A não-ciência

Eu não gosto de práticas profissionais não-científicas. Acho anti-ético. Vou ter que falar de Psicologia, claro.

O Conselho Federal de Psicologia tem o objetivo de regular a profissão, protegendo os clientes dos psicólogos. Eles barram práticas não-científicas, mas permitem outras igualmente mágicas. O problema não é a magia, o problema é que magia não existe.

Para mim é muito simples: apenas o que pode ser demonstrado deveria ser aplicado. É preciso provas de que o fenômeno está sob controle antes que possa ser dito que ele é controlado. Psicologias filosóficas são fáceis de serem criadas, basta uma boa dose de senso crítico, uma teoria coerente baseada em algumas observações e está feito. O que não for coberto pela teoria é possível encaixar com alguns verbos a mais. Na persuasão e na média eficiência tem-se uma prática terapêutica não-científica.

Eu não entendo pessoas que criticam a ciência. Não que eu não aceite as críticas, mas aprendi que propor alternativas ao objeto da crítica é necessário. Acho engraçado, por exemplo, as pessoas que defendem a fenomenologia não seremo capazes de relatar dados realmente válidos obtidos por seus métodos. A fenomenologia não é uma alternativa à ciência, tenho a impressão, mas sim uma crítica impraticável. A filosofia pós-moderna também critica a ciência. É uma filosofia impossível por sua própria indefinição. Defende que o mundo é mutável demais para ser ordenado. E em um mundo não ordenado não pode existir ciência. Mas o mundo é bastante ordenado sim, e quando muda muito rápido, então a mudança é objeto de estudo científico, e não os absolutos de cada momento.

Eu vejo assim: tudo que não é ciência pode ser criado por uma pessoa sentada. A ciência só pode ser feita com trabalho duro. É preciso preparar condições, medir mudanças, repeti-las, levar os dados a uma comunidade, ser criticado, avançar no estudo. O bom cientista não espera que seus resultados se tornem a verdade. Eles serão inevitavelmente substituídos, e é por meio da escalada que a ciência caminha. Psicologias filosóficas têm caráter relativamente imutável.

Não vou dizer aqui que terapias não-científicas não funcionam. Não sou tolo para fazer tal afirmação. A pergunta é: por que funcionam? Uma terapia alternativa pode realizar 10 ações e apenas uma delas ser a funcional; as outras 9 podem ser perda de tempo. Não vale investigar o que funciona ao invés de continuar com rituais?

Minha crítica é bem ampla e engloba a psicanálise. Sou fã de Freud, ele era um gênio. Tem uma teoria forte, uma prática arraigada e, dizem, funcional. Costumo não acreditar em terapias que duram muitos anos. Não é possível mostrar o inconsciente como proposto pela psicanálise. Não quero adentrar muito para não cometer erros. O que quero é que os freudianos me demonstrem resultados por A+B. Também gostaria que os existencialistas me mostrassem o local onde fica o projeto de vida. Quero que me mostrem como manipulam variáveis para controlar fenômenos. Quero que descrevem passo a passo o processo de terapia, o porquê de cada ação, e em que basearam tais ações. Quero, pelo menos, que defendam uma prática alternativa à ciência que seja realmente digna de nota.

É chegada a hora de admitir que o ser humano é ordenado e que apesar de ser o mais complexo dos objetos de estudo, pode ser estudado. Dizer que a ciência tradicional não se aplica a um objeto tão complexo é um argumento preguiçoso. Eu faço ciências com humanos, por sobre todas as dificuldades, e não sou o único a fazer isso. O “eu acho” não cabe em uma profissão. O “eu vou descobrir” é a frase certa. A Psicologia tem algumas leis. Uma lei é uma relação poderosa e exaustivamente demonstrada. Quantas pessoas conhecem as leis da Psicologia? Quase nenhuma, pois a prática dominante, por motivos que me são desconhecidos, são não-científicas e simplesmente não trabalham com essas leis.

Estou pronto para demonstrar que o que faço é baseado em dados, respeita a individualidade e é extremamente funcional. Tenho compromisso profissional com meus clientes. Não quero vender o que não posso ou não sei fazer. A Psicologia é mal olhada com razão. A física é respeitada, a química e a biologia também. Até mesmo a Antropologia o é. Quero o mesmo para a Psicologia, por isso digo não a não-ciência. Só peço demonstrações, nada mais.

Radical não. Preocupado.