provoca o chamado “efeito onda”, que pode ser resumido assim: não é preciso caminhar, basta pular e deixar as pessoas te levarem pelo ar. O “efeito onda” é perigoso, como uma arrebentação na sua cabeça; ao invés de levado você pode ser pisoteado pela fúria da maré. Então, como manézinho zen, eu esperava todo o povo passar e saía depois de todos. Mas isso não dava certo. As pessoas vinham de todos os lados e me atropelavam em plena Paraíso. Às vezes eu não perdia o fechamento das portas por pouco.
Passado algum tempo adotei uma solução que me parecia perfeita. Ao invés de ser o último da fila, eu seria o primeiro, assim eu poderia sair correndo e ninguém me atropelaria. O clima na Paraíso é quente e as pessoas têm fogo na bunda ou sei lá… me atropelavam do mesmo jeito, como que se ligasse o turbo.
Eu ficava boquiaberto com a violência, com a ignorância, com a malcriadagem, com aquele estilo de vida que existia na Paraíso, e me sentia com vergonha de fazer igual. Mas os homens são escravos do que lhes acontecem e depois de tomar pisões daqui e empurrões dali deixei de ser manézinho e fui rebaixado a uma categoria baixa, a dos paulistanos.
Eu entendi finalmente que em sampa espaço é ouro. Ao vencedor, os espaços. Paulistanos são como sem terras, que invadem espaços e brigam por eles com unhas e dentes. E são como as comunidades que precisam lutar por suas batatas, porque dificilmente elas poderiam ser plantadas, e não são suficientes para duas comunidades.
Agora nada era massa, tudo era palha, e na onda de pessoas eu é que dava vaca na galera. Da primeira vez em que fui um pouco mais duro em busca do espaço perdido, olhei para os lados, para cima e para baixo em busca de alguma frase que me dissesse errado. Nada aconteceu. Aquilo era normal, eu nunca seria punido. Empurrar, ganhar espaço… isso é micro sobrevivência. Eu estava transformado. Era mais um paulistano na Paraíso de São Paulo.
Finalmente, vale a pena notar que os trocadilhos não foram tão engraçados assim.







